Um quarto de quarto. Mulheres comuns especiais, sem experiência de modelo, sem maquiagem. Iluminação e roteiro improvisados na hora.

O Quartin é um projeto de estudo e experimentação, sobre minimalismo e busca de essência.

*A quarter of bedroom. Ordinary special women without model experience, without makeup. Lighting and script improvised.
Quartin is a study and experimantation project about minimalism and the search for essence.

quartin #13 (portugal) - jo jeremias

O projeto inteiro fugi do clichê "ensaio com meninas fumando", mas estamos no afterlife-quebra-regra, e esse baseado específico tem uma história legal - ele foi o primeiro que passei depois de dias e mais dias fumando sozinho no Porto. Entendedores entenderão o valor dessa passagem.

O projeto inteiro fugi do clichê "ensaio com meninas fumando", mas estamos no afterlife-quebra-regra, e esse baseado específico tem uma história legal - ele foi o primeiro que passei depois de dias e mais dias fumando sozinho no Porto.

Entendedores entenderão o valor dessa passagem.

 

A Jo Jeremias é amiga da Verinha, uma das irmãs Cruz que me receberam em esquema família portuguesa. A Jeremias veio de Coimbra fotografar, e mais que isso, veio fechar bonito o projeto.

O primeiro ensaio em que só vi a modelo na hora do ensaio. O décimo terceiro deles, sendo 13 meu favorito dos números primos (sim tenho um platonismo com números primos e uma leitura meio surtada de destinação pela matemática).

Quando perguntei para Verinha sobre a Jeremias, a resposta foi "muito linda, assim meio estranha, acho que você vai gostar bastante". De fato, a Jeremias materializa meu estilo ideal de beleza, como nenhuma outra que fotografei para o projeto.

Ela é a definição mais pura da beleza toda-errada, a sem igual Beleza Estranha. Cabelo descabelado escondendo o rosto, boca tortinha de sorriso tortinho com dentes amarelados de cigarro, pele tão branca que transparente para a circulação, magrela de linguagem corporal tímida e desajeitada.

Porra Hugo, tá elogiando ou ironia?

E aí chegamos ao desfecho do Quartin, ou "o que eu já desconfiava e ganhei certeza com o projeto".

Padronagens são lindas em arquitetura, decoração, jardins, matemática, roupas e todo tipo de geometrias estáticas, pois criam a ideia de simetria e continuidade infinita.

Em organismos vivos, padrões se tornam justamente o oposto, a morte da evolução por chatice e repetição, até o esvaziamento completo da autenticidade e livre arbítrio.

Aquele penteado que virou tendência, aquela roupa que hoje é moda e amanhã não vai ser para depois de amanhã voltar a ser. Os dentes brancos de propaganda, os saltos que te elevam à instabilidade das nuvens, os seios redondos de silicone dentro de sutiãs apertados, a calcinha desconfortável mas sexy (existe algo menos sexy que desconforto?), aquele esmalte incrível lançado na novela, o corpo de academia com barriga de dieta, o estilo de tattoo bombando no instagram. 

Toda forma de padronização inclusiva significa trocar a raridade em você por elogios de superfície e fantasias de pertencimento. Homens são seres de superfície e pouca sensibilidade, seres que pertencem ao padrão humano.

Mulheres são feitas de profundidade, seres do tamanho de seu mistério. Não confunda as coisas, não caia no blefe, já escrevi isso e desde então continuo repetindo.

Por favor NÃO CAIA NO BLEFE. Dos organismos vivos, a singularidade por excelência está no feminino. Homens representam o humano, mulheres, o divino.

Ou você consegue pensar em algo que se importe menos com padrões do que as aleatórias decisões do divino?

A conclusão do Quartin? Deus existe, com vários nomes mas um gênero específico - o feminino.

Deusa. A conclusão do Quartin é que eu acredito em deusa.

H.I.

quartin #12 (portugal) - joana sequeira

O padrão que se formou foi de um retrato incial, depois texto, então o resto do ensaio. Mas o formato original ficou no meu quarto de Barra da Tijuca. Tecnicamente o projeto acabou. Esse o pós-vida, o aqueronte para os próximos karmas do formato. 

Na Europa eu bem focado em arte e rua, mas se acontece de você estar no Porto, numa casa abandonada com um quarteirão de tamanho e quartos vazios como esse, chão estourado na tinta e janelão para a luz da manhã, você pensa. Se abrir oportunidade, por que não experimentar o conceito? Pop up de Quartin.

Aí você trem/comboio para Lisboa participar de um programa, e o host além de host gentefina é vocalista de uma banda portuguesa que está para lançar o segundo disco. Acaba a gravação e você puto que não agradeceu quem deveria na entrevista, mas é isso, as câmeras desligaram e você ainda sentado no sofá, agora trocando ideia sobre capas de álbum. Você sempre quis fotografar isso.

A Jo a única mina no The Happy Mess. Ela precisava ir ao Porto para um compromisso pessoal. Combinamos de tirar o tempinho que sobrasse para fotografar um conceito para o disco, e já que ela estaria lá, por que não espreguiçar a energia para o retrato com um Quartin?

Preparar um projeto produzindo outro, na sustentabilidade máxima de tempo.

Eu afim de aproveitar cada centímetro de possibilidade naquele novo espaço-todo, a Jo dançarina contemporânea caindo do céu (e pulando de volta), música brasileira no play e lá fomos nós. O ensaio um making of em dança da criação da Joana como entidade de Half Fiction.

Sabe aqueles malucos que colocam as plantinhas para ouvir música? É uma coisa que você acredita ou não, se a plantinha enquanto ser vivo vai absorver aquela energia.

Acredito que os retratos absorvem a energia do determinado espaço-tempo, como plantinhas ouvindo música. 

Foi o estado de espírito da Jo que fez ela vestir uma coroa, e não um barquinho de papel. Maior barato ver final do ensaio ela já na plenitude desse universo em que barquinho de papel é a metade ficção. 

E ela à espera que eu dobre coroa para um retrato metade realidade.

H.I.

quartin #11 - bruca muniz (e julieta e ursa)

Eu e Bruca dividimos vida por 3 anos. Esse Quartin fotografamos pouco antes dela se mudar para NY, onde está agora com a Juju e Ursinha, trilhando o caminho da fotografia com muito talento e luta.

A distância acabou distanciando a gente, mas o carinho permanece.

Esse o último ensaio no meu antigo quarto de Barra da Tijuca, o Quartin original que deu formato ao projeto.

H.I. 

 

quartin # 10 - nayla mazotti

Escrevo em parceria com o que eu to escutando na hora. A trilha sempre encaminha a letra. Vou escrever sobre a Nayla então sem pensar muito duploclico a playlist do Ralo no Spotify. Assim que o som começa eu rio e decido começar o texto com isso.

Escolher hip hop pesado para escrever sobre um feminino sussurra como uma cotovelada a singularidade desse feminino. Primeira vez que a vi a Nayla ela puxou minha atenção de Muito longe e entre uma comoção de pessoas. Eu estava fotografando a Batalha do Real logo quando o mural de homenagem ficou pronto na Lapa, então tinha muita gente. Precisei fotografar um mural de manos só para ter ela na foto.

Engasguei nessa de fotografar a beleza da Nayla sozinha. Beleza dela uma habilidade com a linguagem corporal, a Nayla sabe cativar intensidade e intenção nas sutilezas do subentendido. Falar tudo o que tem para dizer e ainda assim te deixar se perguntando "será que ela olhou pra mim?" 

Mas terminou que nunca mais encontramos, viramos amigos de internet e sei lá, só no ano seguinte consegui minha oportunidade de fotografar. Já bons amigos, a Nayla personalidade forte de quem mergulha primeiro, sabe? Eu gosto de gente assim.

O problema foi convencer ela a viajar para a Barra. A Nayla odeia a Barra mais do que uma herdeira do Alto Leblon que coloca Mouchoque para embalar o relato para as amigas sobre como ela foi destratada em pleno Village Mall.

O nível de preconceito é o mesmo da analogia, mas admito que ela tem razões pessoais e até justas para não gostar do meu bairro natal. Tem sempre aquele barrense que envergonha a responsa coletiva.

Quando fui buscar a Nayla no ponto errado, suas pernas tinham dois metros a partir da bota, cabelão, uma camisa branca lisa e larga sobre o short e óculos cujo reflexo nas lentes redondas lia-se "Eu. Odeio. A. Barra."

Improvisei um macarrão para o almoço e começamos logo depois, e foi divertido e decidido pois a Nayla personalidade forte de quem não segura o bocejo no meio de um assunto chato. Então ela acaba rodando o ambiente numa frequência cheia de energia e sarcasmo e tolerância com os caprichos da curiosidade.

Personalidade forte de quem poderia ter criado o Chicken Game do Juventude Transviada. Só para ganhar a primeira disputa.

Eu ia terminar bonitinho dizendo que ela foi embora com a impressão sobre a Barra refeita, mas a Nayla personalidade forte de quem deseja um caminho tão inquieto que final bonitinho destoa na lógica.

"We are both heading for the cliff, who jumps first, is the Chicken".

H.I. 

quartin #9 - mari salles

Salada de tomate com queijo minas e orégano. Pasta de atum com ervas e pimenta rosa. Torradinhas. Uma travessa INTEIRA de quibe de forno. Balinhas de doce de leite.

Uma opala andina, uma unakita, uma fluorita. Pedras da sorte de um aquariano.

Para quem me chama de Potinho, a Mari chegou para fotografar cheia deles, recheados de deliciosidades e boas energias. Sempre gostei disso nela, esse tipo de pessoa que oferece sem pedir, exagera sem precisar e te desconcerta de forma tamanha que um obrigado se torna pouco.

Adoro ser pego desprevenido.

Retribuí os presentes com meu cristal favorito, e ainda assim pareceu pouco, gratidão de improviso. O ensaio minha melhor chance de retribuir à vera o volume de carinho que entrou pela porta. Para ser sincero, eu não esperava mas já esperava. Conheço a Mari tem mais de década, ela melhor amiga de uma das minhas melhores amigas, que sempre falava "você precisa conhecer a Pretinha". Acabei conhecendo, e desde então nos encontramos de vez em nunca, metade louco metade especial sempre que acontece.

Um carinho que permanece intacto não importa a falta de contato.

Aquele tipo de gente que você adjetiva a risada como "gostosa", sempre que presencia. Só no olhar ela ameniza um bocado o peso do mundo. Entre o carisma, a bondade e o otimismo, a Pretinha é um exemplo de que você pode manter o estado de espírito leve e elevado, mesmo quando a vida não entrega nada fácil. E para ela nunca entregou. Pelo contrário. Foi vitória após vitória, uma mais encarniçada que a outra.

Aquele tipo de guerreiro que bate de frente contra o terror&pânico sem perder um milímetro do humor. O verdadeiro invencível não é quem sempre ganha, mas aquele que não pode ser derrotado (sabedoria de boteco).

Até que um dia o oponente cansa.

Pelo que eu fiquei sabendo, foi o que aconteceu. A vida parou de bater e agora está entregando o que a Pretinha merece, irradiando inclusive pela família. Sua mãe (a guerreira-mãe), também venceu a maior batalha contra o câncer. E seus sobrinhos, que ela mantém abrigados na sua mansão-coração, não vejo como dar errado para os garotos não.  

Preciso escrever sobre as fotos né? Sobre as fotos, o primeiro ensaio todo em PB, porque eu prefiro PB e ela uma das minhas pessoas favoritas. Por causa do tom maravilindo de pele. E talvez por causa do Botafogo, porque ela uma das minhas botafoguenses favoritas.

Foi a primeira que mandou a real e avisou que queria fotografar com minhas meias. Meu ciúmes daquele tipo que só ativa para coisas idiotas, como os meus pares de meias. Ela sabe disso, mas também sabe que pode o que pode. Pega a do gnomo, Pretinha, que você pode.

Um último detalhe (e grande ensinamento de vida). Nascer com o lóbulo da orelha partido uma das coisas mais divertidas que existem. Se você coloca um brinco, transforma sua orelha num charmoso peixinho. Se bobão como eu, pode mentir para desconhecidos que rasgou numa briga de bar, ou na mordida do pitbull do vizinho.

Sim, nós também dividimos essa característica. Além da melhor amiga. Do gosto por potinhos e laricas e pedras. Do Botafogo. Da predileção por meias. E de um coração teimoso no otimismo.

Encontro a Pretinha de vez em nunca. Mas parece que quando encontro, acabo é me encontrando.

Que venha mais uma década sendo pego desprevenido pelo amor dessa mulher melhor.

Obrigado Mari.

H.I.

 

 

quartin #8 - carol martins

A Carolzinha minha modelo favorita de todos os tempos desde que fotografamos para Subcon. Cabelo amarrado na cara, maquiagem pesada, penas de pombo atropelado em frente ao meu prédio (acho que ela só sabe da origem agora), e um ovo com um olho pintado dentro da boca.

Imóvel por muito mais tempo que o incômodo.

Tem que ser muito amiga e muito guerreira para topar uma dessas. Talvez por isso quando chegou pra fotografar o Quartin, não demos a mínima para o ensaio. Pelo que já vencemos, aquela tarde seria fácil.

Ficamos trocando ideia enquanto ela terminava de trançar um cristal meu em cordão. 

Aliás, que habilidade. Artesanato quando bem feito um processo mágico. Me fez lembrar um jogo de cama de gato bem mais complexo, todos os dedos empenhados na formação de uma intrincada sequência de nós em rede.

Ela me contou sobre projetos e sonhos românticos que incluem fugir da babylon e cultivar hortas em formato especial para a babylon (não digo qual é porque acho que ainda segredo).

O curioso que os assuntos utópicos, mas ela trata de forma meio distópica, séria, até um pouco melancólica. Fiquei meio desconcertado com essas pequenas contradições, ao perceber que uma das pessoas mais leves e espontâneas que conheço trata a vida com bastante gravidade. Ainda não havia notado, talvez porque ela esconde na cara, como eu fazia com minhas anotações ultra secretas.

Por exemplo, estranho escrever que a Carol não é muito de sorrisos, fuma uma quantidade respeitável de tabaco e guarda uma certa angústia no olhar. A exceção é tão arrebatadora que toma as vezes de regra.

Ela vai sorrir e um holofote dos céus com direito a corinho gospel. Prepara e acende seus cigarrinhos de forma tão prosaica que parece fumando de brincadeirinha. Possui um olhar que te atrevessa de uma maneira que você só se importa em esconder os cantinhos feios da alma.

Quando finalmente partimos para a fotografia, ela provou a teoria, realmente minha modelo favorita. Não perde tempo com pouco. Para, pensa e experimenta, certeira sempre. Sem desperdício como uma pessoa do futuro.

Terminamos o ensaio com uma versão da nossa primeira foto clássica. Cada vez mais simples tirar resultado do encontro. Minha amiga poderosa só precisa de exceções no espaço-tempo para marcar sua presença.

Já falei que ela minha modelo favorita?

Não poderia ter minhas pedras de energia tramadas por outro alguém.

Não poderia voltar pro Quartin com outro alguém.

Bom estar de volta, aliás.

H.I. (fã de carteirinha dessa mulher)


quartin fase II

Foi uma pausa considerável. Uma viagem para Europa, uma mudança de endereço e de paradigma. Os sete primeiros ensaios, um estudo para desenvolver dinâmica e estilo em direção de modelos.

Mas os quartins se multiplicaram em outros nomes, outros fotógrafos e outras meninas. Não cabe a mim julgar e ficar de mimimi, o destino de tudo é ser ressignificado, ainda mais um conceito tão simples.

O que cabe é usar a experiência adquirida para manter o projeto fresco e único, sem descupinhas e sem acomodação.

Antes as fotografias uma tradução do texto e vice versa. Daqui para cima, complementares.

As palavras, sobre as personalidades que me iluminaram o espírito. As fotografias, minha linguagem artística sobre o minimalismo de corpos humanos e experimentos visuais de sobreposição com a infinita biblioteca de imagens que mantenho sem portfolio.

Bless arte.

H.I.

quartin #7 - julia oristanio

Magnetismo. Pequena e na dela, a Ju um discreto sol queimando em azul enquanto sustenta duas galáxias no formato de enormes olhos de gato. Ela exerce sua gravidade com confiança para trabalhar distâncias.

Só aproxima o que faz bem ao seu centro harmonizado em yoga.

Na dela que é, e eu na minha, nunca tínhamos trocado ideia, apesar da vastidão de amigos em comum. Ainda não conhecia a carismática urgência da Ju em viver nos segundos.

Gente que pula nos assuntos, encadeia pensamentos sem maior preocupação com filtros. Divide intimidades e cotidiano com a mesma confiança instintiva, quase temerária. Pergunta na curiosidade genuína de quem sabe que Tudo ensina. Ela sempre deixa um gancho para o assunto retornar após o silêncio levantar opinião.

Muito bom trocar tempo com quem vive no segundo.

A Ju atriz que leva a sério e desde cedo uma das vertentes que considero mais complicadas em arte. Tomou a decisão que me faltou coragem quando novinho – dar o gás para girar a vida que ama Antes, e se não der certo, Aí sim preocupar-se em fazer funcionar do jeito chato.

Já enfiou os pés pelas mãos, os dedos no liquidificar, narra as histórias com certa nostalgia. Saiu para a varanda apesar de eu falar que tinha quebrado uma lâmpada. Furou o lençol. Contou do momento de transição e das novas cores nos seus dias.

Não pareceu arrependida de absolutamente nada. Tudo parte da altura incrível em que seu espírito se encontra hoje.

Toda a tarde durou uma batida de ponteiro. A Ju foi embora e a contagem se reestabeleceu, e ganhei um ponto de vista. Achava que era uma ironia do tempo passar rápido quando se está aproveitando. Nunca cogitei que pudesse ser uma condição.

E se compassar a vida em segundos for o melhor ritmo de absorvê-la?

Talvez a Ju não tenha urgência, apenas uma noção superior de cadência. Ela sem pressa de correr aos encontros, mas atenta para evoluir em cada micropartícula de tempo que eles oferecem.

Agora entendo porque ela não liga muito para a beleza dos seus traços. O que acontecendo no núcleo tão mais instigante e sutil.

A origem do seu campo gravitacional muito abaixo da superfície. Ela cria galáxias no átomo.

H.I.

quartin #6 - anara junger

O processo longo e cachorro. O primeiro achar é sempre que você está errado. Aí você cresce para confirmar isso, mas aprender que o mundo também todo errado, então de alguma forma você não deixou de estar certo.

Amor próprio é resistência. Resistir à tentação de acomodar as quinas do seu quadrado ao círculo de pertencimento do que os outros esperam de você. Esconder as asas, voar baixinho até elas grossas e enormes que ninguém se atreva a cobiçar, ou apontar o dedo pra cortar o barato. Suas pequenas revanches sarcasmo e seletividade de companhia.

Excluído, mas exclusivo, você se torna sua maior amizade, o contador de piadas e aquele que ri. Sua estranheza constrói uma casinha numa colina deslumbrante, porque os cantinhos mais bonitos a natureza guarda longe, acessível só por merecimento e exílio.

Você torna-se a paisagem, e um horizonte consegue ser grande o bastante para admirado a distância. Agora pertence às primeiras e últimas cores do dia, que silhuetam a casinha. E chega uma tarde em que finalmente você passa a cagar pro pertencimento. Não vai arredondar sua sala porra nenhuma, você gosta muito dela do jeito que está, naquele quadrado meio tortinho pois se construiu sozinho e entortou com o peso da normalidade.

Uma bloca redonda de concreto que já não está mais lá.

Sabe quando você vê uma pessoa estranha que te agrada sem explicar porque? É porque você está vendo de muito longe. Gostaria de estar na salinha do quadrado torto, bebendo um café e fumando um enquanto descobre que é a atmosfera que agrada.

Mas você sabe que só se pode chegar lá convidado. E a pessoa que morou lá sozinha a vida toda e com isso aprendeu a amar cada pedacinho da residência, essa pessoa estranha só tem convites pra quem fica confortável na presença da sua melhor amiga solidão.

Falei pra Anara que tinha achado ela bem estranha, e queria fotografar. Ela não sabe, mas já sabia tudo o que eu escrevi aqui em cima. A que melhor entendeu o elogio, talvez a única que entendeu se tratar de um elogio.

Esse é o quartin dentro da casinha silhuetada lá no horizonte. A Anara a rainha do lugar.

H.I. 

quartin #5 - ana mourão

Conheci a Ana de uma festa que ela produzia. Cabelão cheio, cor de fogo, rádio na cintura, uma roupa meio louca e sorrisão carismático. Ela parecia poderosa e feroz e gigante.

Chegou para fotografar o seu outro lado. Pequenina, discreta, com uma fala mansa e olhar perspicaz mas introspectivo. Eu tinha acabado de arrumar o quartin, então fui tomar uma ducha rápida.

Quando voltei, ela lia as anotações do meu projeto mais ultra master secreto, que escondo estrategicamente na cara de todo mundo. A Ana não só foi a primeira pessoa a sacar o esconderijo, como foi direto pras anotações, e ainda botou pra tocar Alt J, uma das principais trilhas que escuto pra produzir.

Dez minutos sozinha e ela tinha entrado na minha cabeça. Aquilo seria interessante.

Descobri que a Ana escreve para a sua maior paixão – teatro. Por isso foi guiada aos garranchos no papel. Ela estava lendo o livro de sua peça favorita, com uma personagem que considerava seu alter ego.

Sobre o ensaio, não lembro muito da fotografia em si, apenas de uma longa conversa entremeada por flashes. Estava mais interessado em igualar o campo, destrinchar a pessoa complexa, cheia de anjos e demônios divertidos, que bisbilhotou meu núcleo.

O interior da Ana incandescente como o cabelo, e calmo. Tipo uma lagoa que reflete o céu, enquanto o céu em chamas. Grandes esperanças, maiores frustrações, as roupas de ficar em casa mais confortáveis da história têxtil, vestindo uma mulher sexy do mindinho torto aos buracos da camisa favorita aos olhos que puxam à imersão (e avisam que talvez não haja fôlego para voltar à superfície). Ela uma abordagem bondosa sobre o que passou, e otimista sobre o que viria com os 24 anos que completaria na semana seguinte.

Os flashes cessaram e o papo continuou, e continuou. Ela foi embora me conhecendo mais do que muita gente, e esqueceu o livro que me permitiria conhecer seu alter ego. A peça realmente muito boa, mas a personagem, azeitona. Gosto pungente, formato e cor que te instigam a mastigá-la. Uma vez na boca, logo se desfaz à caroço instransponível.

Primeira vez que falo isso para a Ana, mas acho que ela inverteu a função do alter ego. Geralmente nós as azeitonas, cercadas de recheio mistificado para quando restar só caroço.

Mas a Ana já recheio, puro mistério e mística e tempero.

E recheio nenhum deveria simplificar-se à efemeridade e núcleo duro de uma azeitona. O alter ego da Ana são palavras. Ela, o que deixou de ser dito quando as páginas decidiram viver.

H.I.

quartin #4 - rachel dias

Minha primeira memória da Rachel não é nem dela, mas do meu irmão ensinando para uma menina de 15 anos manhas de relacionamento que teriam criado uma mulher indestrutível (e talvez meio amarga).

Mal sabia ele que não é tão fácil assim endurecer doçura.

Caçula de um trio de irmãs poderosas, a Chel convive até hoje com a posição de garotinha da família, internalizando uma timidez que eu não consegui vencer até metade do ensaio.

Numa pausa para inspiração, enquanto ela conferia o preview na câmera, desconfiei de um detalhe. E o detalhe fez toda a diferença.

Quando voltamos, um mulherão na minha frente, sexy, meio marrenta, com um corpo infinito e o característico sorriso de criança atentada (mas tão doce que os pais não conseguem colocar de castigo).

O ensaio se tornou a narrativa de uma vida inteira. A moleca vidaloka que aos 20 anos apareceu com os joelhos ralados do tobogã do Rider Weekends. A adolescente tímida que acha conforto se dobrando e gosta de se expressar por mãos e pés. A mulher que você gostaria de ter ao seu lado na cama.

Montei tudo junto, porque não tem cronologia, a Rachel é tudo junto. Sim, ela muita coisa, a habilidade de manter os melhores detalhes de cada pedacinho de caminho.

Imagina uma daquelas estradas sem começo nem fim no deserto. Os nascentes e poentes mais bonitos para assistir de qualquer ponto, e a juventude de um percurso que não acaba.

Mas toda a areia em volta precisa saber que pode se abrigar no seu caminhãozinho.

No caso da Rachel, muita areia. Numa quantidade que move a ampulheta do tempo na direção em que deseja.

H.I.

quartin #3 - miúda

A Miúda é uma mulher especial em vários sentidos. Mais um anjo português que cruza minha vida para abrir caminhos. Uma das profissionais mais sagazes com quem já trabalhei, amiga de confiança e supermãe do Zico, que trouxe sozinha para criar no Rio.

E que visão admirável de criação a Tânia tem.

Ela convenceu o Rabisco a dar aulas de graffiti para o filho, que em teoria seria novo demais, mas se passar por um muro vai tirar onda contigo, reconhecendo os artistas nas paredes da cidade.

A Miúda também convenceu o Pedro Jardim a ensinar escultura pro garoto, e já marcou umas aulas de fotografia comigo. Quando veio aqui, o Zico preferiu ficar desenhando do que instaurar o apocalipse no estúdio. Em resumo, a Tânia está cultivando um prodígio artístico no meio dos tios, enquanto ganha a vida na arquitetura, vende arte e participa dos nossos projetos malucos de Novecinco.

Disposição purinha, mulher decidida, com um sorriso cativante de dentes separados, tão resolvida que acaba resolvendo a sua vida também (sem você pedir). Por isso estranhei quando ela chegou pra fotografar meio ressabiada. Ela explicou os motivos no carismático sotaque da terrinha e perguntou se eu tinha uísque.

Você pode imaginar o sorriso de resposta.

Minha maior preocupação era a Miúda estar com saudades brabas da cria, que tinha viajado para Portugal passar umas semanas com o pai. Cabeça longe, não iria dar certo. Enquanto atualizávamos os planos de dominação mundial, pensei em como trazê-la do velho continente. Então imaginei um ensaio para o Zico, uma história divertida em que a mãe dele fosse uma heroína que voa e se multiplica e faz vários paranauês psíquicos.

Foi expansivo pensar como criança, esticar nos experimentos, criar filtros com luzinhas de brinquedo, aproximar da minha fotografia de arte, afinal já trabalho com a Miúda nessa área, e ela é do tipo que você precisa pensar bem antes de sugerir alguma maluquice, porque ela leva a sério e aí você tem que segurar a onda da própria viagem.

Ninguém melhor para aceitar direções como:

- Então Miúda, se joga de cara. Boa, agora de olhos fechados. Tá, agora vamos repetir, que o bastão de luz apagou na hora.

No final, não é que a mãe do Zico é uma super-heroína mais divertida que a Mulher Maravilha? A Mulher Maravilha é amazona, uma mulher gigante por natureza. A mãe do Zico conquistou todos os poderes num mundo que não costuma distribuir muitos, cresceu infinito dentro de uma composição miúda, e com uma visão das alturas, está criando um gigante.

O futuro velhinho aqui agradece pelo carinho dispensado no cultivo da juventude.

Esse é para todas as mães.

Obrigado Miúda!

H.I.

quartin #2 - mari milani

Sou amigo da Mari há uns 3 anos, ela é uma pisciana de temperamento forte (leia-se pavio curto), inteligente e avoada, e também a mulher mais entendida de heteronomia que eu conheço. 

Quis fotografar ela pro Quartin para ter certeza de que minha visão fotográfica não estava com algum vício agarrado. Se tem uma coisa que as irmãs do clã Milani me ensinaram é que preconceitos de gênero só deixam o mundo mais intolerante, e muitos se escondem no hábito.

Por algum motivo só encontrava com a Mari em fins de noite, num estado que não permitia diálogos mais elaborados. Então gastamos metade da tarde atualizando as novas.

Minha favorita foi que ela está com uma banda em família chamada Netuno, que tem uma pegada bem diferente e desconfio, você ainda vai ouvir bastante. Voz grave, meio rouca, misteriosa, ébria, sexy. Era o ensaio que eu imaginava.

- Mari, quero as fotos como sua voz.

- Ok, vou meu alongar.

Durante o alongamento, enquanto setava a câmera, uma foto de teste acabou dando o caminho.

- Meu bem, pode continuar alongando à vontade.

Aproveitamos a tarde pra revezar na seleção da trilha. Cresci minha cultura musical e a sessão fluiu por encanto, pois a Mari é cheia das belezas sutis: pintas formando constelações na pele, tonalidades desbotadas de rebeldia no cabelo, uma falha matadora na sobrancelha e principalmente a confiança de atitude, absoluta e atípica para alguém com 22 anos.

A Mari tem a consciência total da mulher dentro dela, a sensitividade e poder interno, e as verdadeiras batalhas a serem travadas com o mundão. Acho que percebi porque feministas incomodam tanto. São o feminino no grau mais refinado. Tem que ser homem de verdade pra saber apreciar. Os garotos vão continuar garotos, reduzindo, cantando de galo, fazendo gracinha - com medo.

Foi um enorme prazer Mari, obrigado pela confiança. 



quartin #1 - rafa carmona

A Rafa é gaúcha e leonina, uma combinação que quando dá certo cria mulheres doces e fortes. Ela teve uma infância cigana e decidiu encarar isso do jeito certo, sem muito lamento na hora de levantar raízes.

O resultado foi uma pessoa bem única, que leva a doçura no sotaque e na gentileza de espírito, e é espontânea para viajar até a Barra e fotografar com um conhecido num projeto experimental em um estúdio inventado no dia anterior.

O tipo de gente que eu gosto.

Quando chegou, a Rafa me contou que está se formando em dança, então criei dinâmicas de movimento e fui sugerindo para ela como se soubesse exatamente o que estava fazendo.

Ela parecia saber mais que eu, tanto que colocou Howling Wolf pra tocar. Respeitei muito. Na verdade, o som definiu a estética meio retrô do ensaio. Se fotografia viesse com trilha, você estaria ouvindo isso agora.

Crescemos intimidade pela tarde, e quando conquistei o seu olhar, não era mais a menina curiosa e ressabiada que chegou com um baralho de tarô para jogar meu futuro. Minha câmera havia se tornado velha amiga e nova amante, com intimidade para buscar a mística interior que magnetiza a linguagem corporal da Rafa e os traços do seu rosto.

Terminou que nem jogamos o tarô, e não precisava, ela já tinha me dado toda a visão de futuro que eu precisava. Fomos beber uma cerveja pra comemorar.

Obrigado pela confiança lindona, espero ter passado a pessoa incrível que você é.