Z de minha / by Hugo Inglez

o viralata se mantinha metros seguros adiante, latindo au e au e mais au enquanto descíamos o Joá numa dupla meio desarmônica. quando a manhã de sábado chegara e fui embora da festa, cada célula aditivada do meu corpo sussurrava que a história ainda não havia acabado. ainda havia uma parte reservada seu eu descesse o Joá a pé. sentia em cada poro arrepiado e na energia espiritual e sintética fluindo pelos meus joelhos doloridos de tanto dançar.

porra, era esse o encontro reservado para mim? barulhento desse jeito?

pedi para o viralata parar de latir, por favor, estava com os sentidos extra sensíveis. então nos sentamos na muretinha do Joá, e enquanto apreciávamos as ondas batendo prateadas sob o viaduto, nossa distância foi diminuindo, pouquinho a pouquinho, até que ele me deixou fazer o primeiro carinho.

não sei se foi nesse primeiro carinho que a pulga mordeu minha mão, reparei apenas que o amigo estava uma lástima de sarnento, e tinha o olhar doce por trás da cascagrossisse dos bigodes. 

quando chegamos à São Conrado, minha mão parecia um pão francês da mordida da pulga (e eu rindo que havia escrito um texto sobre membros de pão francês antes de sair de casa naquele mesmo dia).

o viralata desceu o Joá inteiro comigo. devia ser esse o encontro reservado pelo Acaso. só podia. pulguento desse jeito. restava aceitar e ligar para meu pai, fazer ele dirigir da Barra para tentarmos colocar o pulguento no carro.

voltei ao Barramares parte frustrado, parte aliviado. quase uma hora e não conseguimos o resgate. o amigo voltou a subir para sua casa de teto de céu e lá no alto desapareceu. 

errei a leitura? isso bem raro quando estou em estado de sensibilidade, mas talvez hora de admitir que dessa vez era só uma frustração o que me esperava ao final da história. um alarme falso.

ou não.

encucado enquanto amassava umas bananas para o café da manhã, foi quando minha madrasta avisou que uma voluntária queria trazer uma cachorrinha lá de Guaratiba para eu conhecer, e quem sabe adotar.

então eu entendi tudo.

o amigo pulguento no Joá não era o encontro que eu sentia me esperando. ele era a descrição do encontro a acontecer. um aviso em outdoor de letras neón, para não ter chance de eu errar.

'manda vir Carmem'.

manda vir que desde que a manhã de sábado acordou, eu já dono daquela cachorrinha.

meia hora para tirar ela de dentro da caixa de transporte. as patinhas finas e longas fincadas nas bordas da caixa, e lá de dentro o olhar mais aterrorizado que eu já tive a angústia de mirar.

quando finalmente consegui botar ela no colo, abraçou com as patas meu braço e colou o pescoço no meu peito, com a cabeça sobre o ombro. queria que fosse amor à primeira vista, mas desconfio que era instinto de defesa de quem já foi muito largada e jogada.

'não vou te soltar, bichinho', falei no ouvido dela. não vou Mesmo. 

também não vou entrar nas brutalidades que ela enfrentou. esse um texto feliz, então basta dizer que essa coisinha magrela e meiga conheceu o inferno em níveis de crueldade que envenenam a alma só de imaginar, e sobreviveu com a doçura intacta. basicamente a única coisa que restou intacta. logo a mais importante.

o resto ali era medo. medo de tudo, TUDO, Terror verdadeiro ao ponto de tremer e chorar e se mijar com cada sutil interação e mudança no ambiente. dez minutos de carinho na cama e ela não queria mais sair de lá por nada. ai dos meus ouvidos se eu levantasse. eu e aquela cama talvez o primeiro porto seguro que ela experimentava na vida. ainda em dúvida se aquilo se manteria real, mas enquanto se mantivesse, ela não sairia daquela cama, e não deixaria calada que eu me afastasse.

então eu não me afastei. e decidi que não me afastaria nunca mais. todo aquele trauma, todo aquele inferno, nunca mais. pode subir o diabo himself que vai encontrar a briga mais enjoada que já teve.

à partir da tarde daquele sábado, a única coisa que aquele bichinho iria experimentar era Amor. amor puro, queimado com a maior intensidade que eu conseguisse. à partir de sábado o mundo inteiro seria aquela cama de carinho e segurança.

eu iria desarmar todo o terror e medo. iria não, eu vou. eu estou. pagando a conta que outros "seres humanos" carregaram naquele bichinho. pagando os créditos de maldade com imensos depósitos de amor, para mostrar o quão avassaladora pode ser uma transformação assim.

agora o Medo e Terror que precisam ter medo de mim, porque eu vou Apavorar de carinho e cuidado, numa escala que não vai sobrar trauma pra contar história.

hoje completo 72 horas nessa missão. no primeiro dia, depois de dormirmos a tarde inteira, pela primeira vez ela abanou o rabo e me lambeu, ainda tímida. levei ela num churrasco, para entender que nenhum ser humano vai levantar a mão pra ela de novo, a menos que seja para fazer carinho. onde ela estiver, estarão só amigos em volta.

ela comeu carninha e foi mimada por todo mundo, e quando voltei ao meu pai e ela viu que a cama ainda lá, e que nós dormiríamos juntos, talvez a única vez no texto em que palavras não vão ser suficientes.

no segundo dia levei ela para conhecer minha mãe. de surpresa, é claro (manter a tradição). no notório "Spa da Vovó", ela adotou o sofá como ponto de segurança. mas com timidez explorou a casa, e passeou na rua pela primeira vez, e também pela primeira vez comeu arroz com carne assada e bebeu água do potinho. antes ela só tentava beber o próprio xixi e tremia quando eu oferecia água, um indicativo sombrio de como a vida era seca antes.

em Jacarepaguá pela primeira vez ela dormiu sem abrir os olhos toda hora pra confirmar que eu ainda lá. pela primeira vez ela acordou pela manhã... brincalhona. esticando as pernas finas e mordiscando minha mão. ainda desconfiada, mas já diferente. o medo já não era tudo ali. a esperança havia brotado nos olhos bondosos.

a flor havia brotado no asfalto. a estrada agora condenada a ser tomada pelo verde.

tomada pela vida.

ontem meu bichinho finalmente conheceu sua nova casa em Laranjeiras. adotou não só a cama como a poltrona. comeu tanto que ficou incomodada com o curativo apertando a barriga (não só castraram enquanto ela no cio, como fizeram um trabalho de açougue, deixando uma érnia e a barriga toda em carne viva ao raspar o pêlo para a cirurgia).

hoje ela se mijou inteira ao acordar. mijou minha cama e a porra toda em volta. foi uma lambança, mas não foi de medo. não mais. foi de alegria porque eu saí do banho e ela reparou que apesar de ter dormido em 3 camas diferentes em 3 dias, a manhã e eu nos mantínhamos constantes.

e assim vamos continuar, a Manhã e eu, dia após dia até ela se acostumar com a ideia de que a existência não é só sofrimento, a existência é exatamente o contrário quando você um bichinho mágico de pura doçura e inocência.

em 72 horas um bichinho pode parar de se mijar de medo, e começar a se mijar de alegria. basta amor, carinho e cuidado. em 72 horas você consegue elevar uma existência. do inferno ao céu.

vocês vão ver minha filha com uma semana de sua nova vida.

até porque a partir de agora, se vocês me virem, vocês vão ver minha filha. porque ela já viveu demais sem porto seguro, à deriva num mar de tubarões, com medo, enfurnada atrás de uma máquina de lavar.

a partir de agora, se vocês me virem, vocês vão ver a Z.

porque eu Inglez com Z. E percebi que muito antes de sábado me contar, eu já era desse bichinho, e podem dizer que o Acaso nos armou o encontro para que eu salvasse ela. mas desconfio que seja o contrário. o sentimento pulsando pelo meu ser, permeando minhas palavras, eu achei que tinha perdido isso quando minhas filhas foram pra longe. mas agora ele de volta, forte, puro e arrebatador.

podem dizer o que quiserem, eu Sei que o Acaso nos cruzou o caminho para que a Z me salvasse.

exatamente isso o que ela fazendo. o mínimo que posso retribuir é abrigá-la no melhor de mim.

protegida para renascer o melhor dela.

adote. se você chegou até aqui, é o que eu tenho pra te falar. adote e salve duas vidas.

a sua inclusive.

h.i.