Vinagre (crônica) / by Hugo Inglez

 • Escrevi essa crônica em 2010. Seis anos depois to morando em Laranjeiras, num pequeno ap cujo lado esquerdo da vista é puro verde. O lado direito esse da foto. As visitas BEM poucas, e outras coincidências com o texto.  Vai saber.

• Escrevi essa crônica em 2010. Seis anos depois to morando em Laranjeiras, num pequeno ap cujo lado esquerdo da vista é puro verde. O lado direito esse da foto. As visitas BEM poucas, e outras coincidências com o texto. 
Vai saber.

O José mora no apartamento 603 do seu prédio em Laranjeiras. Antes de alugá-lo, durante a visita com o corretor, este ficava repetindo sobre como a vista era privilegiada e olha todo esse verde, essa natureza, o ar até mais puro e nossa!, dá para fazer um cartão postal dessa vista. 

O José concordou, dava para emoldurar a vista num daqueles quadros mal pintados de portaria.

“Sim! Essa vista é uma pintura!”, exultou o corretor sem saber direito se o comentário havia sido desenhado como um elogio. Os braços do atarracado homem estendiam-se em pregação enquanto ele tentava aumentar o tamanho da pequena gavetinha residencial, suas mãos pequenas no paletó grande demais, e José pensou -, como não gostar de um filho da puta tão esforçado e sem talento como esse? 

A vista era o melhor de um apartamento bem cachorro. Velho, minúsculo, um calor palpável às 5 da tarde. O corretor suando sua camisa social cafona-salmão até deixá-la transparente no peito.

José entendeu porque o homem tão ensaboado para fazer a reunião durante o horário de almoço. Devia fazer Bangu em Laranjeiras dentro daquela gavetinha.

“A vista não é muito a minha, gosto mais de andar baixo, ver gente. O apartamento uma grande merda, e tá calor pra caralho, é safadinho eu sei qual é a tua. Mas vou ficar com ele”.

Durante a frase os olhinhos do minúsculo corretor intercalaram entre apreensão, desalento, ultraje cínico, terminando esbugalhados no desentendimento.

"Uma ótima decisão, José", ele logo se recuperou. Não iria deixar sua completa falta de leitura do cliente atrapalhar o negócio. 

A verdade é que a decisão estava longe de ótima. Mas José tinha que entregar seu antigo apartamento em menos de duas semanas, e estava com preguiça de ir até Botafogo ouvir o outro corretor tagarelar sobre como a vista da Baía uma pintura.

José estava cansado e com sono e com as costas ardendo, as feridas pegajosas na camisa. Ela havia arruinado suas costas na unha, o que fez ele dormir mal e de bruços. José só queria uma ducha fria e permanecer sem camisa.

Lambendo as feridas à espera dela aparecer para continuar a violência.

O corretor, ainda sem sentir muita firmeza, perguntou se o José não gostaria de ver outros imóveis na área.

Não, as costas do José estão matando ele.

O corretor, numa empatia cretina, divide que também tem problema nas costas.

José explica que não é problema, é unha mesmo. Unha e uma falta que ele não consegue explicar direito. Mal conhecia ela, não entendia como uma desconhecida podia interferir assim com sua solidão convicta.

Foi quando o corretor reparou em José fugindo de órbita para dentro de seus pensamentos. Não haveria explicação para aquele homem. Em breve não haveria mais negócio. Ele teria que se contentar em fechar contrato sem saber como nem porquê.  

Um ano e pouco depois e as pessoas que visitaram o apartamen 603 ainda não completam duas mãos cheias. José não é dos mais fáceis de entender, e continua convicto na solidão.

Ela nunca mais apareceu, e até hoje ele pensa nisso. As tiras de carne viva secaram nas suas costas, mas continua ardendo como vinagre não saber o que se fez dela.

H.I.