Sobre dentes manchados e ossos inteiros / by Hugo Inglez

Nunca precisei usar gesso. Considero isso uma falha grave de infância - eu poderia ter me quebrado mais. Deveria ter me quebrado mais, usado a tipoia como cordão, e uma régua para coçar o braço.

Alguma coisa deu errado.

Eu queria levar o raio-x para tirar onda no colégio, falar para o professor que não ia copiar porra de aula nenhuma porque sou destro, e contar para as menininhas sobre a briga de bar com a máfia russa para salvar um pobre caõzinho indefeso.

Mas meus ossos continuaram inteiros, e ninguém rabiscou meu braço branco. Nenhum coraçãozinho das meninas, nenhuma pixação tosca dos camaradas.

Freud diria que sou tatuado por causa disso (e por causa da minha mãe, é claro).

Eximindo a dona Cátia da história, talvez o mano Sigmund tenha alguma razão.

O quanto minha criança preservou os ossos, descontou nos dentes. Isso garantiu ao adulto alguma paz de espírito, afinal todo moleque atentado enfia os dentes em algum lugar da infância.

O sorriso meu atestado de menó atentado.

Eu só exagerei um pouco. Meus dentes de leite tinham uma atração especial por superfícies duras como paredes, pisos ou a testa de outra criança. Eles não caíram, mas se aguentaram até onde deu.

Os definitivos vieram sofridos, pré-adolescência de boca pro ar no consultório da dentista. Quando o trabalho incrível da doutora Tani ficou pronto, passei a estragá-lo reiteradamente com encantos simples como café, vinho, tabaco, hax, guaraná, açaí, chá.

E café.

Não fiz um bochecho sequer com Listerine Whitening para aliviar meus dentuços dentes reformados. Prazeres deliciosos, daqueles inegáveis, o que eu podia fazer, dieta? Meus dentes manchados eram a narrativa de deleites repetidos.

Cicatrizes de continuidade.

Fiquei velho e percebi que a vaidade só tem poder em pessoas inocentes de experiência. Beleza intocada funciona com natureza e bebês. Beleza de gente grande é o acúmulo de marcas, o que você precisou passar até aprender a segurar a onda dos seus hábitos e acidentes de percurso.

Comerciais de branqueador são sobre solteiros sem papo e casais que preferem dentes 3 vezes mais brancos a esticar na cama e dar aquela umazinha gloriosa da manhã.

Prefiro gente que acorda com as laterais dos dentes escuras do vinho da noite anterior, sem lembrar da onde veio o roxo na perna. Essa galera sim.

Essa galera sim.

H.I.