Por trás das nuvens • (crônica) / by Hugo Inglez

- Minha velhinha, ele se foi e nós ainda não, e eu entendo que essa ordem das coisas está toda errada, mas acho que descobri o porquê dessa inversão cruel mantendo a gente por aqui. Você vai precisar desligar a tv e vir comigo. Você nem assiste mais a essa tv”.

A televisão ligada para passar as horas, idaí? O relógio muito chato e muito injusto. Ir pra onde esse velho chato quer me levar? Não preciso ir a lugar nenhum. Esse quarto está bom. Mais que bom. Nosso tempo já passou há muito tempo, continuamos aqui para fazer companhia à tristeza um ao outro.

Digo isso a ele. Digo a ele pra me deixar estar.

Mas quem disse que ele vai obedecer? Há 48 anos esse homem teimoso não me deixa estar. Quase meio século e ele não desiste. Desde quando essas mãos sem rugas, os dedos dele já entrelaçados, conduzindo para a amenidade. Eu sempre muito grave, muito pessimista, muito pesada. Devo ter atraído esse destino para a gente.

Digo isso a ele. Digo que a culpa pelo nosso filho é minha, não porque acredito nisso, mas por que sei que vai machucá-lo, e eu quero machucá-lo, para ele se afastar e me deixar em paz com meu escuro e minha tv.

Mas ele não é homem de cair num só golpe. Reagrupa o centro e volta a insistir para que eu abandone meu abrigo de penumbra. Ele tem algo a me mostrar do outro lado da cortina, lá embaixo. Eu preciso ir com ele, uma última missão da nossa grande dupla, que seja. Depois ele não vai pedir mais nada.

Faço ele prometer, faço o velho chato prometer que essa é a última de suas grandes ideias. Ele sempre volta de suas andanças com grandes ideias para a grande dupla. Foi assim que adotamos o gato, e viajamos para o Chile numa terça-feira, e compramos a esteira para fazer comida japonesa. Foi assim que fomos presos no estacionamento do shopping, aquele episódio constrangedor.

Grande dupla... só se for de outros tempos.

Faço ele prometer, antes de mexer um centímetro da minha cadeira-sarcófago.

Ele promete, e pergunta com voz tremida se não somos mais uma dupla. Sei que esse o seu ponto de quebra. Se não formos mais uma dupla, ele perde o um que é, e a vida que já levou nossa maior criação, vence de vez.

Então levanto em silêncio e carrego todo o mal humor para puni-lo pelo caminho. 

O caminho só vai até o térreo do nosso prédio. O que ele tinha a mostrar era o outro lado da janela de cortinas fechadas. O outro lado da minha escuridão.

Ele pergunta se estou vendo.

Sim, a janela do nosso quarto, idaí?

- Eu tenho andado bastante minha velhinha, você sabe, ver se caminho os pensamentos. Quando volto, sempre olho para você lá em cima, para nós, para tudo. E ontem eu percebi, nós moramos atrás do céu, na sombra das nuvens. Nosso menino visita todo dia a essa hora, meu amor, eu senti ele ontem e to sentindo agora. Nós moramos mais alto do que imaginávamos, está vendo? Me diz que você também está vendo. Nosso menino deu um jeito de continuar com a gente. Eu quero abrir as cortinas e deixar ele entrar, mas só se você estiver comigo nessa. Eu ando tão perdido minha velhinha, sentindo tanto a sua falta".

Velho chato, precisa fazer tudo em dupla. Aviso a ele que até onde formos, essas cortinas não fecham nunca mais. Aviso ao velho chato que vamos subir imediatamente e jogar a televisão pela janela. Aviso que nessa noite vou fazer japonês e que precisamos de um gato. E de viagra pois temos um estacionamento de shopping para visitar.

Aviso ao velho chato para não soltar nunca mais da minha mão, que eu medo de altura.

Nosso menino aqui conosco, de volta, aqui em cima em meio às nuvens. 

H.I.