O retorno do reino deles / by Hugo Inglez

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Obrigado por me levar à insanidade. Gratidão por todo o cinismo e falsidade disfarçados de gratidão. Finalmente eles de volta, escapados pelas brechas do meu coração quebrado. Dessa vez não vou engavetá-los de volta aos caderninhos de adolescente. Quando novinho, meus segredos favoritos, agora é tempo, maduros.

Pois que façam reino. 

Que façam estrago. Dessa vez meus demônios meus e ninguém mais separa. Obrigado por me fazer escolher meu lado certo, que é o lado errado, ao lado deles. Nunca deveria ter transviado.

Eu era a coragem de esfregá-los na cara de quem fosse, de expô-los ao ridículo para que não ganhassem força escondidos. Ainda não me sentia amado por ninguém, amarrado por nada, então por eles enamorado e orgulhoso do relacionamento.

Mas um ser precisa sobreviver, e jovem e ingênuo, engana-se que sobreviver é viver na constância de alguém. Na admiração de estranhos, aceitação de conhecidos, na aprovação da família, no amor de amigos e de uma companhia que vai se jurar exclusiva enquanto mentira.

Então um ser se torna frouxo. Cheio de sorrisos e agrados e meias verdades e troca de amenidades. Começa a beber para adormecer os demônios na hipocrisia.

Para quem tirava seu poder deles, mediocridade o destino. Mediocridade e gota.

Obrigado por aposentar o medíocre arco-íris em mim, de uma vez por todas, e me retornar aos meus principais colaboradores. Sempre fui do p&b contrastado, estava cansado de não entender por que apesar de toda simpatia e bons modos e tons pastel com brilhos néon-hipster, os olhares recebidos continuavam desconfiados, os boicotes velados e elogios artificiais, como uma espécie de garantia de não retribuição.

Estava cansado de não entender por que os ataques tão radicais e impiedosos.

Agora eu entendo. Era receio do retorno. E passei tempo demais sem retornar. Me fiz acreditar verdade no cara de bem, no joinha sem filtro, no tapinha nas costas, no jesus cristo gente fina sob chuva de pedra. Mas restei apenas contradição e fraco, fui o último a perceber.

Antes tarde do que manhã. Não sou bonzinho. Não acredito que ninguém seja. Não vejo ninguém querendo o bem de ninguém, a menos que acredite que o bem do próximo lhe faça melhor. Altruísmo a esperteza de saber que estando legal para todo mundo, provavelmente para você também.

Mas todo mundo em busca da maior esperteza de só ficar bom para si e para quem interessa.

A marketeira do insta construiu uma legião só para avisar que era tudo fake, então lançou a maior farsa ainda, o mundo de conselhos para o bem e veganismo. Doe o quanto quiser pela autoajuda, mas continue seguindo, que eu continuo bonita e na internet.

Uma gênia do mal trocando de patrocinador.

Obrigado por insistir até que a teimosia em mim percebesse que quanto maior o discurso paz e amor, maior o tamanho da faca encomendada às costas.

Então quer saber? Foda-se. Meu dom não é fotografia ou amor. Meu dom meus demônios, são eles que deixam a parte feia de todo mundo exposta como um tumor na caixa de luz. São eles que treinaram minha visão periférica para enxergar tudo que não se deve, e meus ouvidos para filtrar os piores segredos numa multidão de assuntos.

São eles que captam a mentira mais minúscula numa linguagem corporal e a insegurança mais velada numa arte que se sabe insuficiente. 

Sim, agora eu te dando certeza que sei, não precisa mais desconfiar. É sarcasmo mesmo no meu olhar, é provocação, é respeito debochado, o trunfo que você não faz a menor ideia de como chegou na minha manga.

Foram meus demônios que colocaram lá. O armário do qual nunca vai sair o boyzinho que roubou meu trabalho, foram meus demônios que entreouviram. Os adultérios da mina que adora pagar de moralista, meus demônios pararam até de contar. O vazio conceitual da minha própria imagem e semelhança, meus demônios fizeram de tudo para deixar quieto.

Mas a importância de uma pessoa o tamanho da futura decepção.

Essa a verdade sobre meus demônios. Eles podem ser BEM mais específicos e BEM mais abrangentes. São 28 anos de arrecadação pelas esquinas mais sujas de Rio de Janeiro, e pelo menos uma década de latência, naquela vontade de presidiário para fuder o mundo de quatro.

Mas vou escolher o caminho do realismo mágico, do você nem imagina o quanto baseado em fatos reais. Cansei de politizar por likes e shares. Na madrugada eles não existem, e eu sempre fui da madrugada. Porque eu sempre fui meus demônios. E agora finalmente o reino deles, minha arte e minha escrita e toda a violência em mim. Eu era feliz na solidão escrita dos caderninhos e não sabia.

Porque o que você sente, eu escrevo melhor do que você sente.

E o que eu sinto, pra escrever tem que ser doente.

Não vou trocar o espelho da minha nova casa. O reflexo com o acabamento exato do ser.

H.I.