Masterplano e vários porquês porque te amo / by Hugo Inglez

linda hoje eu acordei bem inspirado para te escrever, mas não queria pegar filosófico nem engajado ou grandioso, acordei mais no clima brega singelo declaração de amor.

ontem o Rogério Fabiano colou sua homenagem para o dia da mulher no elevador, ao lado do aviso em que ele informa que o valor do condomínio não vai aumentar E que papai noel não existe.

isso me inspirou (a parte do recado cafona com flores pretas chapadas da impressão no toner, não a parte sobre ceifar a magia das centenas de crianças do prédio só para dar um recado com edge humorístico).

hoje eu acordo nesse inspiro, e meu inbox acorda contigo me passando a página "Certos Comunicados de Condomínio", um pedacinho de joia virtual Orkut Originals. um verdadeiro transmimento de pensação.

no outro inbox, Madre Ursa me envia "Nossa Senhora das Fêmeas", um hino perdido do famigerado Wando em que ele roga proteção para a doméstica, a mãe, as meninas e a moça que faz programa, contra os homens malvados, celulite, drogas, ciúmes, falta de fé e furo na camisinha.

novo eu achava que vocês minha inspiração, a romântica ideia da musa. mas faz um tempo refinei essa percepção. minha inspiração mesmo é o Acaso, em seu ultra randômico entregar de estímulos cotidianos. as pessoas que eu cruzo na rua, recados do síndico bitolado, ídolos cafona da mpb. o único padrão é que de alguma forma consegui me manter esponja, apesar do adulto galopante.

ser inspirado pelo banal e aleatório ferrava minha vida. eu era um artista sem certezas, incoerente no que me movia. acreditava que eu precisava viver para algo, quando só precisava viver para o máximo de vida possível.

você foi minha musa confirmadora. entrando pela tangente mais aleatória, pesquisadora de linguagem emocional tentando decifrar minha escrita circular em código de tinta de sete pés sem pé nem cabeça (referência alienígena-cinematográfica pan).

foi uma angústia simples que me mostrou o caminho. você não sabia nada do que eu fazia, então soube e ficou com o espírito apertado ao perceber que ninguém mais sabia.

como um acumulador de programa do discovery home&health, eu produzia e guardava, criava para as gavetas, por não enxergar qualquer nexo além do carinho por esse entulho criativo encontrado pela rua.

divulga saporra, hugo!, você diz no caminho para uma dentada na tapioca com ovo mexido que eu salto à manhã para fazer, só para assistir à sua preguiça esticar pelo quadrante completo da cama.

não quero saber como, põe pra jogo, hoje! você responde depois de elogiar a tapioca, mesmo que ela salgada demais.

então eu comecei a fazer bem isso mesmo, e descobri a Continuidade do Acaso. e hoje você e madre ursa e a Z com seu olhar de "não importa o que você faça eu te amo paipai", e vó bolinha com sua risada gostosa de "você é maluco mas meu neto", vocês pinçam as narrativas em meio ao caos de fontes e formas.

vocês mostram que entenderam antes mesmo de sair da minha cabeça e me confirmam no inbox. e essa a história sobre como vocês me salvaram. enquanto nenhum outro homem entender (inclusive eu), vou continuar achando que ser mulher é prerrogativa. só mulheres complexidade o suficiente para o quadro maior.

ah minha linda, comecei cafonão bonito e já caí para profundidades. vou parar por aqui e voltar para o pedacinho imortalizado do nosso cotidiano. lembro que você tinha acabado de cortar a franja, e o dia estava nublado. fico conjecturando o que passava pela sua cabeça (além de que a tapioca estava deliciosa).

no além dessa janela o sentido perdido que eu dou às coisas. você enxerga, eu apenas suponho sobre a memória fotográfica. e isso é lindo e o bastante.

até então eu era um fotógrafo às cegas. nascido o sexo errado para minha própria arte.

até então, não mais.

h.i.