Luzboa - Euro Detour 2015 lado b / by Hugo Inglez

A maior parte de Lisboa já contei no diário de viagem de Novecinco (a parte importante). Por aqui o lado b - impressões e evoluções pessoais, perrengues tragicômicos e cultivo de boas ondas.

E motivo para desafogar material.

A ida pra Lisboa não uma boa onda. Virado da madrugada, virado de costas para o sentido do trem numa poltrona de reclinação negativa. Ou seja, cada vez que o trem acelerava, sutilmente soprado para a frente pela inércia. Vez e vez de novo.

Editando as fotos da Doçaria contra a bateria do computador.

Cheguei meio indisposto com a vida.

A saída (descobri que pra pra tudo) foi imergir na pescaria pela Estação do Oriente, que tem um grande valor na arquitetura e viajantes diferentes. 

A saída (descobri que pra pra tudo) foi imergir na pescaria pela Estação do Oriente, que tem um grande valor na arquitetura e viajantes diferentes. 

Ainda na Estação, desenrolando os táxis pra levar à Flying House, recebi a primeira de centenas. Sério, foram centenas até o fim da estadia.

- Cocain?

- Não obrigado.

- Ah é brasileiro? Farinha? Quer farinha?

Percebi que os dealers de Lisboa acham que farinha é o apelido descolado pra pó no Brasil. O próximo campeão que nos abordou fez a mesma tradução, e depois completou com uma pérola da incompreensão:

- Como assim? Nunca vi um brasileiro não querer nada!

Quando saí com o Pedro pra desencontrar com Miúda e Hec, mais uma camada peculiar no mercado de rua lisboense (ou seria lisboeta?). Enquanto andávamos pelas vielinhas e ladeiras lotadas de turistas e gente lindamente estranha e bêbada em línguas alienígenas, grande parte dos dealers que primeiro ofereciam todo tipo de enganação, depois achavam que a gente era concorrência invadindo a área.

Recebemos uma desconfiança e localismo que por vezes quase beirou a animosidade.

Óbvio que esse bug antropológico me interessou, e fiquei umas cervejas tentando raciocinar o motivo. Até que entendi o que estávamos fazendo de diferente dos outros gringos estranhos vagando pra lá e pra cá feito álcool nas artérias de Lisboa.

Os gringos se fecham e se bastam nas suas próprias conversas. Mesmo em dupla, o assunto flui frontal e sem grandes preocupações com o que está acontecendo em volta.

Nós não. Nós cariocas escolhemos um canto e ficamos lá parados como se fôssemos donos daquele metro quadrado, conversando de lado enquanto observamos o movimento e intercalamos o assunto com comentários sobre pessoas que passam naquele exato instante.

Exatamente o modus operandi de um dealer de rua lisboeta (vou alternar os termos até alguém puxar minha orelha com a palavra certa).

Lisboa não é só isso, meu interesse que orbita esses nichos de indivíduos que tiram a sobrevivência da rua. Dealers, taxistas, feirantes, ambulantes, sem teto, pregadores, e um belo joinha para você que acha que vou gravar os nomes dos lugares turísticos e bons restaurantes. Nem do pico indiano absurdo de gostoso em que almoçamos a estadia inteira eu lembro. Sobre o cheiro e o gosto do caril eu consigo dissertar.

E como se chega no lugar, um adianto necessário em Lisboa, que definitivamente colonizou os taxistas brasileiros que adoram se enganar umas ruas a mais de viagem.

Apesar do pouco tempo pra rolés, consegui pescar um material bem rico. A cidade é mais babilônica que o Porto, que me pareceu mais português típico.

Na feira da ladra você recebe ofertas pelo seu celular e pode comprar azulejos de séculos passados claramente arrancados na rataria. Na verdade não pode comprar nada porque você não tem um puto no bolso, o que pode é pensar em presente pra todo mundo e no quanto as pessoas gostariam de recebê-los.

Na feira da ladra você recebe ofertas pelo seu celular e pode comprar azulejos de séculos passados claramente arrancados na rataria. Na verdade não pode comprar nada porque você não tem um puto no bolso, o que pode é pensar em presente pra todo mundo e no quanto as pessoas gostariam de recebê-los.

Quando a alça da câmera te fode do jeito certo.

Quando a alça da câmera te fode do jeito certo.

Ela era muito sexy, a mulher sem rosto entrando em casa.

Ela era muito sexy, a mulher sem rosto entrando em casa.

teto psicodélico

teto psicodélico

teto psicodélico 2

teto psicodélico 2

Metrô é sempre vida. Ladrilhado então nem se fala.

Metrô é sempre vida. Ladrilhado então nem se fala.

Bonde dos tuk tuk

Bonde dos tuk tuk

bichinhos e as saudades dos meus.

bichinhos e as saudades dos meus.

cicatrizes

cicatrizes

A Flying House Lisboa tem uma calma boa pra cultivar internas.

A Flying House Lisboa tem uma calma boa pra cultivar internas.

Na Flying House minha primeira cama na viagem. Último dia até dei até o upgrade - cama, mini travesseiro e lençol improvisado de uma toalha.

E olha que lindão o cartaz gigante que o Happy Mess vai usar na turnê. 

A capa do disco novo uma foto da Jo que produzi depois de fotografarmos o Quartin. A identidade visual foi assinada pelo Novecinco. Mas isso sou eu adiantando novidades.

A capa do disco novo uma foto da Jo que produzi depois de fotografarmos o Quartin. A identidade visual foi assinada pelo Novecinco. Mas isso sou eu adiantando novidades.

Na sexta depois do estica de abertura de Doçaria, e depois de comer as maravilhosas bifanas do restaurante B.D.O. (eu acho), decidi com o Pedro irmos para Cascais passar o sábado em família com a Kiki, Felipe e Matilda.

To deixando minha câmera na mão do parente e ele anda cada vez mais bicho solto nas fotografias. Clicou essas duas fotos que estão entre as minhas favoritas da viagem.

To deixando minha câmera na mão do parente e ele anda cada vez mais bicho solto nas fotografias. Clicou essas duas fotos que estão entre as minhas favoritas da viagem.

Retrato por Pedro Jardim

Retrato por Pedro Jardim

Saindo de Lisboa

Saindo de Lisboa

Chegando em Cascais

Chegando em Cascais

A casa da Kiki e Felipe em Cascais fica numa rua romântica cheia de castanheiras. O lar uma baguncinha aconchegante de brinquedos e arte pra todo lado. A Matilda faz questão de deixar suas ferramentas espalhadas por cada centímetro. Vai que ela quer brincar.

A Matilda sempre quer brincar. E descobrir as coisas novas feito uma esponjinha ousada, e apontar o miau no livro, depois imitar o miau pelo chão, correr pra distribuir mais brinquedos por um cantinho de casa que não estava tão divertido, então dançar e cantar twinkle twinkle little star, se irritar com os anúncios do youtube, ensaiar manha e se distrair no segundo seguinte, abrir a boca e mastigar o jantar aviãozinho que o Felipe oferece, abraçar o joelho da Kiki, ficar contemplativa na cor da barba do tio Pedro e olhando pras andorinhas tatuadas na mão do tio Hugo, até levantar uma teoria:

- Cócó?

- Cócó! - e minhas andorinhas se transmutam em adoráveis galinhas.

Então a Matilda ri uma alegria que contagia feito bocejo, capaz de resolver todos os problemas do mundo.

E sem que você repare ela no alto sono dos anjos. E você um tantinho mais perto de acreditar que o ser humano tem jeito.

papo de nunca me perdoar de cortar o pezinho dela nessa foto.

papo de nunca me perdoar de cortar o pezinho dela nessa foto.

Estava preparadíssimo para o dia de praia. Calça jeans e sem qualquer proteção pra careca. Tive que pegar emprestado um dos chapéus da Kiki (não esse). O foco em roleta russa é uma marca da fotografia do parente Jardim.

Estava preparadíssimo para o dia de praia. Calça jeans e sem qualquer proteção pra careca. Tive que pegar emprestado um dos chapéus da Kiki (não esse).

O foco em roleta russa é uma marca da fotografia do parente Jardim.

Renascentismo e água gelada.

Renascentismo e água gelada.

Sei que vivo por ironia, mas minha ironia tem muita verdade quando digo que tirei o chapéu pra esse tiozão almoçando tranquilamente seu camarãozinho com o vinho branco que deixava numa garrafa térmica em baixo da mesa (sua única preocupação com sombra). O sol maçarico era só um calorzinho para a pele bronzeada de décadas de bon vivarianismo. Duvido que ele tenha câncer de pele.

Sei que vivo por ironia, mas minha ironia tem muita verdade quando digo que tirei o chapéu pra esse tiozão almoçando tranquilamente seu camarãozinho com o vinho branco que deixava numa garrafa térmica em baixo da mesa (sua única preocupação com sombra). O sol maçarico era só um calorzinho para a pele bronzeada de décadas de bon vivarianismo. Duvido que ele tenha câncer de pele.

Boca do inferno um lugarzinho bastante especial de natureza.

Boca do inferno um lugarzinho bastante especial de natureza.

Eu, chapéu escolhinho e parente no foco certo na hora da verdade.

Eu, chapéu escolhinho e parente no foco certo na hora da verdade.

Praia que fomos depois, esqueci o nome, mas ventava igual praia da Barra. Engraçado que há anos quando conheci a Kiki conversamos sobre a habilidade de preparar um em meio à ventania. Agora conheço as duas praias responsáveis pelos ensinamentos.

Praia que fomos depois, esqueci o nome, mas ventava igual praia da Barra. Engraçado que há anos quando conheci a Kiki conversamos sobre a habilidade de preparar um em meio à ventania. Agora conheço as duas praias responsáveis pelos ensinamentos.

Rasta também com seus paranauês pra tirar o reflexo da tela do computador.

Rasta também com seus paranauês pra tirar o reflexo da tela do computador.

Minha família pelo espelho de maresia.

Minha família pelo espelho de maresia.

O dia em Cascais foi ótimo pra relaxar, mas eu precisava voltar para pegar meu vôo. A verdade é que quase um mês viajando de bondão só produzindo artes para exposições foi mais tranco do que eu esperava. Em Lisboa eu estava ficando meio amargo e irritado, parecendo cada vez mais com o Hugo que prometi enterrar no Rio ao vir pra cá.

Decidi ir pra Barcelona sozinho testar minha bicho soltisse sem desculpinhas nem dependências. Precisava saber se eu conseguia me virar numa cidade desconhecida sem celular nem wifi, com um conhecimento tosco da língua. Precisava descobrir o conteúdo que conseguia produzir sem ter a agenda do Novecinco como prioridade, apenas uma câmera na mão e a direção que o instinto apontasse.

Quando cheguei no aeroporto, a memória de uma noite bêbada no Porto voltou à cabeça, a Miúda comentando o quanto eu era maluco de sair doidão com o meu passaporte.

Passaporte que depois disso foi para a mala.

Mala que tinha ficado em Cascais.

Puta que pariu.

E volta do aeroporto pra Flying House. Adia o vôo pra manhã seguinte, se corroi de raiva com o ferro tomado, e volta pra Cascais. Uma conversa com uma amiga e ela me diz que se eu mantivesse a aura de bad, era o que eu ia continuar encontrando. E de fato Lisboa inteira eu tava meio assim.

Decidi voltar para o filtro de espírito do início da viagem. Os resultados foram imediatos. O taxista que me levaria à estação do comboio propôs seguir direto para cascais e me trazer de volta pelo mesmo valor que eu gastaria com os dois táxis e trem.

A viagem refez todas as minhas impressões sobre os taxistas de Lisboa. Fiz um amigo, cheguei na casa da Kiki e o Felipe ainda me deu uma preza para desestressar. Peguei a garrafa de vinho que tinha sobrado da noite anterior e passei a madrugada bêbado e chapado e romântico na expectativa para a andança de manhãzinha até o aeroporto.

E do aeroporto até a casa da Bel e Xavi.

Agora começa o meu voo solo da Detour, e as mudanças mais significativas que experimentei nessa viagem.

Barcelona um divisor de águas. Eu não esperava por esperar.

Agora mal posso esperar pra contar.

 

H.I. (tio orgulhoso da princesa Matilda)