Finalmente em casa / Hoje eu acordei feliz / by Hugo Inglez

Tão feliz que botei o Charlie Brown para abalar a fábrica.

Voltei pro Rio há uma semana e nada de casa. As paredes a cama e o teto, o caos da cozinha e minha escrivaninha assolada por adesivos, mas vazio. Ar parado.

O diálogo que cria lar no meu espírito entrou pela porta ontem.

- Ursinha minha filha que saudade! Como seu cabelo cresceu!

E ela responde que sua tendência para o inverno, e o tamanho da saudade que sentiu, e pergunta como fui de viagem enquanto lambe minha boca e enfia a língua meu nariz adentro pra depois lamber a boca de novo e repetir o processo em duas patas e frênesi de alegria.

(ps: Eca? Não não amigo, ela poderia estar bebendo água da Guanabara, podia estar lambendo a bíblia do Eduardo Cunha, que eu nunca iria recusar esse beijo, essa lambança).

Minha casa de volta, a baguncinha do meu reino falante em voz infantil e sorriso largo nos olhos. Paçoquinha e presuntinho, poquinha e leitão, vidinha e dragão. Dragão ciumento no rastro de outro bichinho, o gatinho preto que alugou meu quarto com sua dona enquanto eu viajava.

Engraçado pensar como o cíume de um bichinho influencia minhas ações da forma como nenhum ciúme humano conseguiu até hoje.

E no diálogo nativo de carinho vocês devolvem minha rotina pro eixo. Agora quando cozinhar ou qualquer outro cômodo, um tapete companheiro na porta a garantir minha segurança contra os barulhos do lado de fora. Quando o Photoshop travar, o Final Cut renderizar e as palavras engasgarem, não mais tempo perdido, mas intervalo na cama afundado no cangote macio do bichinho deitado no meu travesseiro, embolado na bolinha de pêlo embolada no montinho de roupa, desejando mais um par de mãos para distribuir todo o amor que elas merecem.

E vocês merecem literalmente Todo o amor, cada célula do melhor de batalha e paz que tenho aqui dentro. Porque vocês bichinhos formadoras dessa melhor parte de mim. Meu Hugo preferido o pai que vira bicho para garantir o estado de inocência de quem nasceu na impossibilidade de praticar mal.

Vocês protegem minha esperança no mundo, que eu bato de frente com os sete exércitos dos sete infernos se necessário para salvaguardar as melhores criações que já conheci da natureza.

Pode roncar tranquila Juju. Pode sentar no meu peito e derreter ao travesseiro para esquentar minha careca, Ursinha. NADA vai incomodar essa troca.

Agora de novo pesinhos no edredom a impedir o ar condicionado de entrar. De novo o despertador efetivo de um focinho úmido esperando eu abrir os olhos para disparar a primeira lambida do dia. A maior prioridade de levá-las ao parque para que se acabem no pique pega, polícia e ladrão. De novo sol na pele pela manhã, guias no bolso pois mais civilizadas que gente, almoço na hora certa pois o de vocês primeiro, e a grande glória de se viver por alguém que retribui na mais pura lealdade e afeição.

Me enganei feio, bichinhos. Achava que viveria sem vocês. Percebi que só me engano respirando. Não sou feito cigano, consigo permanecer em apneia por um bom tempo, mas preciso subir de volta para minha superfície de elevação.

Sou homem de dois pequenos templos e de um único tempo, o que falta para reencontrá-los. Voltei pro Rio, e agora não só casa, como forte.

Ser completo. Não existo ser humano sem meus bichinhos. Como Buchecha sem Claudinho, não existo casa sem meu ninho. Tudo pode passar, que enquanto vocês, eu passarinho.

Agora de novo minhas palavras de asas abertas. 

H.I.