Beija os dedos / by Hugo Inglez

Eles um casal de pinguins - desses que vêm à cabeça mesmo, que andam engraçado, moram no Antártida e vestem smoking quando vão sair. Um casal clássico de pinguins-imperadores passando as férias de verão no Flamengo. O anel de noivado derretido durante o nado transatlântico, mas pelo menos o jet lag também sumira.

'Quantos califórnias?'

'Dez?' , ele pergunta retoricamente.

'É só pra você', avisa ela. 'Eu não vou querer.'

'Então... dez?'

A Noiva Pinguim anota seis.

Dentre as tradições sagradas do relacionamento, fumar uma chabonga para ir comer antissocialmente no rodízio japonês. Estavam no Rio, poderiam ter optado por feijoada ou churrasco, mas todo mundo sabe que pinguins-imperadores curtem mesmo peixe cru e culinária oriental.

O Globo Repórter já várias matérias a respeito. 

Na tradição do casal, pelo preço do rodízio, "somos nós contra eles", sempre. Levam o embate a sério. No comando da comanda a pinguinzinha esbanja habilidade; sabe o exagero exato para vingar cada centavo e tornar o resto do dia perdido numa cama como dois pinguins gordos.

Se fosse ele na ticagem, precisariam encher os bolsos do smoking com sushi, tamanho o deslumbramento. Por isso, a função do Sr. Pinguim se resumia a pedir bebidas para seus bicos secos de erva. Apesar de simples, essa missão agoniava o pobre Pinguim, que se tornava um completo retardado social ao fumar.

Ainda mais essa maconha horrível de Rio de Janeiro. A amônia deixando o pinguinzinho neurótico.

Mas ele sabe da importância de uma água e um ice tea para sua amada. Ela merece, uma santa por tratar das partes mais difíceis de uma larica - ser razoável e matemática.

'Aquele sashimi de atum com só a crostinha tostada, quantos?', ela pergunta para anotar um terço do respondido.

Ela não se importava em traduzir cada mono e maki para seu noivo que nunca guardava os ingredientes. Passava pelos itens em clara embromação - desenhando coraçõezinhos, geométricos e pescadores desmembrados ao lado da comanda, solidária à dificuldade de seu noivo em comunicar com um simples garçom. O coitado asa levantada, parecendo cada vez mais aflito. Tentava se explicar, falando meio que para si mesmo; suas teorias - ‘esses garçons tão de sacanagem’ e 'até parece que nunca viram um pinguim na vida'.

O casal Pinguim que nunca vira a qualidade dos serviços cariocas.

Depois de apelar para a deselegância do assobio, finalmente consegue a atenção de um garçom, que não disfarça a surpresa ao testemunhar dois pinguins de verdade almoçando no restaurante. Dois pinguins que sabem português, ainda por cima. ‘Com sotaque, mas falam ok, os safadinhos!’, pensou o garçom ao deixar os pedidos na cozinha.

Nesse dia, as bebidas chegaram junto com a primeira leva de quentes - rolinhos primavera, espetinhos de peixe, cebolas no teryaki e uma trouxinha de papel laminado fumegando shitake e shimeji.

A segunda frota, fria, não demorou; veio de navio para afundar o casal pinguim nas cadeiras. Reclinados como reis, os dois sorrisos molengas e realizados à entrega ao excesso. Ele com a asa fazendo carinho na perninha dela, ela fazendo carinho na asa dele. Felizes como um clichê gorducho.

Depois de satisfeitos, batalha ganha, a tradição se transforma em hobby para o casal - observar a raça humana. Haviam adquirido o vício na época em que trabalhavam em zoológicos (se conheceram num aquário de Berlim). Desde então haviam se tornado humanólatras, passando horas a fio assistindo aos contraditórios animais do outro lado do vidro.

Naquele dia, porém, não foi nenhum humano a atiçar o voyeurismo antropológico do Noivo Pinguim. Sentados logo à frente, uma Besourinha de carapaça troncuda, mas que parecia frágil perto do marido, um cocô enorme e redondo, duas vezes o seu tamanho. Um ser fedorento e opressivo e caladão.

O silêncio naquela mesa incomodando demais o Noivo Pinguim. Um silêncio desassossegado, fervilhando sobre sentimentos ruins, como band-aid da Disney a estancar uma hemorragia de aorta. Indiferença, impaciência velada, talvez até abuso e maus tratos sangravam ali, caladinhos. Contidos socialmente. Besourinha e seu esposo de Merda pareciam, ao mesmo tempo, completos estranhos e piores inimigos um do outro.

Dava vontade de levantar e ir lá dizer alguma coisa. qualquer merda àquele Merda. Um chacoalhão na Besourinha para se ligar na vida. Umas verdades para a inércia daquele casal.

'É como a imagem do pior futuro que poderia acontecer com a gente', a pinguinzinha intercepta o foco de atenção. 'Como se chama essa espécie mesmo?'

'Chega a dar nervoso. Sei lá, besouro rolabosta eu acho'.

A Noiva Pinguim retorna de seu smartphone com a resposta do professor G.

Besouro necrófago.

'Continuo achando ele um Merda', o Pinguim ainda encismado com o enorme e mal-encarado Bola de Cocô. 'Olha, ele não demonstra um carinhozinho sequer com ela. Só esperando para ser rolado pra cá e pra lá, igual um fardo inútil que de alguma forma se fez acreditar necessário.

A pinguinzinha pensativa que talvez a solidão uma escolha mais nobre para aqueles dois. Nada justificava o que eles fazendo com a esperança do amor eterno.

‘Eles parecem... uma campanha ruim de marketing’, pensou alto para então se dirigir ao noivo. ‘Promete que a gente nunca vai terminar assim?’

‘Empurrando com a barriga?’

‘Promete.'

Surpreso com a súbita angústia na voz da amada, ele promete. O mais sério que consegue.

‘Beija os dedos', ainda angustiada. 

Pinguins não tem dedos, mas isso não é desculpa. O Noivo larga os hashis que batucava sobre a mesa, endireita a postura, vira para sua amada e cruza a ponta das asinhas sobre o bico. ‘Nós nunca vamos acabar desse jeito’, o seu compromisso. Ele conduz o ritual com formalidade lúdica, da mesma forma que uma criança faria. Sabe que só assim o coração dela pode voltar a respirar.

Não acabariam daquele jeito, pode ter certeza! Não usariam silêncio para substituir a falta de assunto; não sentariam na diagonal um do outro, nos opostos mais distantes de uma mesa. Nunca estariam em hemisférios diferentes, olhando cada um para seu lado, para o seu prato, desagradáveis como estrabismo. Não eles. De uma coisa sua Noiva Pinguim pode ter certeza - conversariam asneiras, venenos, gagueiras e memórias empoeiradas de Alzheimer, mas nunca deixariam o assunto morrer. O último diálogo do casal Pinguim seria em algum lugar com eco, o fundo de uma geleira, para que as palavras perdurassem além.

“Se alguém pode sacanear o tempo, somos nós”, o que ele na cabeça ao levantar o dedo com decisão e urgência, pedir dois saquês frios para o Garçom.

O Globo Repórter ensinou que pinguins não curtem saquê quente. E ninguém que não seja oriental, para falar a verdade.

Apesar de inusitado, a Noiva Pinguim entende o gesto. O tempo ostentando seu poder no casal Necrófago à frente. Mostrando o quanto consegue pesar uma conexão até dobrar. Até a quebra. 

"Por esse preço, somos nós contra ele."

Na terceira rodada de saquê, a pinguinzinha já bêbada suspende um filadélfia de banana com chocolate até o shoyo, lembra que sobremesa não se come com shoyo e muda a rota para seu bico; o filadelfia escorrega dos palitinhos e mergulha com tudo na cumbuca, salto bomba na piscina de molho. O smoking dela gravemente ferido pelos estilhaços.

Os dois caem na gargalhada.

‘Camarada, traz um pouco de nabo’, o Noivo Pinguim pede ao Garçom Amigo. ‘Quer dizer, bastante nabo, por favor’ ele corrige após analisar a situação das vestimentas de sua amada, para então pegar a sua cumbuca - meio fosca de tanto wasabi diluído - e despejar no próprio smoking.

Nunca estariam em opostos distantes. O tempo não imaginava quem tinha provocado com sua ridícula demonstração de rotina.

O Garçom não entende uma palavra, muito menos o ato. O casal de pinguins gargalhando demais para fazer alguma dicção ou sentido; o casal num duelo de esgrima com os hashis; molhando as sobremesas na roupa do outro e servindo de aviãozinho; transformando os palitinhos de madeira em sabres de luz com um zumbido de bico; zzzzum, zzzzzum.

Até parece que nunca viram um casal de pinguins maconheiros e bêbados e apaixonados sem vergonha.

O nabo chega. A conta chega. E chega de Besourinha Necrófago e seu Esposo de Merda. Rindo alto, trocando as patas, todos manchados, o casal Pinguim incomoda na cara da tradição de domingo. Gringos abusados.

Isso tudo porque nunca, nunquinha mesmo iriam pedir comida japonesa em comandas separadas. Ele prometeu. Beijou os dedos. E nem dedos tinha, para ver o quão sério a respeito.

Ao cair a ficha de que seu pinguim acabado de arruinar o smoking só para dividir o ridículo, a Noiva decide chupá-lo no banheiro do shopping. Isso mesmo, um gostoso e inusitado boquete de agradecimento. Sua paixão num momento de pico – hora adequada para uma putaria em público.

Escolhem o banheiro feminino, e, como já completamente errados mesmo, ele acende a pontinha de bagulho que havia sobrado, enquanto recebe o melhor bolagato que o bico sem dentes de sua amada pode proporcionar.

Óbvio que uma dondoca de domingo se incomoda com o cheiro de amônia e os gemidos em língua estrangeira e alerta a segurança. Óbvio que ela se dá o trabalho de abaixar para confirmar o que acontecendo no reservado.

Entendeu porra nenhuma ao identificar as patinhas com dedos interligados.

Ao ser informado de que uma.... situação ocorria no banheiro feminino do segundo piso, e que a situação consistia... na prática de sexo oral entre dois pinguins imperadores embriagados e fumando maconha, a conclusão do segurança foi que a dondoca misturou espumante demais no rivotril da tarde.

Ao ser informado pelo rádio, meia hora depois, que os mesmos pinguins estavam agora roncando nas poltronas reclináveis de uma loja de eletrônicos, enquanto assistiam à Happy Feet, a resposta do segurança foi ligar pra casa e avisar que hoje era dia de uma cachacinha pós expediente. Ele estava precisando.

‘Droga, eu realmente fiquei interessado no filme’, lamenta-se o Noivo Pinguim enquanto escoltados à porta do shopping. 'Reparou que aquele ator parece meu padrinho Bubbles?'

A pinguinzinha abraçada no seu Noivo fora da lei amor da vida. Responderam ao tempo com suas próprias armas. O desgraçado não tinha mais nada contra eles.

 

 

A história termina com um engarrafamento de 3 horas no Aterro do Flamengo: equipes de televisão, sirenes, uma turma revoltada do PETA, crianças traumatizadas em bancos traseiros, um motorista de van ainda atônito e pedaços de pinguim espalhados por duas pistas.

O Globo Repórter já avisara que pinguins não sabem atravessar a rua. Ainda mais bêbados.

Isso tudo aconteceu mesmo, algum tempo atrás. A capa do Meia-Hora na manhã seguinte foi: PINGUINZADA VIRA SUSHI DEPOIS DE SE ESBALDAR NO RODÍZIO.

 

Quanto à Besourinha e seu marido de Bosta, retornam ao restaurante todo último final de semana de mês. Trocam entre 6 e uma dúzia de palavras durante o almoço, todas para resolver detalhes da refeição. Essa a tradição deles.

No mês seguinte ao acidente do casal de turistas Pinguim, ao irem embora, a Besourinha precisa se refrescar no banheiro do segundo piso, e leva junto a imensa bola de merda sem vontade própria.

Ela sai do banheiro com lágrimas nos olhos. Seu marido pergunta se alguma descarga havia sido acionada. Sabe, a Besourinha tem fobia de descargas. Ela mente que foi isso mesmo. Mais fácil do que explicar a ele que ficara sentimental por causa de um desenho besta. O desenho de dois pinguins, logo acima do secador a vapor que não seca mão nenhuma. Visível a quem entrasse no banheiro, mas por algum motivo deixado ali intacto pela equipe de limpeza.

Ela sabia o motivo. Sempre lia o Meia-Hora.

Os pinguins do desenho de asas dadas, dividindo um mesmo balão de fala, enorme, desproporcional ao tamanho deles, só para caber tudo.

O díalogo dentro do balão em duas caligrafias:

'acho que só consigo amar você mais.'

'isso quer dizer pra sempre?'

'quer dizer que nunca menos, então acho que sim.'

'quer dizer que o tempo indefeso contra a gente.'

A última linha do diálogo uma carinha de pinguim feliz.  

Nesse dia, o segurança recebeu uma chamada no rádio. Alguém havia deixado uma imensa bola de merda na porta do banheiro feminino do segundo piso.

H.I.