Barcelona dois dias / by Hugo Inglez

Viajar sozinho, responsável por suas próprias sequelas e surtos de sagacidade. Viajar leve, uma mochila para a câmera, outra com o computador, exemplares únicos de roupa e várias camisas brancas, que não denunciam quando são trocadas. Tão sozinho e leve que até celular uma ligação pesada demais para manter.

Tão leve que cada moeda no bolso com seu peso contado.

O meu endereço de destino escrito na memória fotográfica avariada pelo vinho e fumaça da última noite em Lisboa. A sequela impediu um print screen da mensagem da Bel. Meu porto seguro seria a casa dela com o Xavi na Plaça de Sants. Ainda não conhecia os dois, Cadu quem amarrou as pontas, o que me deixava preocupado e curioso. O Cadu é daqueles que você espera qualquer coisa, menos o que está esperando.

 Em direção à praça dos santos pelo buraco do coelho.

Em direção à praça dos santos pelo buraco do coelho.

Segui o coelho do instinto pelo transporte público de Barcelona até encontrar. Para quem cresceu esperando o ônibus-unicórnio que passa na praia da Barra a cada noite de eclipse, experimentar uma cidade em que mobilidade urbana é prioridade (ao invés de lavagem de dinheiro) te transforma num glóbulo bicho solto da circulação urbana.

Fluindo pelas correntezas certas até a sacada abaixo.

 a pequena sacada-templo.

a pequena sacada-templo.

 o verdadeiro bicho solto Domenico.

o verdadeiro bicho solto Domenico.

Como previsto, Cadu Confort não decepciona no aleatório. Ele amigo de colégio da Bel, uma tijucana que arrepia na produção logística do Primavera Sound enquanto completa o doutorado. Ela namorida do Xavi, bar manager bon vivant com um conhecimento histórico impressionante da sua Catalunha e cujo bairro favorito do Rio é a Barra da Tijuca.

Sério, pode perguntar. Ele vai responder Barrinha.

Completando a família, Santino, gato gordo e tão mal humorado que divertido, e o caçula Domenico, recém adotado, vidaloka responsável pela meu novo carinho por bichinhos da espécime gatuna.

Os pais do Santino e Domenico recebiam uma hóspede, a Maria, amiga de doutorado da Bel e professora de história da arte, mexicana de Puebla com um sorriso solar de tão carismático. Estava completando sua tese sobre multiculturalidade, com estudos pelas fronteiras do México, e elogiou meu portunhol quando sentamos para o almoço que a Bel tinha preparado.

Viajar sozinho à mesa com seres mágicos. 

Depois do tabaco depois do almoço, meus anfitriões decidiram começar pelo começo, El Born, bairro em que Barcelona nasceu. Para chegar lá e dias seguintes, um cartão T10 na banca de jornal. Dez euros, Dez viagens do que quiser. Sem unicórnios. Conexões em menos de uma hora gratuitas.

Quando você de uma terra em que depois de alcançar o ônibus a 50 metros do ponto, o motorista pega os 3,50 e não quer devolver os 10 centavos porque saiu da garagem sem troco.

El Born. Segundo Bel e Xavi a tradição mandou a gente começar com Cava, o vinho espumante catalão. Afinal já era depois do almoço.

 a xampanyeria Can Paixano depois do almoço num dia de semana. 

a xampanyeria Can Paixano depois do almoço num dia de semana. 

 os desejos de independência em cada janela.

os desejos de independência em cada janela.

 os espelhos de santos

os espelhos de santos

 o cada pedido do mundo

o cada pedido do mundo

 o mercado construído sobre ruínas romanas que se transformou em museu.

o mercado construído sobre ruínas romanas que se transformou em museu.

 os grim bastards

os grim bastards

 o que vale é a intenção

o que vale é a intenção

 a intenção

a intenção

 os banquinhos de ny fat cap da galeria Montana. 

os banquinhos de ny fat cap da galeria Montana. 

 a curva de roteiro no fim dos caminhos

a curva de roteiro no fim dos caminhos

 aquela que te impede de adivinhar o final

aquela que te impede de adivinhar o final

 a espécie singular de andarilhos punk-góticos, sempre com algum cachorro e um instrumento a tiracolo. Perroflautas.

a espécie singular de andarilhos punk-góticos, sempre com algum cachorro e um instrumento a tiracolo. Perroflautas.

 a pequena resistência

a pequena resistência

 a cobertura das flores

a cobertura das flores

 o avaliador de memórias

o avaliador de memórias

 a presa fácil da Rambla

a presa fácil da Rambla

 a tentativa de assalto a um hotel na Rambla que deixou Barça parecendo o Rio. principal notícia de crime em não sei quantos anos. uma homenagem à chegada do carioca.

a tentativa de assalto a um hotel na Rambla que deixou Barça parecendo o Rio. principal notícia de crime em não sei quantos anos. uma homenagem à chegada do carioca.

 a vida dos outros

a vida dos outros

 as varandas de Barcelona que vão ficando menores à medida que os andares vão subindo.

as varandas de Barcelona que vão ficando menores à medida que os andares vão subindo.

 a viela onde o amor dorme quando esquece a chave

a viela onde o amor dorme quando esquece a chave

Caminhamos bastante. Barcelona me criou uma atmosfera misteriosa e meio trágica. A cidade parecia esconder paixões latinas sob o olhar dos turistas à procura de exageros mais simples. Eu queria entrar por cada janelinha de prédio antigo e participar da conversa lá dentro com meu portunhol cachorro. Mas apenas as ruas permitidas, entao andei com a gana de quem não pode chegar onde quer.

Andamos. Xavi foi para uma reunião e a Bel ficou de guia, e zeramos um jogo da cobrinha que cobriu grande parte das vielas românticas até o parque. 

 os encantadores de sabão

os encantadores de sabão

 o grifo reclamão

o grifo reclamão

 a Bel mostrando referência subliminares ao Capitão América no Arco do Triunfo.

a Bel mostrando referência subliminares ao Capitão América no Arco do Triunfo.

 os conhaques da prateleira de cima, mais caros que meu orçamento inteiro de viagem. Visitávamos um dos fornecedores do Xavi para comprar vinhos para o jantar.

os conhaques da prateleira de cima, mais caros que meu orçamento inteiro de viagem. Visitávamos um dos fornecedores do Xavi para comprar vinhos para o jantar.

 o lugarzinho refinado para carnívoros, com nome especial. Xavi e Bel compraram o jamón lá.

o lugarzinho refinado para carnívoros, com nome especial. Xavi e Bel compraram o jamón lá.

Retornamos armados para o banquete típico com vinho, jamón e uma seleção de azeitonas. Eu realmente não sabia que existiam tantos tipos de azeitona.

Segundo o Xavi, a tradição mandava abrirmos o apetite num bar de vermut.

Afinal já era antes do jantar.

A tradição catalã iria me entortar logo no dia de chegada.

A hora do vermut não poderia ser uma hora mais estranha. A bebida uma espécie de vinho doce aromatizado, servido com gelo, uma rodela de laranja e uma azeitona no palito. No meio do caminho entre o vinho de sobremesa e o martini.

Não sou de bebida doce, mas um garrafão de soda em cada mesa. No segundo grau o vermut já tinha passado de um doce estranho para melhor amigo.

Quando chegou o petisco e era anchova, eu já me encontrava nos braços divertidos da tradição.

Anchova com sabor de peixe. Anchova docinha. 

Mais vermut e umas cervejas e voltamos, e durante o jantarzão típico do Xavi mais vinho e mais cerveja e a Maria contando sobre a peça de teatro que assistiu, e mais amigos. Parecia que eu tinha acelerado um mês na cidade sobre a carcaça ainda virada de viagem. Primeiro dia longo. Valia uma relaxada no sofá, a casa animada de convidados nem iria perceber.

Acordo manhã seguinte com o Domenico unhando minhas pernas. Fui saber depois que continuei participativo durante a noite com meu ronco.

Uma descida para um café com wifi e na volta o Xavi punido na ressaca. Eu estaria sozinho pelo dia. E como tudo tinha escalonado rapidamente para a twilight zone, decidi pegar uma praia, afinal era só o último programa que eu faria.

O abrigo em Barceloneta foi na sombrinha de um bar montado na areia, entre um leste europeu desmaiado de sol com álcool e uma dupla de inglesas, uma com livro, outra pau de selfie. Do outro lado da cerquinha, sentado à mesa do bar, um grupo de jovens banqueiros paulistas resenhando fanfarronices sobre Ibiza.

Pela areia corpos perfeitos em harmonia com a nudez. Corpos torrados em desarmonia com o sol. Sal e selfies. Acordo com uma diminuta tailandesa oferecendo massagem para as inglesas. No gracias, fui dar uma volta pela beirinha do mar até o píer onde os pescadores.

 a isca do horizonte

a isca do horizonte

 a escocesa que dormia com uma lata de cerveja e um skate no píer. também viajava sozinha. caminhamos até um mob de lindy hop acontecendo no meio do calçadão, então despedimos.

a escocesa que dormia com uma lata de cerveja e um skate no píer. também viajava sozinha. caminhamos até um mob de lindy hop acontecendo no meio do calçadão, então despedimos.

 a dica de que está tudo certo.

a dica de que está tudo certo.

Cheguei lá para meia noite na praça dos santos. O convidado à mesa era melhor amigo do Xavi, um ex competidor olímpico de esgrima que me contou sobre sua morada em basicamente todos os cantos de planeta, e sobre seu pai mestre respeitado de kung fu. 

Sim um mosqueteiro de pai ninja.

Depois do jantar iríamos para minha única noitada em toda a Detour. Mas como já passou de meia noite na história e a madrugada vai entrar pelo dia seguinte, prefiro começar a próxima crônica com a doideira e terminar essa com uma coisa bonita que percebi.

Cheguei em Barcelona meio fudido das ideias, foragido da anarquia na minha cabeça. A cidade tinha tudo para me tirar de órbita definitivamente, mas acabou acalmando, e agora vejo que foi a Bel e o Xavi.

Eles um casal que matou a charada dos relacionamentos. Cúmplices de unha e carne, sempre amenos e descontraídos e solícitos um com o outro, companheiros de birita e amantes de prazeres simples como preparar uma boa refeição e passar a tarde deitados de boréstia com os gatos. Eles se admiram de verdade, gostam de contar as histórias até do passado em que ainda não eram. Chegam em cada decisão cotidiana já com a visão de concordar no ponto no meio.

Conversam um diálogo tão entrosado entre o catalão e o brasileiro que criaram idioma próprio, mais divertido do que os originais.

A Bel e Xavi me deram a tranquilidade de aproveitar a solidão sem ficar obcecado por ela. Em toda mística da Catalunha o invisível ligando os dois foi o primeiro barquinho que me resgatou de volta a acreditar na maior mágica da união de caminhos.

 

H.I.