Banho de nuvem / by Hugo Inglez

nuvens algodao doce.jpg

- Não, você não imagina, ele veio mostrar o contrato de novo e a mesma coisa repetida mais 3 vezes. Não, mais 4 vezes, a mesma porra de cláusula, mudando assim, uma palavra. Aí eu já pensei que puta que pariu, vou pegar as pizzas frias com esse estagiário escrevendo gago e na dependência que eu revise.

- Você ta deslumbrante de absurda sabia? de gostosa, acho que a espuma com o baseado e o vinho, e as velas, fica o chame do inferno.

- É o veneno dos sais de banho.

- Tem uma galera que cheira essa porra, sabia? Aí sai pela rua comendo as pessoas.

- Tipo taradão?

- Tipo canibal mesmo.

- Eita que horror! Passa o isqueiro que apagou, to com a mão molhada.

- É sério você tá muito tesão, eu fico esperando seus peitos aparecerem, é sexy tipo à moda antiga, sabe? Aquela expectativa eterna, porra to de pau duro, nem com pornô eu tava conseguindo mais, assistindo ebony e uns bondage pesadão pra tirar meu pau da mesmisse.

- Ebony?

Ela estica os pés por baixo da superfície de espuma, tateia até encontrar meu pau. Avisei que estava duro.

- É o primeiro banho de banheira que eu tomo na vida, sabia?

- Nossa, você já é burro velho. Eu tomo sempre. Seu pau tá duro.

Eu avisei.

- Eu sei po, você é a rainha das auto indulgências.

- O que é indulgência mesmo?

- Eu gosto, deixa a sua pele macia.

- Sou maciez purinha. Tá entrando um ventinho meio frio né. Acho que dá pra fechar a janela agora não dá? Já acabou o baseado?

Dou o último tapa na ponta toda molhada e levanto para fechar o basculante.

- Acabou. Esse friozinho eu fico imaginando o clima hostil lá fora e a gente aqui no paraíso quentinho.

- Seu pau tá adormecendo aí do lado de fora.

Ela o pega nas mãos e carinho.

- Vem olhar lá fora amor, a chuva cantando brabo. Tipo estar na putaria numa limosine e botar a cabeça pra fora do teto solar e todo mundo lá fora vestido caretão.

- Deixa o inverno lá fora gatinho, fecha isso e volta aqui pra limosine, que eu vou ligar a água quente pra dar uma enchida.

- Vacilo, logo agora que seus peitos tavam desafogando?

- Anda mongol, senta aqui desse lado.

- Entre as suas pernas? Não vai prestar.

Não vai prestar nem um pouco.

- É a ideia. O seu primeiro banho de banheira da vida e o nosso primeiro banho de banheira junto.

Sento no meio da banheira, ela liga a água quente e suas pernas em volta de mim, levitando sem peso sob a espuma. 

- Vamos acabar com esse vinho primeiro. Pecado desperdiçar vinho.

- Pode ficar com a minha taça, eu to com outro pecado na cabeça.

Ela derrama sua taça na minha. A prioridade dela suas mãos de volta ao meu pau.

- Ele ta acordando de novo.

- Tava só tomando um fôlego. Amor olha, não parece uma borboleta laranja gigante na parede?

A sombra projetada das velas. 

Ela desliga a água quente.

- O vinho também fica bonito. Quer que eu pare?

A sombra do vinho na borda da banheira. 

- Ia falar do vinho agora, mas achei que a borboleta gigante merecia o 1o comentário. Não para, continua por favor.

- To vendo, tipo ali batendo asas.

- Ali as asas maiores e ali as...

Começo a delinear a sombra com o dedo, mas já não estou prestando. Puxo ela pela cintura para cima de mim. Para o contato.

- Eu to vendo. Ai amor eu ganhei um imã de borboleta muito lindo. De pedrinhas.

Ela começa a rebolar no compasso sutil da água ainda em movimento.

- De geladeira você tá falando?

- É, da Fabi, ela trouxe de viagem. Disse que em Paris tava um frio ridículo, ela tava no quarto de hotel se sentindo meio derrotada aí resolveu encarar o frio e voltou 15 minutos depois, congelando e mais derrotada ainda.

- E saiu só para comprar o imã?

- Que imã?

As linhas de pensamento degenerando no diálogo de pele.

- Amor nós temos um problema.

- Os problemas chovendo lá fora. Você fechou a janela antes deles entrarem.

- Eu nunca tomei banho de banheira, não sei me mover direito dentro de uma.

- Continua parado então, que de banheira eu entendo.

Paradinho.

- Quando tivermos nossa casa a banheira vai ser redonda e enorme.

- Tipo do Scarface.

- Exatamente, dourada e bem cafona, amo muito você, sabia?

Ela sabe.

- Dourada não. E sem televisão. Agora vem.

- Vem o que?

Indo.

- Isso.

Ela me coloca dentro dela.

O mundo desaparece. Só existe sensação.

Eu achava que espuma. Quando vi, espalhando nuvens pelo chão do banheiro.

H.I.