As folhas azuis de 2015 / by Hugo Inglez

 

Peguei um bloco de folhas azuis para tramar os novos projetos. Tinha bloco verde e amarelo e branco na papelaria, e alguns aplicativos que fariam o trabalho, mas preferi azul e papel.

O que eu não tinha até a véspera da véspera de Natal era presente para dar. A ninguém. Comprar coisas sempre me pareceu um vazio invasivo demais, oferecer posse a quem não pediu.

Toma lá, falaram que Jesus nasceu hoje então aí vai, mais uma coisa para você ter sem precisar. Arranquei a etiqueta de preço, mas não a da loja, pois se não gostar você pode perder seu tempo trocando por outro algo que tampouco necessário. 

Enquanto isso, as folhas azuis convidativas na escrivaninha. Madrugada perguntou quando havia sido a última vez que peguei uma caneta para mergulhar fundo? Quando a última vez que larguei o computador para me molhar de verdade?

Três horas de noite offlin, sem tirar a inspiração do papel, sem tirar de dentro (o foco). Sete cartas à mão para quem importa. Fluxo direto de coração para cada folha, com o cérebro no acostamento apenas para dando coerência às palavras.

No fim, poucos quadradinhos de rasura e quase nenhuma lembrança do conteúdo nos escritos. Havia deitado meu eu mais verdadeiro para então devolvê-lo ao subconsciente. Para a essência não ficar sobrexposta à luz da razão.

O resultado bem mais que eu esperava. Entre lágrimas e obrigados e xingamentos e sorrisos, os melhores presentes que já dei na vida foram de graça, pequenas partes do que sou em retribuição às pessoas que assim me tornaram.  

As folhas azuis o que aprendi nesse ano, minha retrospectiva do tempo professor. Poucos importam, só o que está no papel, na pele, na história, no olho no olho importa. O que te retira de dentro de você.

O virtual não respira, o não recíproco não inspira, o que só aproveita não te aproveita, resta se reservar. Acumular momento para dar presente. Dividir apenas quando somar.

Até a explosão, manter-se ausente.

De tudo e todos que perdi esse ano, apenas uma carta no correio, com a esperança de refazer o caminho da distância.

De tudo que ganhei, não ganhei nada, mas sim conquistei, e por isso muito bem guardado no meu carro forte de merecimento.

Vida são folhas ao vento, você precisa colocar peso para que fiquem. A quem é leve de espírito, cabe escolher melhor. Antes existiam verdes, amarelas e brancas.

Escolhi as folhas azuis para jogar todo o peso do meu ser.

H.I.