"Arte boa caminha sozinha e sem gritar" / by Hugo Inglez

ou "Quando tudo vira Originals"

Dedicado ao Marcelo Zissu e muitos outros.

"A arte não é uma atividade competitiva, e as discussões sobre promoção e relegação são irrelevantes para o prazer estético. Na opinião daquele escritor, certos artistas são melhores do que outros porque produzem, de um modo mais consistente, obras complexas e emocionalmente profundas. Não obstante, um estilo não é necessariamente melhor do que qualquer outro".

Alaistair Mackintosh citando Philippe Julian

Ainda não tinha cruzado nos estudos com uma definição objetiva, simples e satisfatória para avaliação de artistas. A passagem também explica porque no passado não rolavam grandes tretas entre correntes artísticas, e mais ainda, porque não existiam tretas dentro de uma certa corrente artística.

Apesar de dividirem um mesmo estilo, cada artista estava empenhado em produzir complexidade e profundidade emocional, algo que quando alcançado, não pode ser copiado. O ego com certeza já existia, mas estava substituído pelo orgulho com os próprios méritos em se criar singularidade.

Hoje o número de artistas preocupados em criar obras complexas e profundas é tão reduzido que a lógica objetiva desvirtuou, e a avaliação passou a ter como critério o marketing pessoal - os melhores são definidos pelo número de seguidores, likes, exposições hypadas e sucesso comercial.

O marketing é um mundo competitivo por natureza e acaba impregnando a visão da arte. Correntes artísticas passam a querer ser melhores do que outras, e artistas dentro de uma mesma corrente passam a disputar relevância e pioneirismo, ao mesmo tempo em que escondem suas referências.

Isso porque o trabalho passou a se resumir ao estilo e o diferencial à promoção comercial desse estilo. Quanto mais um artista é divulgado em detrimento de outro com o mesmo estilo - muitas vezes a referência original -, mais esse artista se torna "dono" do traço (sua única posse), num jogo de ilusão em que o mundo da arte caminha para a individualização estética, quando na realidade caminha para a promoção individualizada de infinitas cópias estéticas.

Enquanto isso, se percebe que os artistas mais verdadeiros experimentam uma certa inabilidade para o marketing pessoal. Isso porque continuam preocupados apenas em criar singularidades por um método complexo de expressão emocional. Para esses artistas, o estilo é apenas a embalagem derivada para dar acabamento ao conteúdo. O marketing é só o laço da embalagem. Então não há maiores problemas em dividir fontes ou conhecimento, e não há maiores preocupações em dizer o quanto as obras são únicas. Porque elas simplesmente são, Mesmo que o seu racional já dispare em fazer ligações com algos parecidos, o seu emocional é atingido e comovido de forma única, uma solada nova de voadora. Por isso que

"Arte boa caminha sozinha e sem gritar".

Quem me passou essa sabedoria foi um dos artistas que eu qualifico como verdadeiro, uma das minhas principais referências de pensamento e postura. Quando digo verdadeiro, quero significar artista de intuito clássico - a busca de complexidade e profundidade emocional. Não estou chamando os demais de falsos, mas de modernos, artistas de estilo e marketing.

Hoje vi uma coletânea de tatuadores brasileiros de blackwork em que mais da metade possuía o estilo desse artista. Afirmo isso porque tive o cuidado de pesquisar cada um, e todos os originals são posteriores ao artista original, que por ironia não estava na coletânea.

Agora pergunta se ele se importa com isso? Não teve uma vez em que estávamos trocando ideia que alguém não veio mostrar mais um "original copy&paste". Ele só ri. Afinal a forma é só a casca, a embalagem, e a casca pode ser open sorce quando a singularidade da sua arte está aterrada na profundidade do seu ser. Uma busca constante, intangível e portanto inatingível.

Passei o texto inteiro discutindo internamente se dividiria o nome dele aqui. Como a minha ideia é passar uma opinião geral sobre a arte, decidi ficar só na dedicatória. Afinal ontem ganhei uma admiradora de MUITO longe, por uma simples hashtag que ele inclui sem alarde nos seus trabalhos. E acredito que é na admiração mútua o verdadeiro marketing.

Essa é minha última dica para a "pesquisa" dos verdadeiros originais, os que correm paralelamente ao mundo competitivo e publicitário da arte. Eles costumam chegar até você completamente sem querer, mas você precisa querer, como aquele amor que você encontra no lugar em que para, cansado da busca. Eles também chegam para você na opinião das pessoas que você mais respeita, uma opinião que vai estar fundamentada no trabalho e nas sensações que esse trabalho criou, ao invés da pessoa e do nome.

Existem muitos outros artistas que provavelmente você ainda não ouviu falar, que estão escondidos nas referências dos artistas que hoje você admira. Espero que esse texto tenha dado bases mais objetivas de avaliação artística, e principalmente, que tenha te instigado a se tornar um pesquisador dos verdadeiros originais. Aviso que é um caminho lindo, contundente e sem volta. Bom mergulho.

 

Hugo Inglez