A vitória em rosa / by Hugo Inglez

Conheci seus peitos a gente tinha quantos anos? Vinte e alguns antes de começarmos a namorar, se lembra? Ainda éramos apenas amigos e bêbados e jovens quando você decidiu que seria uma boa noite para se mergulhar pelado em Angra.

Só algum tempo depois fui devidamente apresentado, com mãos e pontas dos dedos e boca, e o lado do rosto nas inúmeras vezes que ali adormeci aninhado. Eu gostava particularmente daquela pintinha no limite do mamilo esquerdo. A Minha pintinha, tomei posse mesmo, moleque abusado colecionador de constelações.

Eu lembro do mergulho vertiginoso do seu colo nos vestidos, e de como eu só queria que as festas acabassem para te livrar das roupas e ali mergulhar. Talvez por isso me senti tão culpado quando aconteceu. O tanto que dei atenção a essa parte específica do seu corpo, e não fui capaz de perceber o inimigo. Precisou você massagear e vir pedir pra eu confirmar que algo errado, com lágrimas angustiadas nos olhos.

Nossa amor, como eu não mereci nada do que aproveitei, por ter perdido esse detalhe. Minha sorte é que por você não passa nada. Minha sorte é que seu espírito fez guerra cedo e sempre soube batalhar.

Por isso não entendo você tão quieta depois da vitória. Tão defensiva. Parece até envergonhada de mim. To escrevendo para pedir, por favor não. Por favor não, meu amor.

Hoje você mais linda do que aquela noite em Angra. Confia, você sabe da minha memória fotográfica. Aquela menina só um rascunho alegre da guerreira gigante que se formou, ainda que meio melancólica por esses dias.

Os mares extremos que cruzamos me fizeram perceber algumas coisas. A principal é que eu não preciso de muito, mas de você eu preciso, Muito.

Sinceramente, todas as memórias que escrevi aí em cima, eu não poderia estar cagando mais pra elas. Você não é seus seios. Não é o colo no vestido. Não é minha pintinha. Isso tudo tão pouco. Você é o coração brigador que guarda aí dentro, e que agora eu tenho mais próximo do que nunca. Caminho livre e desimpedido ao melhor de você.

Se o caroço iria tomar seu coração de mim, essa minha única preocupação durante os dois meses em que mantive a respiração presa.

Mas você venceu, é lógico, porque você a mulher mais foda que já conheci. O ser humano mais forte. Então por que tristeza? O tempo leva tudo mesmo. Já levou meus cabelos, minha postura, e até da pouca altura ele agora tomando mais. Acho que o destino é reduzir tudo ao essencial. Se for assim, de mim só vai sobrar o coração que te ama e o sorriso que ele causa.

Você pode estar se achando menos, meu amor, mas nossa, eu te vendo tão maior que preciso olhar para cima. Parece que trocou um par de seios por um par de asas.

E já que continuo um velho colecionador abusado, queria te pedir algo. Ao invés de esconder de mim, é isso mesmo que eu quero. Sabe a pinta no mamilo? Agora eu quero as cicatrizes que a substituíram. Quero tirar onda que, com a minha cúmplice, nem tumor bolado bate de frente.

Mostrar pra todo mundo que mulher é sobretudo um estado de espírito.

E que por isso, a minha a mais linda de todas.

Vamos para Angra? Tipo agora, assim que você acabar de ler.

Parece que hoje vai fazer uma noite perfeita para se mergulhar pelado.

H.I.

 

*pequena homenagem ao outubro rosa