A última dança da chuva / by Hugo Inglez

escrevi a maior tristeza do mundo e apaguei

chorei o desgosto mais profundo, enxuguei

tempo quando bem gasto vira ganho, tempo rei

e tristeza em nosso reino nunca fez a lei

Quem disse que deixei meus bichinhos? Vou provar que despedida um conceito relativo, minhas filhas continuam por aqui, ta doido? Já tramei um todo-santo-dia de homenagens cotidianas.

Vou guardar o último sonho para espirrar na minha cara e lamber meu nariz ao despertar do dia. Ao invés de cortar o queijo no café da manhã, vou usar o ralador que preparava a cenoura delas. Vai ser queijo quente ralado.

O iogurte, a partir de hoje tomar em picolés de copinhos descartáveis de café.

Vou caminhar olhando para baixo, conferindo os pontos cegos, para garantir que a Juju não distraiu em nenhum cheiro e ficou para trás. Andar por aí com um sorrisinho orgulhoso no olhar, pois na cabeça os elogios dos passantes, espantados com a educação do ser superior que passeia sem coleira e só atravessa a rua no comando.

Fui eu que ensinei as criança tudinho, melhor do que você ensina seuszumano. Um pouco mais de tempo e até a imprevisível Vidaloka iria dispensar a guia.

Vou continuar o último a sair do elevador, pois vocês não saíam sem mim. E seguir passeando no Parque Guinle, fazer umas barras ao lado das mesinhas em que a galera tosta aquela amônia canábica horrorshow.

Vou encontrar todos os cães e patos e gansos boladões da gangue fora da lei da Ursa, e avisar que apesar de não estar mais aqui, o território continua da Vidaloka. 

Mas isso apenas quando eu voltar a ser forte, quando cicatrizar. Por agora a distância até o parque longa demais para o sangramento, vou secar antes do destino.

Mas nada impede que no final da tarde a gente continue passeando nas cores bonitas do horizonte que se desenrola da minha janela. Quando atravessar algum astro cadente, ao invés de um desejo bunda, vou tomá-lo como a Ursinha correndo tão veloz e sem sentido quanto Forrest, tão supersônica que traço na atmosfera.

Vou provar que distância também uma medida relativa, mostrar meu coração trabalhando por tentáculos, poderosos como os do Senhor Polvo - o polvo esfolado de pelúcia melhor amigo da Ursa. Vou estender as boas vibrações ao infinito, cobrir maiores distâncias que o juízo só para garantir abraço, com várias voltas extras em torno da Juju, deixá-la espremida no aconchego do travesseiro de perna que ela gosta.

Quentinho maior para o frio.

E quer saber?, vou colar as fotos de volta na geladeira e conversar com os retratos, afinal sempre trocamos as ideias pelo olhar. Vou manter a cama rosa onde está, agora minha mochila dorme lá, e o Senhor Polvo continua pela área, festejando meu cada retorno, do mesmo jeito que a Ursinha fazia questão, ao mordê-lo e mostrá-lo sempre que eu chegava.

Ele só está mais paradão.

Um dia eu e meus bichinhos vamos reunir de novo, e você imagine a dança na chuva das minhas lágrimas de felicidade, pois sou chorão mesmo e não existe momento futuro maior no meu anseio.

Mas por agora vou dobrar a ausência nesse jeitinho alegre de sentir saudade, pois o lugar que elas criaram no meu tempo-espaço, vazio nenhum vai ocupar.

Prometo que vazio nenhum vai ocupar, nunca.

H.I.

* Sobre as fotos, passei os últimos meses peladão com os bichinhos em Laranjeiras e queria guardar os momentos do jeito que foram, então convidei meu mano Fernando para registrar. Ele tem um anuário fotográfico para completar e foi uma troca providencial. Deixar aqui minha gratidão.

texto Hugo Inglez
fotos Fernando Schlaepfer / 365nus