O Cria da Barra e o que a Barra Cria / by Hugo Inglez

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Praia da Barra em 2013. meu quintal por 20 e poucos anos (desde o primeiro de vida).

"Puta que pariu já começou com uma foto da praia, pra mostrar que é playboy"

é por aí que a gente vai mesmo.

diz a lenda que o Mouchoque escreveu o hino "Eu odeio a Barra" depois de ter sido covardemente juntado no meu bairro natal. verdade ou mito (apesar de bastante plausível), você pode dividir os barrenses em dois grupos definitivos, apenas com a reação à música.

de um lado, o Barrense - ele vai concordar com cada crítica e se resignar de que também odeia a Barra, e o clássico letreiro pós túnel sugerindo que você sorria, o povinho novorrico, a praia linda e mal frequentada e com localismo black trunk, e a falta de ônibus quando tudo é longe, o pelassaquismo à cultura americana na Miami que ninguém respeita porque não é US. e num etecétera entre o constrangimento e a revolta condescendente, cair no grupo de barrenses que bem pode ter inventado a notória síndrome de viralata.

a ironia é que são esses os mais propensos a ter juntado o Mouchoque e ter dado origem ao hino.

agora no outro grupo... nesse sim você encontra O Cria da Barra. ele vai ouvir a música, cair na gargalhada, tocar de novo e de novo, mostrar para os amigos com quem esteja conectado na hora e ainda com um sorriso no rosto, comentar que "esse é o bairro do Rio aonde eu nasci e cresci".

então vai contar uma história absurda e divertida. que você pode ter certeza de que aconteceu.

o Cria da Barra é um gente fina incurável com uma moral não-cruza-por-favor de princípios ao mesmo tempo muito normais e muito singulares (pra não dizer estranhos).

apesar de toda a minha abordagem antropológica-bullshit ao mundo, eu nunca tinha conseguido traçar um perfil digno do Cria da Barra, até que dois amigos de Caxias abriram minha cabeça com a revelação.

o Wagner Tujaviu - revesando entre me chamar de Playboy Sucrilhos e a repetição infinita do refrão de "Eu odeio a Barra" - abriu meus poros para o entendimento. então o Marcio Bunys me solta a grande pérola que deixa qualquer sociólogo acadêmico no chinelo:

- É foda Hugo, tu ta fudido meu mano, a Barra é a Zona Sul da Zona Oeste, e a Zona Oeste da Zona Sul.

e Bum! (fica aqui a saudade em link-preza que eu guardo do bullying dessa dupla Vandalista)

pergunta para qualquer cria da Z.O. se ele inclui a Barra. ele vai te empurrar junto com o bairro inteiro para a Zona Sul e seus riquinhos classe A leite com pêra. "Aqui não". Zona Oeste é gueto e rua de verdade. e é mesmo.

e a gente da Barra, a Zona Sul da Zona Oeste. em cheio.

só peloamor não vai para a Zona Sul sugerir que a Barra faz parte. você vai presenciar a alergia atacando na hora, o pescoço ficando todo empolado na gola pólo. Barra é lugar de capiau, emergente, classe A sem história, e por aí vai. falta Tradição.

a Zona Oeste da Zona Sul. empurrados de volta ao nosso lugar original. só que agora um Limbo.

e falta tradição no Limbo. a Barra fica no exato ponto médio entre os extremos cariocas, e por isso reduto de tantos extremos transviados. composto pela classe média-MÉDIA e sua natural autossurtação para todos os lados. renda e conforto demais para entrar na truzeira da Zona Oeste. sobrenome e dormência social de menos para se incluir na renda e conforto da Zona Sul.

o que sobra é renda média e desconforto. zoeira e preconceito das duas pontas e uma identidade de dupla negação.

mas quem disse que o Cria da Barra nega alguma coisa? é o que vai ser mais difícil de entender. como esse fera está defendendo Aquele lugar?

poucos notam que o ponto médio é o melhor lugar para se especializar em adaptação. quase uma célula tronco geográfico-social. se você cresce na pobreza se torna um mestre em sobrevivência, mas fica sem o refinamento do cinismo. se nasce na riqueza, um mestre da manutenção social, mas não sobrevive à folga da empregada.

só que o resultado irônico de se nascer e criar no lugar-que-ninguém-quer-assumir é se ver preparado para batalhar em todo e qualquer lugar que se deseje assumir.

o maior orgulho do camaleão é a vasta gama de cores que ele capaz de vestir.

e antes da gente ir por esse caminho estranho, deixo uma incrível arte que fiz para representar tudo sobre o que você pensou que eu deveria estar escrevendo num texto sobre a Barra.

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"Praia da Barra uma moda eu vou lançar", 2018
Hugo Inglez
Emoji Art sobre Outdoor Relíquia (r.i.p.)
/////////// Queria ser filho do Cadu Confort com o Binau mas só nasci com talento suficiente para uns emojis de microondas.

 

de todos os bairros do País, nenhum com um povo que represente de forma tão fiel um microcosmo do brasileiro padrão. 

porque pensa bem, o Brasil é um Limbo em si. recursos de primeiro mundo, economia e governo de terceiro. povo de todo o mundo, absolutamente todas as origens e antropofagias, unidos apenas por um antipatriotismo crônico. nação com território que cobre quase um continente inteiro, e ainda assim a única nação não latina do continente.

o Brasil é a Zona Sul do continente sul-americano, e a Zona Oeste da Europa.

(acho que finalmente consegui desenvolver uma tese-de-uma-frase-só que ofende TODO MUNDO).

e o que acontece quando você pega um bairro que é o Limbo de uma cidade que é o Limbo de um país que é o Limbo?

o Limbo é lindo, bebê.

pega uma lixeira pública na Europa toda subdividida e cheia de regras sobre o que recicla onde. o constrangimento de não ter a menor ideia de como essa porra de lixo funciona. só não é maior do que o impulso de largar a sacola de lixo no cantinho para o lixeiro resolver quando vier buscar. afinal foda-se "é o trabalho dele".

isso é brasileiro purin, mas quem é da Barra sabe que isso é também Barra-made. passar uma vida inteira de recursos dignos e ainda assim se ver ignorante de algo tão básico quanto reciclagem, e ter impulsos para resolver da maneira mais egoísta e imediata possível. isso é drama de classe média brasuca.

mas aí você decide que dane-se, vai aprender a reciclar e vai ser agora, e aprende e no final de semana está criando fila na lixeira do vidro, afinal só entra uma garrafa de cada vez.

o tiozinho da fila acerta que "o churrasco domingo foi bom ein". você poderia estar reciclando as garrafas com o dobro da velocidade, mas uma das mãos está ocupada com um copo da cerveja que foi estrategicamente poupada para a manhã de reciclagem.

o tiozinho não se importa. nenhum gringo da fila se importa. saíram rapidinho para jogar o lixo fora e agora entretidos num bizarro espetáculo de fistáile social gratuito. tem até som do carro estacionado-rapidinho ali em fila dupla.

é aí que todo mundo vai levantar para dizer que "AH Isso é brasileiro pra carai! e mais carioca ainda!"

não-não-não amigão. fazer questão de reciclar uma porrada de garrafa de um churrasco exagerado e transformar o ato simbólico e consciente de volta para um pós-churrasco com os amigos, mais os desconhecidos da fila criada por sua nobre causa, isso é classe-média brasileira, cara. classe média-Média.

e enquanto m-M, isso é Barra!

o som no carro pode ser samba, pagode, sertanejo, funk, punk rock e eletrônico. tudo Barra.

a figura de quem eu penso quando falo classe média-Média é aquele molequinho da classe que não é bonito, não é dos mais inteligentes ou divertidos, ou descolado ou marginal ou de qualquer jeito notável. aquele de quem metade da sala não sabe o nome, e a outra metade se esquece em bases regulares.

pegou a figura? o Cria da Barra é esse menó, só que ele decidiu que vai ser o mais gente fina da porra toda, pelo menos isso é algum potencial aproveitável.

e quando joga esse tipo de cria brasileira no mundão, não tem quem pare.

esse molequinho médio cresce já sabendo que vai encontrar aquela admiração ressabiada de gringo que reconhece magia, esperteza e absurdo social, mas distante demais para saber em qual faceta confiar. e sabendo disso você chega desarmante com sorriso e carisma e interesse honesto nas particularidades de quem-quer-que-seja e do lugar de onde esse alguém veio.

mapear todas as cores do ambiente para saber como se vestir para a ocasião.

amassado entre todas as contradições e tradição nenhuma, mas ainda assim orgulhoso. consciente de todos os preconceitos e devido a isso bondoso, paciente e tragicômico. extroversão natural de quem um dia só teve isso para destacar. confiante do seu poder de adaptação e da singularidade universal desse poder.

se eu fosse resumir toda a ideia numa modinha para poluir sua timeline, eu escreveria assim:

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peraí Hugo porra, tu ta defendendo que o Cria da Barra é o brasileiro ideal para exportação?

não cara, é pior que isso. eu to afirmando que na minha breve experiência fora do Brasil, muito da minha capacidade veloz de adaptação (por necessidade é claro), eu credito ao meu Bairro natal. e nas entrelinhas to sugerindo que o perfil brasileiro mais preparado para internacionalizar é o Cria da Classe média-Média.

falei que era pior do que você imaginava

quer uma prova? quando estiver na presença de um grupo de brasileiros em qualquer lugar do planeta, pergunta quem é da Barra. não pergunta SE tem alguém de lá. pergunta direto QUEM é de lá, que eu te dou certeza, dedos vão ao alto. não se surpreenda se os dedos forem das suas pessoas favoritas no grupo.

ao mesmo tempo, se encontrar algum sotaque carioca pelo planeta que você não consegue identificar nos trejeitos a zona nativa, também pode arriscar sem medo - 80% de chance da fera não ser de zona nenhuma - o ser saiu da Barra da Tijuca, o meio do lugar nenhum.

o meio de todos os lugares.

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na diferença entre um sofá-amigo para cair e grana sobrando para o airbnb é que talvez você entenda minha opinião. as características internacionais mais proveitosas do brasileiro é ser um povo emergente e de identidade adaptável.

e nisso você pode se roer mas vai terminar esse texto concordando comigo.

de emergente e identidade adaptável a Barra da Tijuca entende Bastante. somos os Filhos do Limbo. acostumados a conviver entre anjos e demônios sem precipitar o julgamento de quem é bom e quem ruim.

não me espanta ser o lugar que o Bola de Fogo escolheu para lançar a moda.

entre o "Eu odeio a Barra" e o "Atoladinha", me sinto preparado para QUALQUER COISA.

Hugo Inglez