Sobre Cozinhas e Uma Ceia de Natal / by Hugo Inglez

texto e fotos / Hugo Inglez

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sabe os filmes clássicos de máfia em que os chefões vão presos e a cela deles é sempre uma cozinha farta e calorosa?

de início você pensa que o ambiente está assim porque eles estão rodeando o perrengue da cadeia com uma bela de uma refeição.

mas eu começo a entender que a dinâmica da cozinha já basta para transformar cela em ceia.

já vi sala cheia de gente e ainda assim triste. mesa cheia. e triste. varanda, quarto, sótão. habitados de solidão.

mas cozinha, não. pequeno a minha família almoçava na mesa da cozinha. panela prato televisão coca-cola espremida na laranja do copo de gelo do meu pai. mas nenhuma briga na memória. que teve, teve.

só não ficou.

passei minha véspera de Natal numa cozinha cheia e alegre. uma reunião de exploradores distantes de suas famílias, pactuados para cobrir a saudade com aquela quantidade de comida que você só encontra na casa da mamãe.

rodízio na tábua e alterna nas bocas e chora mais um pouquinho nessa cebola que todo mundo vai precisar. e passando com quente com faca pra lá com sorte e tirando fino para cá, e no meio do caminho alguém que migrou outras produções natalinas para a mesma roda de conversa.

cozinha é coração de mãe. sempre cabe mais um, sempre produzindo amor.

no caso de Natal foi a Farofa de Pistache da Casimiro, com óleo de côco. arte e amor purinhos. receita colaborativa em que a ponta firme com certeza foi a encarregada de descascar os pistaches sem comê-los imediatamente, no caso a Ana Luiza, agora uma monge budista do 13º dan.

cozinha é o coração da casa mais do que o jantar é o coração da família. quando todos se sentam para comer o esforço colaborativo se transforma em recompensa. todo mundo enche a boca e a alma e a conversa se cala.

para retornar com dificuldade de respiração, se for o meu caso de exagero natalino. funcionou. o esforço natalino na cozinha me levou até em casa, onde eu como, deito e apago me arrependendo parcialmente da ignorância com os pratos.

pude me arrastar até o primeiro sofá, distribuir meus presentes e apagar antes do Papai Noel chegar para jogar Playstation. a Concha lia. Maclin e Camila jogavam gamão com regras de turkish. Renato levava na viola As Dez Piores de Renatinho Santos

quando apaguei feliz da silva acho que rolava um Mc Sapão voz e violão no bonito Natal carioca da rua Joaquim Casimiro, em Lisboa. 

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