O Teto da Almada se Chama Céu / by Hugo Inglez

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a única imagem definível na outra margem de Lisboa é uma estátua enorme de Jesus, uma versão meio tosqueira porém maneira do Cristo Redentor.

basta pegar a barca que em 10 minutos você desembarca em Almada, uma linda destruição quase completamente abandonada de lugar. andando mais 10 minutos ao longo da margem do rio Tejo, você se livra do quase e chega no abandono total, terra de paredes que ainda resistem, cercando tetos demolidos pelo tempo, uma espécie de caixas enormes recheadas de destroços, musgo, madeira podre e uma convulsão colorida de tinta em linguagem anárquica e sobreposta.

parece que as paredes continuam de pé apenas para continuar recebendo esses chamativos contos urbanos. como velhinhos que mal conseguem andar, mas fazem questão de vestir elegância e estilo antes de botar a bengala na rua.

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primeira vez que eu via a Lulah pintando. deu um orgulho que vou te dizer. ela tem uma intervenção que utiliza letras de outros para dar formato à expressões de pessoas que ela fotografou pelo mundo.

você pode entender como desrespeito. atropelo. e todos os etecéteras do purismo urbano que se acha relevante para tomar um pedaço de parede como espaço privativo de eternidade.

eu penso justamente o contrário. colaboração espontânea e etérea entre artistas que provavelmente nunca vão se conhecer. reinterpretação em camadas. transformação de algo em algo a mais.

poético como arte urbana deveria continuar sendo.

e nesse lugar silencioso em que apenas a gravidade parece continuar investindo, onde o único teto que você não desconfia que vai cair na sua cabeça é o céu acima, homem e natureza continuam a demonstrar sua força criativa.

Lisboa é uma cidade lotada de coisas para se fazer. mas poucos lugares foram tão feitos para se refletir, e com um nome tão propício - Almada. se sua vida parece em destroços, pega uma barca e vai pensar na vida lá.

você vai entender rapidinho a dimensão da beleza que pode ser criada de uma alma em escombros.

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texto e fotografia / Hugo Inglez