Herói Nacional / Live no Face 1 / by Hugo Inglez

terceiro dia que seu braço direito acordava morto igual a um pão francês. sonhos intranquilos faziam ele dormir em cima do braço e acordar atrasado. estava se acostumando a passar o café com o braço canhoto.

acostumando a usar o braço esquerdo para conferir os milhares de novos seguidores da noite pro dia.

from: Rio de Janeiro
currently: Paris with a french bread useless right arm

usou o braço esquerdo para abrir a mensagem com a confirmação. seu contato havia descoberto o entoque do ex governador do Rio, em uma cidadezinha afastada da capital. agora bastava achá-lo, matar os possíveis seguranças e iniciar a transmissão da captura.

para a transmissão precisaria do braço direito. sua coronhada canhota não tinha o mesmo apelo, não fazia o mesmo som seco ao atingir o crânio. seu braço esquerdo não tinha o mesmo carisma para gerar likes e follows e shares e os gloriosos memes.

o direito tinha, e essa estava sendo sua maior transmissão. três seguranças e um filho mortos, um ex-governador corrupto amarrado com silver tape à cadeira, com um "live" escrito em vermelho na testa, sangrando e babando e implorando por deus e pela polícia, que só chegaria daqui a uma hora, quando fosse chamada para cuidar da saúde e extradição do capturado.

a polícia francesa chegaria. deus não. deus provavelmente estava assistindo à transmissão, ó bravo novo mundo lindão. afinal deus é brasileiro e deve curtir uma vingança divina.

após entregar o ex governador - agora um amontoado confuso de carne semi viva -, voltou para sua suíte, receber os elogios por mais uma busca e captura bem sucedida.

os mesmos amigos de sempre preocupados que as transmissões fariam prova de que a resistência estava mais para tortura.

a mesma resposta de sempre: besteira, quem se importa quando o povo está ao seu lado? chegaria ao Brasil como das outras vezes, aeroporto lotado por seu cada vez maior fã-clube. quem se atreveria a prender ou sequer questionar um heroi nacional?

após lavar o sangue de bandido do corpo, reparou que sua mão tremia de leve. ossos do ofício. o mesmo contato que informara sobre o paradeiro do ex-governador, agora enviava mensagem avisando sobre um inimigo de estado.

um estudantezinho comuna que chefiou as ocupações escolares até reparar que o caldo tinha azedado. um ratinho covarde e também fugido para a França, ô sorte.

uma segunda transmissão no mesmo dia. que brinde! que tempo bom para se viver. as coisas se conectando tão bem que poderia massacrar o comuna com o braço esquerdo e transformar isso numa jogada de marketing.

talvez acordasse no dia seguinte com os dois braços dormentes. mas quem se importa? nesse ritmo, em um mês passaria os seguidores da Bruna Marquezine. o Moro que ficasse esperto no posto de Justiceiro Nacional. a coroa cada vez mais em disputa.

h.i.