Não Gosto de Gente Pobre / by Hugo Inglez

não gosto de gente pobre. (uuuu lá vem ele politicamente incorrreto).

mas sério, quanto mais rica a gente, melhor. aquela gente que quando não sabe, aprende, e quando entende, explica. gente r.i.c.a de conhecimento e cultura, que parte logo pra ostentação.

aqueles que nunca vão deixar o assunto morrer, pois sempre curiosos de você, na ganância de cada pouquinho mais de história. gulosos do caldo singular de cada glória cotidiana, sensíveis às sutilezas de tempero, saboreando na língua e até bochechando no palatear pornoblasê de someliêr, só que tanino de sangue nos olhos, com notas da terra de origem, um gosto de você.

adoro gente rica de ouvido, silêncio e linguagem corporal. gente rica de ofício e os conectores de acaso.

gente mão aberta de sorrisos e os gastadores compulsivos de educação, com bolos de bons dias nos bolsos e paciência para as filas da vida sem furação. milionários com amigos contados à mão, mas um resto inteiro de mundo em queridos-já-te-conheço-de-alguma-outra-dimensão.

gosto dos que o mundo gosta de graça, circulando por diferentes babilônias de seres diferentes, carteirinha de gratuidade universal de circulação, modelo talento&empatia.

os que mantém no sofazinho de casa trezentos quartos bem ocupados de mansão, os que trocaram para hoje o algum dia e saíram de mochilão.

aquela gente tacanha em perder uma nova opção de amizade, uma nova possibilidade de realização. gente rica que mantém baseada na intimidade seu tesão. mais alto, mais fundo, mais longe, mais rente, bem mais junto. os que preferem cumprimentar beijo e um abraço, ao invés de colar a cara de lado e dois beijinhos em vão.

aaaa porra, essa gente boa rica de erros, cuja piada mais afiada são as tragédias que já venceu, a maioria no acidente, bem quase, bem feito. os queridinhos do karma pra quem todo dia loteria, os bêbados que nunca são atropelados.

minha gente rica mantém a geladeira cheia de criatividade e a despensa no desperdício de ideias dispersas.

minha gente rica carrega biblioteca de livros nas costas e só gosta de um tamanho de televisão - o formato cinema. minha gente rica os bichinhos vão até eles receberem carinho. porque os bichinhos sentem de longe quando a gente é rica, e quando é só milhão.

porque gente pobre, gente pobre por favor não, hashtag cacoantibes. se você tem apenas muito dinheiro e coisas e mais coisas que não sabe por que comprou nem onde colocar, cara, me perdoa, mas eu também não sei onde se coloca tudo isso, me angustia e só vem à cabeça uma sugestão.

gente pobre por favor não. meu irmão se chama henrique, minha vó portuguesa chamava ele de rico, meu pai o chama de ricão. acabei me afeiçoando por riqueza, acho que uma falha de caráter.

prometo para os próximos anos não melhorar.

hugo inglez
2012 (texto perdido por um dos hds)

 

(Filosofia / idioma brasileiro)