Garrafamento Olímpico no Seu Radin / by Hugo Inglez

foi durante um engarrafamento olímpico. cambiava as estações sem olhar para o dial, em busca da Rádio Cidade que saíra do ar, conforme ele já sabia, mas ainda assim buscava, enquanto o engarrafamento se arrastava sem tirar o pé da embreagem, enquanto a família olímpica cruzava livre pela faixa livre em seus carros de adesivos cafonas, enquanto a ideia de encontrar o andar 7 e meio no repetitivo edifício FM o interessava, assim como setar sua perna em câimbra e incomodar o motorista da frente com farol alto em pleno farol alto da manhã.

no 105,1FM encontrou a rádio Copacabana e logo descobriu que o nome oficial é Copacabana 680AM, então para lá foi, em busca de autenticidade, em busca de estática para dar uma crocância, uma textura à pregação, ou quem sabe a Rádio Cidade escondida.

o horário do bispo Macedo e seus bispos terminava com um bispo pedindo para os enfermos repousarem a mão sobre o aparelho de rádio, por onde curaria uma lista interminável de enfermidades. ainda com o pé na embreagem, colocou a mão sobre o botão de volume e lá deixou, nunca tinha ouvido de medicina por ondas de rádio e sentiu-se preterido quando após 5 primeiras marchas de cabeça ombro joelho e pé, joelho e pé e tumor, o bispo não curava tédio.

profundo, crônico e carnívoro tédio da porra da vida era uma enfermidade subestimada pelo Senhor.

os bispos do templo de salomão foram seguidos pelos pastores da universal, assim, sem tirar da embreagem. o programa do pastor Paulo Freire tinha o compromisso em trazer felicidade como slogan, mas logo pastor Paulo Freire foi anunciando que era a trombeta e agosto seria um mês meio punk.

pastor trouxe até um encosto para confirmar, com um terrível sotaque de umbanda e timbre de quando você quer imitar um monstro malvado para uma criança, mas a criança ri de você e pede para você devolver o ipad, que ela quer matar gente online com headshot e feitiço.

o pastor queria trazer felicidade, mas sua função era a trombetagem, ele era a mensagem assim como Moisés. pastor era o aviso de que o anjo viria passar o cerol nos primogênitos em agosto, e havia duas soluções, degolar um cordeiro e à moda antiga passar seu sangue no umbral da porta enquanto a costela chorava na brasa, ou manter-se vegan e buscar imunização na igreja às 15, 18 ou 20 horas.

quando pastor transformou agosto num acrônimo do apocalipse e ao invés de A de amor cantou A de agonia e G de gemido, foi nessa hora que o pé descansou da embreagem e o sorriso abriu.

aquele programa era mesmo sobre felicidade, enfim percebeu. a felicidade moderna de não conseguir felicidade então ficar feliz com a desgraça geral e por isso ao mesmo tempo alheia e inclusiva. o inferno dos outros que é nós.

a felicidade plena é o mistério da incoerência, assim como a Rádio Cidade continuar apenas na internet, o único lugar em que você não precisa de alguém escolhendo músicas para você e metendo uns comerciais no meio. a felicidade plena é um corredor livre de trânsito por onde você pode passar, desde que à caminho do evento mais tosco já visto no seu país, dentro de um carro com uma adesivação que o faz parecer a vingança do designer preso na outra pista.

a felicidade plena também na outra pista. bastava criar incoerência e o mistério se apresenta. e criar incoerência num engarrafamento olímpico é a coisa mais fácil que existe.

basta sorrir. o fundo do poço vira piscina assim que você começa a guerrinha de lama. até Copacabana ouvindo a rádio Copacabana.

h.i.

02 agosto 2016