Influencer ou Morte / Live no Face 2 / by Hugo Inglez

DIGITAL INFLUENCER OU MORTE.gif

Crônica por Hugo Inglez

Ilustração e gif por Tallulah Maskell-Key / Hugo Inglez

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ele bem pode ter sido o protótipo do Digital Influencer. disso ele tinha certeza. talvez. quem saberia dizer? a maldição do protótipo é ver suas cópias melhoradas ganhando o mundo.

e na sua época não existia nem celular para a prova.

mas que havia sido O Digital Influencer, ah mas ele tinha sido.

provavelmente. bem, nessa manhã de domingo ele teria sua prova de fogo. digital influencer ou morte.

bastante morte, para influência suficiente. afinal se o mundo fosse justo ele tinha nascido duas décadas depois e estaria agora no auge de seu poder digital de viver uma vida melhor do que a de todos (incluindo a sua própria).

não pode sobrar ninguém para polarizar esse hype.

finalmente todos iriam entender o que ele já sabia desde molequinho. ele podia muito bem ter inventado o hype.

um carisma ímpar aliado a um senso fora da curva de marketing pessoal, essa a fórmula com a qual se autoidentificou.

mesmo sem essa consciência, ele foi capaz de grandes feitos, como a ponte que construiu entre um tique infantil de dicção e o melhor apelido que um adolescendo cheio de tesão pode se arrumar.

muito de sua criança gordinha foi preenchida em pão doce. ele adorava, sua mãe também, pão doce neles.

sabe-se lá porque, ele não conseguiu pronunciar o acento do til até os 10 anos. parecia que sua brasilidade genética jamais iria ativar, e ele passaria a vida como o único gringo não-gringo da sua cidadezinha no interior de Minas Gerais.

pão doce.

pao doce.

pau doce.

um gordinho de apelido Pau Doce não faria qualquer publipost de respeito, caso esses já existissem.

mas a selfie tampouco existia e mesmo quando o molequinho Pau Doce começou a malhar precocemente e emagrecer e treinar o sorriso e estar sempre com o hálito perfumado no chiclete e a intenção maldada no flerte.

‘Guru Ganda, o Marquinho ainda não apareceu com as oferendas. o senhor acha que talvez...’

não. mas talvez. ai do Marquinho...

40 minutos para começar o live no facebook. e ele precisava de 10 minutos para montar a cena e pilhar a seita para entrar no ar.

todos sabem que os primeiros minutos de transmissão os mais cruciais para formar um fluxo responsa de pipoques emoji.

‘Liga pra porra do Marquinho. Aquele maconheiro preguiçoso. Depois fica mimizento que não passa de 100 followers.’

preguiça. no fundo, a grande causa. as pessoas com preguiça de abandonar suas vidas reais para criar o Personagem. preguiça de sacrificar o humano pelo bem maior a da divindade imaterial.

o problema dele não era preguiça. iria suicidar uma bela caralhada de gente para provar que seu problema definitivamente não era preguiça.

nunca foi.

sacrifícios necessários para abandonar um apelido de infância, por exemplo.

o caminho era fácil. mas existia um rio de preconceito no meio.

a ponte ele construiu num dia embriagado do qual não fala, após um longo perído de alongamento no que bem poderia ter sido o predecessor offline da Mahamudra Yoga.

o dia em que conseguiu provar cientificamente que era capaz de deixar seu pau com o mesmo gosto do chiclete que mascava.

de duas formas diferentes.

sacrifício é quase trincar a costela pra testar a autenticidade do lifestyle.

cadê a porra do Marquinho com os cupcakes de cianureto?

‘Ganda Subchefe, conseguiu achar o Marquinho? Ligou pra tia dele?’

a véia cobrou o dobro na encomenda só para fazer um buraquinho embaixo dos bolinhos. em duas horas não vai ter ninguém para pagar a segunda metade.

‘Subchefe, coloca as reprises do Cidade Alerta e do Alto Leblon nos telões por favor.’

agora não tem volta. nem que ele tenha que ir pegar os Cupcakes do Arrebatamento no barraco do Marquinho.

porra, logo ele, Ele que foi o grande Pau Doce do final da década de 80, carinhosamente sub apelidado Morango. ele que conhecia a todos, namorava as que desejava, terminava em traição, entrava em qual evento fosse. tinha dois caderninhos de contato.

não pagava cerveja. jantar. erva.

sua fama extendia até Belo Horizonte.

e agora esperando pelo maior maconheiro de Minas Gerais com a porra das oferendas... 

tempos adocicados e nenhuma rede social para consolidar o status em seguidores. conquistou ouro e diamante e não pode reverter em K. um pirata sem ilha do tesouro.

um pirata que envelheceu e parou de mascar chiclete depois da gastrite se tornar crônica. dos milhares e milhares de seguidores que conquistou à vera, na pista, hoje ele evita contar o número de familiares para não ficar bolado de nenhum sobrinho o seguir.

nem sua própria filha.

privacidade, ela diz, de biquini e receita fit para seus números impressionantes.

minha menina.

Marquinho.

‘Guru Ganda, está chegando a hora da transmissão’.

o Subchefe estava tremendo.

a hora de conquistar tudo da forma mais estúpida que ele conseguiu articular para quebrar a internet com seu carisma das antigas.

aquele carisma que convencia no papo – e não no teclado - as pessoas a se tornarem o pior que podem ser.

e foi isso. não precisou de baleia nem chantagem nenhuma. convenceu no papo 86 derrotados como ele a se matarem por fama. a primeira Seita Suicida Digital da história. bem ali em Belo Horizonte. Orgulhosamente brasileira.

até uma cobertura ele havia conseguido para o Último Culto. um dos 86 não era bem um derrotado, apenas o milionário de uma família tradicional que passou a vida reprimindo a homossexualidade para se tornar um velho amargo e com medo de se matar sozinho naquela cobertura.

ou em outras palavras, ganha-ganha.

o milionário não estava lá para o Último Culto, inclusive. conheceu na seita mesmo um contador que sem querer casara com 3 filhos. estavam agora os dois pelados no Fasano fazendo planos de se mudar para Barcelona e lançar um instagram de cerâmicas com gastronomia de café-da-manhã.

mas para os outros 84, não tinha volta. o dono da cobertura gentil o suficiente para não atrapalhar os planos dos outros. e Pau Doce, o Ganda Guru, estava morando lá as duas últimas semanas.

havia vendido sua casa para contratar ghost influencers que tocariam a conta pós-vida da seita e dos seus melhores embaixadores.

(afinal não é porque estamos no campo do suicídio em massa que todos possuem o que é necessário para manter uma influência do além).

Morango o Ganda Guru também contratou um hacker russo pelo 4chan para um freela de acessoria de imprensa na deepweb. eram esperados mais de 200 sádicos da pior espécie humana na plateia aquele domingo. todos prontos para repostar à grande mídia mundial o conteúdo incendiário.

‘Ganda Subchefe, conferiu a marca d’água com o Insta da Seita e dos Escolhidos? E o disclaimer de que não somos do Estado Islâmico, não importa o que eles digam?’

até hoje não sabe dizer se o pânico que viu nos olhos do Subchefe foi porque o danadinho esqueceu do disclaimer, ou se foi porque naquele exato instante a equipe de Operações Especiais da Polícia mineira invadiu a cobertura para dar início a um merdancê de proporções quase parecidas com o que havia sido originalmente planejado.

por ironia do destino, 6 minutos antes de entrarem no ar.

o João Paulo, ex Guru Ganda, ex Pau Doce, ex Morango, só foi saber o que aconteceu no hospital, repousando algemado à maca com um tiro na clavícula.

aparentemente o idiota maconheiro do Marquinho fumou um boldo bom, não resistiu à larica e caiu dentro dos cupcakes, confiando que conseguiria separar o veneno do verme.

a tia do Marquinho recebeu a ligação do Subchefe e foi ao barraco do sobrinho ver qual foi, descobrindo o mesmo com a cara atropelada pelo creme de cianureto.

ela então chamou a polícia e deu o endereço da entrega.

o que ninguém sabia é que outro dos 86 integrantes da Seita da Divindade Digital estava planejando uma transmissão solo, motivado por remorso em não ser um dos Escolhidos a ganhar um ghost influencer.

em seu golpe de marketing o rapaz de rosto oleoso e boné do FIFA 2019 puxaria uma pistola e descarregaria o pente nos integrantes da Seita antes de clamar fidelidade ao Estado Islâmico e explodir os próprios miolos.

após virar a câmera para o selfie, lógico.

mas com o suicídio involuntário do Marquinho e a polícia invadindo, o rapaz precisou se adiantar no atentado contra a sua própria seita suicida, e o que era para ser uma transmissão épica, se transformou num tiroteio com motivações incrivelmente borradas.

e agora ele era de novo João Paulo, Guru de Porra Nenhuma, Pau Mole naquela cama de hospital, com o ombro ardendo, aguardando o arrastado processo de cálculo dos anos de cadeia que seriam a ele oferecidos. bloqueado no Insta pela própria filha.

bloqueado pelo próprio Insta.

‘14k?’

foi a única pergunta que fez ao advogado.

14k. Seu Subchefe estava vivo, algemado a uma cama naquele mesmo hospital, e tinha mandado o advogado avisar ao seu Ganda Guru que a conta da Seita havia chegado a 14 mil seguidores antes de ser tirada do ar pelo Insta.

o Subchefe havia ultrapassado 5 mil na sua pessoal, também bloqueada.

Pau Doce, o Ganda Guru, só pode descansar a calvície no pequeno travesseiro de hospital e deixar a imaginação voar.

4 mortos. 5 contando o Marquinho. 6 feridos. 5k. 14k... não tinha como saber quantos seguidores alcançou na sua conta pessoal. não sabia se poderia manter uma atividade digital saudável da prisão.

mas tinha quase certeza de que o contrato com o ghost influencer previa casos de sobrevida e encarceramento.

foi a segunda pergunta que fez ao advogado, antes de adormecer para sonhar com campos de morango.

 

h.i.

lisboa, 2017