2017 o ano da tartaruga (Opinião, Retrospectiva, idioma Brasileiro) / by Hugo Inglez

acho que uma das corridas mais antigas da história. a lição parece simples, a lebre vai dar um baile seja a lebre vença a corrida pensa muito não. mas você não consegue ter uma visão afastada acelerando nos 100 metros da sua vida.

o Alejo trouxe esse mini globo de viagem. um dos primeiros presentes que recebi da Maca foinão essa mini lebre e mini tartaruga (também veio um mini tamanduá que reside em cima da minha porta). deixando tudo mini, consegui ter uma visão afastada da parada toda. 2016 foi esse por aqui.

lebre e tartaruga orbitam o planeta para uma corrida em círculo. nunca vi alguém dizer quantas voltas dura, então imagino que seja até o fim dos tempos (quando você morre e as pessoas fazem um velório e se surpreendem que você podia morrer e sentem saudades).

a lebre tão rápido o tempo inteiro, que numa pista circular termina tonta de girar. tão rápido o tempo inteiro que sua presença se torna um vulto em volta do planeta, descolado como um anel de Saturno, ao mesmo tempo em todo lugar e de esquina nenhuma.

tão rápido e acostumada a ganhar volta por volta que a própria vitória desmotiva e o único sentido em permanecer rápido é o medo do que pode acontecer se a velocidade diminuir. afinal quem pode dizer onde está aquela maldita tartaruga?

a tartaruga olhou para o lado e pensou que porra de lebre é essa parada do meu lado?, toda programada no redbull me olhando rocky marciano de torto atrás de uma linha branca de cal, onde há um segundo só havia grama verdinha para se tomar sol. 

a tartaruga perguntou a mesma questão que agora me estala toda vez que eu penso nessa história - quem seria tão idiota de botar uma tartaruga para correr contra a porra de uma lebre? não existe aquele fato aleatório que transforma tudo num ensinamento moral, tipo o sapo e o escorpião. também não dá para rodar apostas decentes numa disputa tão desequilibrada, quem vai botar o seu na tartaruga?

só se a corrida não for sobre quem chega primeiro, a tartaruguinha pensou. afinal, ninguém marcou linha final ou número de voltas, e eu não to afim de começar a correr sem destino esperando alguém me avisar dos detalhes no meio do caminho. ainda mais contra uma lebre trabalhada no hipercalórico probiótico. 

a tartaruga nasceu com a casa nas costas, casco reforçado para mergulhar em todos os oceanos, barbatanas que servem também para um lowriding por terra. ela pode todo e qualquer lugar, e guardar nas costas esses espaços-tempo, um acúmulo consciente de lembranças - viver todas, sem pressa. guardar as melhores e piores no lugar mais próximo. em casa. nas costas. reforçando o teto contra as próximas tempestades. sempre vai haver uma próxima tempestade.

a tartaruga termina toda enrugada, corcunda com o peso do planeta e de todas as memórias acumuladas na bagagem. enquanto a lebre espalhou suas memórias por nuvens e, transante, dos seus filhotes nem tomou nota, a tartaruga garantiu a eternidade de sua obra e descendência no planeta. ela se lembra com paixão de cada uma de suas criações, afinal todos já viram o quanto amor uma tartaruga pode entregar para um crocs, uma criação duvidosa de outro alguém.

terminei o ano com umas idas a cachoeira com meu irmão Johnny, e no caminho passamos por mansões estelares no alto do Horto. sem sinal de vida por trás de nenhum muro. imagino uma lebre viajando, ocupada demais para ocupar seu próprio espaço. mansões de projeto de escritório de arquitetura, da primeira viga à última almofada, eterna falta de tempo e recheio.

terminei o ano com a festa do ano, banquete ostentação da Record com show dos Novos Baianos (uma resenha pra ser contada ao vivo, quem for próximo me pergunta). no palco, entre a banda e os quatro fantásticos, colocaram uma mesinha de boteco. madeira com toalha preta de cetim. um senhor de óculos escuros e chapéu preto, pequeno e encurvado, empunhou o microfone para recitar o poema de apresentação da banda. então ele sentou nessa mesinha e dali de literalmente dentro do palco assistiu a todo o show.

o Luiz Galvão é o poeta que te informou que besta é tu de não viver nesse mundo, se não há outro mundo, por que não viver? ele não mora numa das mansões do Horto e até onde eu soube estava passando perrengue para custear o tratamento de diabetes. tudo o que o Galvão tem é uma mesinha reservada no palco para assistir à sua obra sendo recitada pelo grupo mais relíquia de toda a música brasileira.

aí eu te pergunto, entre o dono de um palácio abandonado no Horto, e o Galvão dono de um palco iluminado, quem é a lebre, quem a tartaruga? no final, quem ganhou a corrida?

2016 a vida bateu forte. legal, só conheço vencedor e sobrevivente. crise é oportunidade o banco sorriu do seu cheque especial, ok crise é oportunidade de olhar para dentro e sem propaganda externa descobrir o que te faz feliz, porque o que faz feliz mesmo sempre vai ser simples e inofensivo para o resto do planeta. é onde a equação da nossa existência se acerta.

a real felicidade não custa porra nenhuma.

uma conversa especial com um certo alguém. um carinho da sua mão favorita. um trabalho honesto com pessoas que você admira. tempo de não fazer nada para ser atingido por uma grande inspiração. criar algo que te ultrapasse e crie palavras bonitas na boca de jovens que você sequer teve a chance de conhecer. 

reduzindo sua felicidade a esses poderosos diamantes, o caminho cheio de diamantes para todo mundo esculpir seus favoritos no tempo de uma vida. sem brigas, se ajudando, evoluindo conhecimento. sem o excesso cafona de versões menos afiadas da espécie, fanáticos por construir espaços vazios e se pautar pelo desperdício.

que em 2017 a gente continue a trocar nossas riquezas, doa a quem doer, pobre fique quem pobre de espírito for. que nosso mundo menos Saturno, onde não tem vida só aneis bonitos de pedras rápidas para a fotografia das sondas do nosso planeta azul e verde que foi moldado como um playground de tartarugas para a coleção de diamantes de tempo, não da terra.

o dono da Mansão viajando, preso à sua própria capacidade de fazer tudo ao mesmo tempo. o Poeta sentado à mesa, ouvindo sua obra nas vozes de uma geração, para a juventude de outra. ouvindo Mestres cantarem o fim da corrida, que ele sempre soube e por isso ali, pacífico e saudoso com o videogame zerado.

Acabou chorare / Ficou tudo lindo / De manhã cedinho.

vamos ficar bem. só conheço vencedor e sobrevivente. to dividindo vida com meus herois. agora vambora ser o melhor que precisamos ser para dar exemplo e obra às próximas gerações de tartaruguinhas.

foda-se a lebre.

h.i.