Memê o Presidente do Brasil / by Hugo Inglez

Sua linguagem corporal uma mistura de desconforto, deleite, nervosismo e convicção de que havia feito história. Para o bem e para o mal, havia acabado de se revelar a segunda personalidade mais importante do país, o articulador por trás do principal fenômeno político brasileiro desde a Lava-Jato, o candidato vira-lata Memê, líder absoluto das pesquisas de intenção de voto, batendo todos os recordes do falecido presidente Lula da Silva.

Tudo com uma receita da qual não podia sequer pleitear autoria. Foi uma visão recebida, quase uma predestinação. Só o que fez foi enxergar conexão e oportunidade na sucessão de acontecimentos históricos e esquizofrênicos que empurravam o país da lama ao caos.

O caos anterior à grande unificação nacional em torno de Memê, o candidato do povo.

"Começou como uma brincadeira sim, Sílvio, mas acredito que agora a campanha do Memê representa a esperança do povo brasileiro em um futuro melhor", respondeu meio surpreso com seu súbito tom estadista. Chegou para a entrevista pensando que aquilo seria um desastre.

Quer dizer, o mais próximo possível de um desastre, levando em conta que havia reinado novamente ao preterir o Bonner para conceder a primeira entrevista ao grande Sílvio Santos, em pessoa e timbre de voz.

Só essa escolha já havia angariado mais de uma centena de memes e 4 pontos no Datafolha para a campanha do carismático cãozinho Memê.

Continuasse ele pela sabatina mantendo o nível da primeira resposta, e não precisariam sequer de segundo turno contra o juiz Moro.

Não era tempo de divagar. O Sílvio queria saber da tal receita que deu origem à gloriosa campanha vira-lata.

Como todos acompanharam, os mandados de prisão já endereçavam dois terços do Congresso, e metade dos suplentes. A Polícia Federal agora batia ponto nos aeroportos com um contingente inédito, à espera dos fugitivos diários do expurgo político. Criativos como eram, os corruptos brasileiros agora aderiam à moda da escapada marítima, refugiado-style, pois com iates confiscados, restava alugar uma vaguinha em algum barco pesqueiro. Deixar os ternos com aroma de pescada e tainha.

O Brasil estava redefinindo o conceito de preso político, com todo o constrangimento e orgulho que isso gerava à nação.

O patriotismo se inflamava ainda mais pois, se política, social e economicamente o país ia de mal a pior das pernas, virtualmente havíamos acabado de ganhar a Terceira Guerra Memeal, dessa vez contra os poderosos americanos, que podiam entender de espionagem e bombas atômicas e dominação mundial, mas não tiveram a menor chance contra o rolo compressor brasileiro de memes.

O Brasil havia apresentado ao mundo um novo formato de imperialismo, utilizando seus dois recursos naturais inesgotáveis - humor e tosqueira, em formato hashtag nuclear.

Nessa hora Sílvio dispara sua inconfundível gargalhada. Ele sabe que no Império Mêmico Brasileiro é um deus, e suas pegadinhas uma religião. 

Por trás das câmeras, um produtor se emociona com os índices de audiência. Se Memê realmente existisse, poderia decretar a volta da monarquia naquele mesmo instante, que iriam em Petrópolis confiscar as coroas dos Orleans e Bragança.

Mas não. Memê iria ganhar era no voto, no joinha constituinte e democrático de cada brasileiro.

Vendo o Brasil derivando sem comando e ao mesmo tempo liderando o mundo virtual, a faísca que bastava foi chegar ao último capítulo da segunda temporada de Black Mirror, em que um meme virtual chamado Waldo se torna potência política de uma sociedade distópica.

Foi nesse momento que, como diz o jargão filosófico, "Bateu uma onda forte".

Mas o Sílvio ainda preso no Black Me... Black o que? Rá ráaaêê.

Mas a grande jogada, a grande jogada mesmo Sílvio, ele tenta retomar o foco para destrinchar o trunfo. A grande jogada foi fazer algo até então impensável na filosofia mêmica brasileira - a grande jogada foi pela primeira vez na história rechear o meme. Ancorar a zoera em conteúdo realmente sério e relevante. Essa foi a fase mais difícil, o diferencial, o cavalo de troia.

Um trabalho árduo de pesquisa e estudo e conexão com quem sabe das coisas, muita pergunta e ainda mais estudo, até construir um plano de governo decente, sem grandes paranauês, porém honesto e abraçando os principais anseios do povo. Um plano baseado nas reformas mais óbvias e gritantes para desarmar as engrenagens do sistema político-econômico que por séculos mantém o país no estágio evolutivo da eterna palhaçada.

Recheio pronto e abrigado num site, veio a parte fácil. Fotos de vira-lata no Google, Futura extrabold em amarelo, um nome populista de duas sílabas que remete ao grande orgulho da nação, e estava pronta a campanha mais revolucionária da democracia moderna brasileira.

Uma campanha sem partido, sem candidato, com honestidade e necessidades básicas envoltas em zoera virtual da melhor viralidade. Talvez a primeira campanha da história a representar fielmente a identidade de um povo.

Convencido e desarmado, Sílvio quase reluta em fazer a pergunta de um milhão de likes. Mas ele precisa, ele precisa perguntar, pois os milhões assistindo também querem saber: Como você espera materializar essa campanha? Afinal, não dá para um cachorro ser candidato no mundo real, muito menos a foto de um cachorro, muito menos a foto de um cachorro sem partido.

O que o Sílvio quer perguntar mesmo é, se agora que jornalistas independentes finalmente descobriram e revelaram a identidade por trás do fenômeno Memê, se ele vai se apresentar, se ele...

"Se eu vou assumir a campanha do Memê e me tornar candidato? Nem a porrada".

O anticlímax foi tamanho que feneceu o invencível sorriso do Sílvio. A equipe não aguentou e o exaspero foi captado pelo microfone cromado preso a seu peito. Mas como, mas... mas e agora? E o povo? E o Memê? Para onde vai tudo isso? Todo o esforço...

A deixa que ele precisava. Já esperava por esse momento. Precisava dizimar a esperança geral para propor sua ideia mais provocante e polêmica. Ele precisava de um silêncio para preceder o esporro.

"Eu não vou ser candidato por um motivo simples, Sílvio. Não posso. Nossa Constituição prevê no artigo 14 a idade mínima de 35 anos como condição de elegibilidade para Presidência da República. E como você sabe, o plano de governo do Memê é enfático no respeito à Constituição. Então eu estou curto 10 anos nessa condição, ou seja, mesmo que eu quisesse, não daria".

O silêncio no estúdio do SBT era sepulcral. Ninguém ousava dizer o que todos pensando em uníssono - "Dá o comando que a gente muda esse artigo da Constituição AGORA". 

Afinal, não é como se tivesse sobrado muita gente para se opor no Congresso.

Mas ele já tinha a solução planejada, e antes que alguém externasse a proposta de avacalhação constitucional, emendou, da pausa dramática:

"Essa limitação também impede o convite a uma liderança estudantil das escolas ocupadas, Sílvio, como eu pensei resolver esse problema, no início. A molecada é ainda mais nova do que eu. Então o que dá para fazer, e o que a campanha do Memê fará, com anúncio agora em rede nacional, se você me permite, é organizar um plebiscito entre todas as mais de 300 escolas ocupadas pelo país. Desse grande plebiscito democrático de jovens estudantes, vamos chegar ao nome de um professor que tenha mais de 35 anos.

A esse professor, representante de confiança da juventude brasileira, a mesma que produz memes e mantém o bom humor enquanto resiste bravamente pelo direito a uma educação de qualidade, a esse professor Sílvio, eu quero estender não só o convite, como todo o meu apelo e apoio para assumir o projeto de futuro existente na campanha do Memê.

Só assim, com um professor da rede pública escolhido por estudantes em luta, só assim eu acredito que essa grande jornada vai ter valido a pena, e quem sabe nós possamos criar um novo perfil de representante democrático para liderar nosso futuro.

Um professor público como presidente, Sílvio.

É tudo que o Memê espera para o Brasil em 2018."

H.I.