1 mês de pai imperfeição / by Hugo Inglez

lembro da mão macia da minha vó agarrando meus pés e dizendo que 'filho! seu pé ta gelado, vai botar uma meia'. eu botava meia e casaco e me protegia de qualquer corrente de vento e tomava remédio ao primeiro espirro.

minha saúde se tornou um vidro quebrável de acordo com a metereologia. eu treinava jiujitsu com o Buiú, um cara que tinha crescido na rua e que eu nunca vi ameaçar um atchim.

pensei nisso quando a veterinária avisou que a Z não poderia ir para a rua até ela completar Todas as doses de Todas as vacinas. mas como assim? ela veio da rua, eu tinha que meter ela numa bolha e fazer ela usar meias?

aí depois que ela se acostumasse ao novo mundo de colo eterno, eu devolveria para a rua e ai de mim para mostrar que a vida é o equilíbrio entre esses dois extremos de perrengue e conforto.

ela já chegou com medo de viver. eu não ensinaria medo da vida. só não sabia o quanto educar era doído. ignorar os pedidos de colo, cada vez menos desesperados, cada vez menos constantes, até que ela à frente na coleira, até que ela sem coleira em lugares fechados e ontem sem a guia pela rua das laranjeiras.

havia esquecido a coleira na casa de um amigo e queria comer um Orange Burguer altas horas, e quinta feira a Z já tinha deixado os vizinhos acordados até às 4 da manhã. então por que não?

outro dia fiquei rindo sentado com meu irmão no ponto de ônibus, ele desacostumado de Lisboa, aflito com as pessoas atravessando a rua fora do sinal. Voltou pro Rio reparando o quanto convivemos com vários riscos cotidianos. 

por isso que ao chegar na pracinha do hambúrguer, sem guia e sem ser atropelada, deixei ela comer um pedacinho caído de carne que ela achou no focinho, depois de mapear a área.

 Z de boa numa sessão Black Lounge

Z de boa numa sessão Black Lounge

a hora em que eu te conto que levo uma cachorrinha não totalmente vacinada pela rua sem coleira e deixo ela comer carne de hamburguer do chão, é provavelmente a hora em que você diz que eu to beirando o mau pai.

talvez. mas ninguém que encontra a Z na rua diz que há um mês ela era puro terror e pânico. entre conhecidos, desconhecidos, na rua, no ônibus, elevador, numa sala alheia, com som alto, música ao vivo, outros cachorros, luzes coloridas e na pracinha do hamburguer, a Z tá de boa.

se você me acha um mau pai, deveria ver me coração trincado quando levo ela para um local desconhecido e ignoro completamente o primeiro susto dela, o desespero até perceber que se continuar por perto, já basta para nada de mal acontecer.

as 3 horas e meia entrando e saindo do quarto até convencer ela de que a bolsa é tipo um colo com alças são bolinho, comparadas a ver ela de canto de olho interagindo com a Maca ou minha Madre e ter que ignorar, para ver se ela quebra o monopólio de confiança em mim e se conecta a outras pessoas.

a pior parte de amar é a educação, porque educação não tem a ver com amor, mas disciplina. e quando a lição se transmite pelo ignore, aí que dói mesmo e você passa a cagar se é um bom ou mau pai. você é o pai necessário que está ignorando a coisinha que você mais ama e tem responsabilidade.

você dá miolo de pão para enganar a fome porque acordou tarde e precisa enviar uns emails, mas quando percebeu que a única coisa no mundo que ela não comia era ração, batata doce e a ração se transforma no crocantinho do purê de batata doce. do mesmo jeito que madre misturava abóbora no arroz e feijão e dizia que 'nãaaaao, esse laranjinha não é nada, não muda o sabor...'

em um mês a Z já fez amigos, atendeu à diferentes reuniões e festas, andou de ônibus e metrô e sem coleira na rua, brincou de polícia e ladrão com um filhote de labrador e golden, cheirou o cu de um dálmata gigante e tomou um corre. caçando pombos quase derrubou uma moça surda. abriu um buraco no meio do meu colchão (que junto com as manchas dos cios da Juju, agora parece o colchão de um pervertido). subiu em todos os meus móveis conseguindo não quebrar nada.

antes ela era só terror, agora ela criança, e espero que até a última dose da última vacina ela permaneça saudável e ainda mais criança, e quem sabe confiando em outras pessoas, quem sabe sem manter os vizinhos acordados toda vez que eu saio à noite. quem sabe com vários amigos cães e gatos e já atravessando a rua sem coleira.

as pessoas começaram a perguntar qual a raça da Z. minha vontade é dizer que minha panqueca não tem raça, ela é a raça em pessoa. se ela é raçuda o suficiente para enfrentar o mundo sem precisar mais do meu colo, eu posso ser um temerário idiota, mas não vou oferecer colo para protegê-la de um mundo que ela decidiu enfrentar.

minha tarefa é ficar de longe. atento. angustiado. um passo atrás de tudo que pode acontecer, mas feliz de ver minha panqueca cada vez mais confiante à frente.

a pior parte de amar é não poder cuidar. to chegando à conclusão de que criar é cuidar cada vez menos, amando cada vez mais. queria ter compreendido isso antes, e talvez ter sido menos merda com meus pais na adolescência.

eles criaram um ferinha que prefere não ter medo das coisas. talvez o tipo de pessoa que uma cãozinha traumatizada precise.

h.i.