Rio é mundão e todo mundo irmão / by Hugo Inglez

Tomando patada desde que desembarquei. Apelidei carinhosamente de coice português.

- Olhes, não sou teu irmão – informou o policial.

- Não é para perguntares, é para escolheres – emendou a dona do restaurante.

- Grrrrrrr não temos esse papel não grrrrr não não grrrrrrrr – finalizou o cara da gráfica.

Achando que o Rio tinha me preparado para o mundão, me transformado num cara universal, fiquei meio cabreiro, será que tudo que desenvolvi foi apenas uma simpatia regional que não conecta além do condado?

Sabia exatamente como testar a teoria, e seria na mesma noite em que chegamos.

Os parentes foram jantar num restaurante onde Combo e Carol descobriram a sangria (vão voltar pro Rio criados no álcool, desculpa dona Ana e Jorgelita, eu não estava lá, foi culpa do Pedro aviso logo).

Futuro da Carol e Combo vai ser nesse esquema.

Futuro da Carol e Combo vai ser nesse esquema.

Eu estava sem fome, entalado para descobrir os caminhos sociais desse lugar, então parti sozinho em missão de busca, ver se encontrava minha gente, o tipo que tenho certeza que existe em cada cantinho de mundo.

Sabia que o rumo certo estaria num desvio pintado de verde.

Não deu outra.

- Aqui em Matosinhos não existe isso – o primeiro camarada já cortou a onda.

- Até existe, mas precisas ter os contatos – a menina no parque recuperou a esperança.

- Não vais conseguir esses contatos – a amiga dela devolveu. Afinal uma quarta à noite de nada acontecendo, e eu estrangeiro recém caído de paraquedas.

Mas quando ela falou que eu não ia conseguir os canais, tomei no pessoal.

Ah se não vou descolar essa porra. A praia de Matosinhos parece bastante com a minha querida praia da Barra. Vou caminhar pelo calçadão até identificar um bonde de iguais.

Não demorou muito.

Os três me receberam com aquela simpatia que bate mais dourada que o pote de ouro no fim do arco-íris. Em 5 minutos já estava preparando um enquanto trocávamos ideia sobre Matosinhos, Porto e o MOF, que esse ano completa década de aniversário.

Nenhum se incomodou quando chamei de “irmão”. Pelo contrário, a ideia fluiu tanto que me convidaram para o aniversário de um amigo no bar em frente.

- Podes pedir, o que quiseres, é sério, hoje é por conta nossa. Uma cerveja pro nosso irmão do Rio, por favor.

Em 3 superbocks eu estava em casa. Finalmente em casa, degustando pólen numa roda com os novos parentes, conversando sobre a viagem, reunindo contatos pros próximos destinos, convidando todo mundo pro Rio e ouvindo um som em frente à praia.

Foi aí que bateu, e decidi completar as primeira 24 horas em grande estilo.

Varei a madrugada na festa, cantei parabéns, comi bolo, peguei um tijolinho que no Rio custaria um aluguel, mas aqui saiu por 30 euros. Cheguei em casa, bebi um gim maravilhoso que a Verinha preparou, mais vinho, preguei um discurso inflamado pros meus parentes de Novecinco, desci para conversar com o Seu Paiva, porteiro que me salvou algumas sedas (aqui chamam de mortalha).

Dormi nada, acordei cedo para cair dentro da fotografia de rua - arquitetura pra todo lado, texturas, azulejos, ruas abertas, velhinhos bibelô, cachorros levando gente para passear. Almocei marmotinhas, me perdi da galera, rodei tudo fotografando, fui assistir ao pôr do sol - que aqui rola depois das 9 da noite, fiquei amigo da turma da capoeira, voltei pra casa, dobrei barquinhos de cartolina e fotografei a minha peça para a expo, filmei o Combo pintando uma covardia em papel, virei a madrugada editando as fotos, fiz a encomenda com o Fernando - um dos caras que mais entende de fotografia que já conheci (e também irmão) -, voltei, tomei banho e apaguei durante umas 8 horas.

Afinal as primeiras 24 já haviam atravessado para 48.

Marmotinhas à moda oroboro.

Marmotinhas à moda oroboro.

Acordei para voltar a malhar no mesmo inox em que fazia barra na praia da Barra.

Os parentes chegaram já de noite do rolé em busca de material, que se transformou num passeio turístico de dar inveja.

E quer saber? Já todo mundo em casa. Bicho soltisse carioca. Ainda dando vários moles (ontem comprei uma sacola plástica que custou tanto quanto o frango que vinha dentro). Reaprendendo a contar moedas ao invés de perdê-las. Divertindo com diferenças culturais como a incapacidade de se fazer baliza por aqui.

E estendendo a rede.

Achei que éramos malucos de gastar essa grana para vir tentar a sorte nessa terra distante, mas agora percebo que temos um trunfo – a terra pode ser distante, mas nunca vai ser estranha.

Nunquinha mesmo.

Somos de uma babilônia com riquíssima e esquizofrênica fauna cultural, e não temos qualquer preconceito de fronteira. Aqui estamos em Barra da Tijuca, Tijuca, Arpoador e Duque de Caxias. Entrosamento de Zone Oeste a Norte a Sul, comunhão de ratarias adquiridas, de esperanças e esforços e perrengues.

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Rio de Janeiro é mundão, quando você o vive por completo, sem preconceitos. Quanto mais você estende família nesse lugar, mais encontra parentes em qualquer outro.

Sabia que nossa família era grande. Começando a desconfiar que gigante.

Semana já começou, vai ter entrevista virado, capa de disco, finalmente vamos entrar no ateliê, e tão dizendo que um Quartin. Já tem colab de Rique com Combo, Hec está tramando uns paranauês, e to sentindo o Pedro inquieto/instigado, pegou umas peças gigantes, vem coisa aí.

Hoje o Novecinco completou 3 anos, próxima resenha é sobre o final de semana de comemoração.

Vou comprar bolo e 3 velinhas. Sem sacola plástica.

H.I.