Diário do viajante crônico - Capítulo 2 - Vale do Capão / by Hugo Inglez

Visão da janela do quarto na casa do Beja

Escrever por memória distante é gostoso, te retorna à viagem, só deixando o que ficou de relevante, o que se agarrou à alma.

O endereço da casa do Beja é Vale do Capão - Casa do Beja. É assim que você chega. Escondida numa estradinha de terra, com um jardim de vasos de botas de trilha aposentadas, a casa do Beja é toda temperada no carinho.

Entendeu o trocadilho?

Ele mora lá com a esposa carioca (e vascaína), os filhos Cadu e Caio. Queria ter conhecido eles, mas a Marisa estava no fim da gravidez do Caio, visitando a família no Rio.

O Beja ficou para organizar o cronograma lotado do Chapada Trip, e jogar Fifa nos intervalos. Ele só joga com o Real Madrid e se mantém nas primeiras divisões dos torneios mundiais online. Ficou insistindo por uma partida, mas não sou bobo de aceitar.

Estava realmente feliz de voltar para lá do Pati. Tomar o primeiro banho de chuveiro e sabonete de 2015, pernoitar os ossos moídos no quartinho aconchegante que ele arrumou pra gente e buscar uma pousada no dia seguinte com a Bruca sem correria.

Mas o Beja estava de partida para uma trilha no dia seguinte, organizando hotel 5 estrelas em mochilas para o novo grupo, e perguntou se não gostaríamos de ficar por lá enquanto ele estivesse na trilha. 

Sério. Era só trancar tudo direitinho, deixar a chave pro amigo dele que gostava de ir lá jogar Playstation, regar as plantas e cuidar dos cachorros da casa, o Revolt e Revoltinho, uma dupla atentada e carinhosa, com nomes geniais e artes nas paredes.

E depois de várias divagações sobre abandonar a babilônia para ir morar na Chapada, eu e Bruca realmente experimentamos morar no Vale do Capão. Por três dias, mas moramos. Três gloriosos dias.

Na primeira manhã eu já tinha perdido o Revolt. Voltamos do café e ele fugido para um rolé. Fui achar o parente quase no centrinho, e passei a meia hora seguinte caminhando 10 metros atrás enquanto ele me levava para um passeio pela cidade.

Até o cachorro do Beja é guia.

Foi até o circo, voltou, entrou por ruazinhas de terra, vasculhou sacos de lixo, riu da minha cara para quem passava, sempre mantendo a distância segura.

Só voltou pra casa com a Bruca.

Suave depois de levar o tio pro rolé.

E como é morar no Capão por 3 dias? É como pretendo minha aposentadoria produtiva. Cuidar do jardim, dos cachorros, acordar cedo sem despertador para comer um café da manhã em porção de trilheiro.

Deus abençoe a porção de trilheiro.

É andar sem pressa dando bom dia para quem passa. E boa tarde. E boa noite para as sombras por trás das lanternas. Ninguém desconhecido demais para um aceno. Ninguém invisível.

A pracinha um exemplo de ocupação cultural espontânea. Era pegar uma cerveja e esperar pela próxima intervenção no espaço. Show de reagge, bandas de forró, feirinha, circo, roda de capoeira, encontro xamânico e por aí vai.

Grupos de mochileiros descansavam tocando violão, gente estranha e linda e exótica carregando experiência de vida em pesadas mochilas. A criançada subindo, descendo, pulando, caindo de moto, se quebrando, correndo de cachorro, correndo com cachorro, correndo das mães, tropeçando no cachorro, todas as maravilhosas merdanças que uma criança inventa quando não plugada em um ipad. 

Os moradores locais assistiam ao movimento das janelas, ou exibindo produtos artesanais de acabamento impressionante. Falo exibindo porque é o mesmo verbo usado pra arte. A manufatura artesanal, a destreza e dedicação no método, o preço justo e principalmente o orgulho de quem estava por trás da obra. De vestuário a bijuterias a docinhos - uma pequena cidade de artistas. 

Uma cigana maravilhosa e doidinha que estava lá para o Festival Ressonar.

A arte perdida da carona.

Murais do Salomão Zalcbergas por toda a cidade, um prazer ver o cara em ação. Pode chamar de artista urbano?

Reencontramos os Sem Destino, um grupo com quem cruzamos na trilha do Pati e que tinha o objetivo específico de se manter perdido até dar na telha. Foi tipo reencontrar pequenos herois da resistência roots.

A noite acendia em luzinhas e lanternas e lua. Lindo. Nós buscávamos casacos e íamos na pizzaria que não precisa de nome, assim como a casa do Beja não precisa de endereço.

Uma só receita de pizza vegetariana. Meu irmão não entende até agora eu voltar botando mel com pimenta em tudo salgado que como. Ainda tinha Heineken de 600. Definitivamente quero me aposentar num lugar no meio do mato onde tenha garrafão de Heineken.

Antes do Capão eu achava que era pedir demais.

A turminha da pastelaria, com destaque pro menó da esquerda, um gênio que só parava quando a mãe gritava que o pastel tinha chegado.

Depois de dois dias de lezera e engorda, decidimos fazer a trilha da Cachoeira da Fumaça. Assim que começamos os músculos avisaram que ok, mas aquela seria a última. Quando chegamos, o fluxo seco. Apenas vapor de água no vento. Fumaça. Mesmo assim, a natureza caprichou na arquitetura daquele lugar. Não dá para escapar.

Na descida, conhecemos um artista com a mesma ideia de aposentadoria que eu. O coroa tem um nome que eu sempre esqueço antes de anotar. Comprou uma casinha no pé da Fumaça, que usa de ateliê e lojinha para sua produção.

Não preciso dizer o quanto de bem com a vida ele era. Uma hora o nome volta à cabeça ou eu acho o cartão dele.

Meu plano de aposentadoria.

livre

Escultura ou instalação? e o pecado de não lembrar o nome do artista.

Decidimos testar a arte perdida da carona, e funcionou melhor do que chamar os mototaxis que passavam. Uma caçamba depois estávamos de volta ao Capão, e decidimos trocar as passagens e transformar aquela na nossa última tarde de Capão.

Depois de tanta trilha e cachoeira, precisávamos de um pouco de mar.

Quando estávamos no carro saindo do Capão cruzamos com o Beja voltando da trilha. Foi uma despedida rápida demais pro tamanho da minha gratidão. Ele nos deu casa pelo simples fato de não lhe custar nada. Botou confiança onde não precisava e ganhou reciprocidade eterna.

Quando voltar para a Chapada, vai ser cheio de presentes. E vou aceitar a partida de Fifa.

Terminamos nossa estadia na Terra Mágica sentados no chão do terminalzinho de Lençóis, esperando o ônibus ao som de um artista espontâneo de bar que pegou o violão de um mochileiro para cantar Sidney Magal com toda a sua voz grave e bêbada.

A despedida da Chapada foi ao coro de "Aaaaaa eu te amo, AAAAAA eu te amo meu amor!"

Nada mais adequado.

Partimos para o norte. Para onde o mar encontra o rio. 

H.I.