Pequenas novas ondas / by Hugo Inglez

Estava ficando sem opções, já não saía mais, por causa do trabalho e porque estava chato mesmo. Quando suas amigas convenciam uma exceção, ela não conseguia dançar direito, ficar bêbada direito, muito menos encontrar alguém para um romance direito de uma noite.

Os carinhas só queriam sexo de uma noite, e ela não se importava em botar uma transa na equação, mas exigia o serviço completo, com flerte gostoso, amizade relâmpago no táxi, intimidade de euforia, uma leitura diligente do manual (ou preliminares decentes), camisinha sem papinho e, se possível, um orgasmo no final.

Nem precisava ser Aquela gozada, ou manter conchinha pela madrugada. Ela era uma mulher pragmática. Só queria adormecer sabendo que o cara do lado se importou com o prazer de todo mundo. Ela queria aquela ingenuidade de achar que dá para apaixonar o outro em algumas horas. Nem precisava dizer que ligava mais tarde. Uma sarração carinhosa pela manhã, um café e companhia até o ponto de ônibus já era muito mais do que estava rolando na pista.

Quando foi entrar no carro do seu date, o amigo que o acompanhava passou para o banco de trás. Pequenas coisas óbvias assim, sabe?

Estavam a caminho da Joatinga, um primeiro encontro estratégico que ela sempre sugeria para flertes surgidos digitalmente. Ela adorava a praia lá, mas não tinha carro, e suas amigas moravam no Itanhangá, ou seja, também nunca rolava carona. E chegar na praia da Joatinga de ônibus ela achava meio perrengue.

No caminho, ela tinha a chance de conhecer o cara, já que não confiava em personalidades digitadas. Se não conectasse, podia fugir para as amigas e aproveitar a praia. Aparentemente ele tinha pensado o mesmo, ao trazer o amigo.

Ela gostou disso, sem expectativas costuma fluir. Estava tocando Sublime, e um aroma gostoso no carro. Duplo joinha. Ficou esperando alguém apresentar, mas o que aconteceu foi do rapaz pesar o acelerador, o que derrubou a primeira peça de um curioso sistema de alarmes em dominó. 

Não confiava mais em palavras. As pessoas dizem como se pudessem apagar o histórico depois. Então ela trocava ideia meio no automático enquanto ia buscar sinais reais de personalidade. No trânsito eles costumam saltar, e daquela vez não foi diferente.

Quem dirige acelerado numa manhã de domingo, chapado ouvindo Sublime no carro? O amigo percebeu o desconforto dela no terceiro corte de faixas. 

- Lowrider, véio. - disse do banco de trás.

Vaidade, garotisse, um certo descaso com a vida alheia e bastante falta de educação, acontecendo simultaneamente a um papo simpático e inofensivo sobre viagens de ano novo. 

Foi o amigo no banco de trás que insistiu prudência mais um pouco, tranquilizou de que o cara era piloto de fuga e então sugeriu matar a bagana para distrair. Foi o amigo que perguntou para onde ela viajou no ano novo, e a fez contar do seu filho viralatinha e do trabalho que finalmente começava a dar certo, e percebeu que o piercing no nariz dela estava um pouco inflamado. Do banco de trás foi ele que sorriu de graça e olhou para os lábios dela quando ela sorriu de volta, e então a encarou nos olhos e perguntou de onde ela e seu camarada se conheciam mesmo?

Muito mais do que tá rolando na pista de alta velocidade.

Quando percebeu, estava avaliando qual de suas amigas poderia se interessar no seu date. A conexão com o outro bateu tão inesperada que o rapaz no volante percebeu e acelerou ainda mais para chegar logo e desfazer o contexto.

Já era. Se chegasse viva, iria esperar os dois irem surfar para leiloar seu par entre as amigas. Dane-se. Seu sistema de pequenos sinais era sutil mas certeiro, e ela estava sem paciência para negar o poder de fazer exatamente o que quisesse.

Enquanto era negociado, o motorista conversava com seu amigo na água, sobre como sua menina era gata e gostosa e também tinha umas amigas muito gatas. Insistia para o amigo escolher uma e garantir o almoço duplo depois da praia.

O amigo permaneceu calado. Sabia que o mundo era das mulheres agora, e ele tinha tanta ingerência sobre elas quanto sobre o mar. Ficou sentado na prancha, esperando as novas ondas. Era tudo o que podia fazer.  

H.I.