Diário do viajante crônico - Cap.1 - Vale do Pati . Bahia / by Hugo Inglez

*texto e fotos por Hugo Inglez **

Assim como o mundo, esse diário começa na Bahia.

Mais especificamente em São Cristóvão, uma comunidade bem ao lado do aeroporto de Salvador. Lá, eu, Bruca e o bebê elefante que ela batizou de Mochila pernoitamos na casa do Ixluts, um irmão de graffiti que eu ainda não conhecia, mas nos recebeu como família, dando o tom da hospitalidade baiana que nos aconchegou por toda a viagem.

Acordamos cedo para o primeiro ônibus de nossa odisseia de estradas. São Cristóvão - Rodoviária de Salvador - Palmeiras - Vale do Capão, com direito a uma van quebrada no meio do mosquital do inferno em Palmeiras.

Mas a estrada pro Pati era outra história.

O Vale do Pati fica a boa hora e meia do Capão, uma estrada de terra que passa pela microcidade de Guiné, afastando-se da presença de civilização em direção a um cinturão de pedra que reflete a cor do céu.

O respeito pelo lugar é imediato.

Esse é o nosso time: Karyna, Raquel e Vivi no teto, Renato, André e Ricardo camuflados na paisagem. Viemos o caminho ouvindo The Doors no senhor sistema de som do Batmóvel do Rafa. Nosso motorista equalizava música por música no painel touch screen, enquanto desviava dos buracos com a outra mão.

A primeira trilha do Pati não é para sedentários. Aliás, a viagem inteira é uma batalha de resistência para a qual eu não poderia estar pior preparado.

Mesmo com longas paradas, as deslumbrantes paisagens, mergulho e piquenique no Rio Preto, foi brabo. Se você for para o Pati, recomendo pelo menos 1 mês de preparação física, ou então faz igual a mim e chora. Meus joelhos chegaram mastigados no 1o ponto de apoio - a casa do Aguinaldo, um dos filhos da Dona Raquel. 

Bruca relaxando no Rio Preto.

Platô do Pati

O Del é metade guia, metade mito. Nativo do Pati, ele tem umas como tentar montar um burro perdido que encontramos no mirante, a alguns metros de uma desagradável queda.

Na simpática casa de paredes verdes à beira do rio, outro guia esperava nosso grupo. O nome dele era Eduardo.

- Mas podem me chamar de Cabeça. Algum de vocês joga xadrez?

O Cabeça preparou um banquete para a ceia de ano novo, com opções vegetarianas e o carai. Acontece que além de jogar xadrez, ele também é formado em gastronomia, ou seja, fomos presenteados com um guia-chef. O 

Banho, jantar e uma garrafa de vinho para ressuscitar, e lá fomos para a Casa da Dona Raquel, onde estava rolando festa de reveillon com banda de forró pé-de-serra dos nativos do Pati, ao pé de um cânion cuja silhueta recortava a metade inferior do céu mais limpo que eu já vi.

Todas as estrelas presentes.

 O Aguinaldo é aquele ali no pandeiro.

O Aguinaldo é aquele ali no pandeiro.

Haviam umas 150 pessoas ali, de todos os lugares e sotaques e belezas únicas, conversando no mesmo idioma de comunhão, bebendo iguarias como o licor de jabuticaba do Pati, e se comportando como velhos conhecidos agraciados pela reunião.

Quando bateu a meia noite, fogos subiram como estalinhos no chão azul de céu. O novo ano chegou lindo como eu jamais conseguiria pegar na câmera, então fiquei abraçado com a Bruca e aproveitei a sensação de ser pleno.

Na manhã seguinte, trabalhamos bastante na subida do Morro do Castelo. Menos a Bruca, que ficou no riozinho meditando e recuperando os músculos castigados.

Eu só queria ter ficado com ela, pelo menos até à entrada da Gruta do Castelo. Quando parei para morrer e fotografar, percebi um pequeno vulto subindo pela trilha do perrengue como se fosse moleza.

Para o pequeno Jack, vulgo Bicho Solto, a trilha era brincadeira mesmo. Na sua oitava ida ao Pati, em apenas 1 ano e meio de vida, levou 15 segundos para o dono do morro subir os meus últimos 40 minutos. Chegou com o linguão pra fora, recebeu os suspiros das donzelas, marcou o território para os camaradas, recebeu carinho de todo mundo e decidiu posar pro fotógrafo como o campeão do videogame.

Esse precisa de instagram.

Quem disse que a natureza não faz graffiti?

Raquelzinha guerreirona no alto do Castelo.

Alto do Morro do Castelo (detalhe pra cachoeira lá embaixo).

O último dia foi para arrancar de vez o que restava de couro nos pulmões. Emendamos as trilhas do Cachoeirão por cima e da Cachoeira dos Funis.

Trilha do Cachoeirão.

Cabeça, Brunno e Jesus, quando conhecemos os profetas na aconchegante toca da caveirinha.

Cachoeirão por cima.

Pontinhos de pessoas na trilha do Cachoeirão por baixo.

Foto da Bruca

Jesus era o Bruce Lee da cachoeira. Be like stone.

Ele era o Capitão Planeta.

Projeto do Cabeça de unir xadrez e cachoeiras da Chapada. Honraria de colaborar.

Torci meu pé na ida para o Cachoeirão, e quando esfriou, precisei recorrer à minha farmácia. Acabei tomando a melhor decisão da viagem.  

Cura Facada, Sela Cú (ou Remela de Cachorro), Serralheira. Cavalo do Cão. Mocó. O Cabeça ia à frente ensinando os nomes da fauna e flora, e os nomes explicavam o resto.

Nosso grupo havia se separado. Quem tinha perna, foi na frente garantir o Funis. Quando os retardatários chegamos para a trilha, o sol já se escondia por trás das rochas.

Descemos a trilha que segue pelo rio no estilo bicho solto. O Jack se orgulharia. Eu estava tão confiante que atravessava trechos de pedra lisa molhada com a câmera na mão. De alguma forma eu sabia que não ia afogar o material todo da viagem, assim como sabia que Jesus nunca iria cair da ponta de pedra no Cachoeirão.

A natureza tem gosto em garantir histórias bonitas.

Partimos só eu e Cabeça para a última cachoeira. Deixamos a Raquel e minha câmera na queda anterior, aproveitando as últimas artes do sol, que pintava nas paredes de pedra uma luminosidade avermelhada, fazendo-as parecer folheadas a cobre.

No céu, a lua já se alongava para o turno da noite. A imagem era hipnotizante, mas significava que estávamos sem tempo.

Deu tempo de mergulhar, e de me emocionar embaixo da cachoeira. Deu tempo de energizar todos os cristais que eu levava, e assistir ao brilho das montanhas de cobre. Deu tempo de dar boa noite para a lua e escancarar de vez todos os canais de conexão.

E deu tempo de conhecer um pouco da história do Cabeça. A maior angústia do meu amigo jogador de xadrez era trazer a filha pequena para morar no Capão.

- Salvador não é lugar para uma criança crescer.

E não é mesmo. Nem Rio de Janeiro, ou São Paulo. Nenhuma cidade grande é lugar, quando se tem o Capão, e o Pati. Aquela terra cria pessoas melhores, mais humanas, ligadas em frequências futuras de coexistência.

Dói escrever isso e perceber que já estou perdendo para o Rio o Hugo melhor que conheci naquela terra. Espero que o Cabeça consiga levar a filha dele para morar lá.

- Chega aí, vamos subir de volta pela trilha roots.

- Trilha roots?

E lá estávamos escalando a Cachoeira dos Funis pelas pedras da própria cachoeira, a poderosa queda d’água trovejando ao lado.

- Então, viu a pegada?

- To vendo só pedra lisa – respondi, lá pelos 15 metros de escalada.

- Então...

 O pontinho branco é a Igrejinha.

O pontinho branco é a Igrejinha.

Nosso 2o ponto de apoio foi onde a mágica aconteceu. A Igrejinha é uma vila com não mais que dez famílias, quase na base do costão do platô, ao fim de uma simpática trilha que desce um morro e é chamada de Ruazinha.

No topo do morrinho fica o cemitério, e quando voltamos do Funis, não é que tinha um burro no cemitério? 

- Véio, tem um burro no cemitério! - ouvi o Ricardo de longe. Foi o único que parou para me esperar (é lógico que eu ia fotografar). O resto do grupo seguiu para a Igrejinha.

A companhia do Ricardo parecia mais do que o coleguismo habitual do baiano. Meu amigo estava esperto, atento, até meio ansioso. Parecia ter ficado para me guardar de algo.

Só depois fui entender que quando um filho de Ogum encontra um animal de quatro patas no cemitério à noite no meio da mata, isso significa algo.

O mais estranho é que a foto não rolou. Acendi a lanterna e pareceu um insulto. Apaguei a lanterna. Um primeiro clique para setar a luz natural e o animal já começou a bater as patas no chão.

Meu senso de interferência fotográfica apitou. Hora de partir. Cinquenta metros abaixo:

- Pera aí Ricardo, não to achando minha lanterna. Pega aí minha mochila que eu vou voltar pra procurar.

A lanterna não estava no cemitério.

- Confere aí na mochila bro, que eu sou sequelado! – gritei de longe.

Não estava na mochila.

Quando o Ricardo chegou de volta ao cemitério para me ajudar, percebeu outra coisa - o burro também não estava mais lá.

Vocês podem imaginar o bem estar do negão nessa hora.

- Deixa aí véio, se ele reclamou tua lanterna, deixe estar.

Mas eu tinha acabado de ligar a porra da lanterna naquele exato metro quadrado, e nenhum de nós ouviu barulho de nada caindo no chão.

- Véio, na boa, vamos voltar. Deixa essa porra aí, é só uma lanterna. Eu vi tu ligando, não caiu, não tá em lugar nenhum, a gente procurou. A porra do burro também desapareceu. Vamos voltar, o que a mata reclama é dela, olha onde tu tá. 

Não vou contar o final do mistério.

O único registro do burro no cemitério.

Quando finalmente chegamos na Igrejinha, encontrei a Bruquinha com cara inchada de tanto chorar, os olhinhos quase sumidos por trás das bochechas, fechadinhos e felizes, incrivelmente brilhantes. As conexões dela também haviam se aberto, e a antena da Bruca é daquelas de telescópio espacial.

Timing perfeito.

Decidimos nos isolar, e fomos conhecer a capela que batiza o lugar.

Entrei na primeira igreja verdadeiramente cristã de toda a minha formação católica. Imagens desbotadas de santos, protegidas com plástico e penduradas nas paredes. Um altar com imagens simples, esculpidas em madeira. Cristais e pedras e flores e singelas oferendas espalhadas pelo altar. Uma mesinha central de madeira, sem cadeira, com apenas uma vela acesa e uma caixa grande de fósforos.

Não vi ouro. Vitrais. Não vi confessório, genuflexório. nem liturgia para seguir. Não encontrei padre.

Ali só havia presença.

Sentei com a Bruca ao lado direito da porta, a dois palmos da Lua. Estávamos cobertos por uma manta e felizes de verdade.

- Se você olhar fixamente para a Lua, ela fica cheia – atentou a Bruca para a crescente que em dois dias completaria o círculo perfeito.

Só que se eu olhasse para a Lua, ela me puxava. Atraía não só a mim, mas também as nuvens que passavam rapidamente em coluna. As nuvens tentavam agarrar a Lua, como um amor impossível que se esfumaça ao menor toque.

Isso acontecia na metade esquerda do céu.

Na metade direita, céu limpo, nenhuma nuvem, nada além de estrelas, as brilhantes guardiãs do Pati.

A divisão do céu era exata, um meridiano que cortava a capela bem onde estávamos. A Bruca era lua e nuvens, eu céu e estrelas. A experiência teve impactos permanentes em mim, entendi coisas ali, e avancei um passo na direção da pessoa que eu quero ser.

Havia completado a trilha que eu mais buscava no Pati.

Na fogueira acesa mais à nossa frente, sotaque baiano levava despretensioso no violão um repertório de mpb e clássicos do rock.

Quando todos foram formir, eu e Bruca ficamos para um good night com o Cabeça na fogueira.

Assistimos ao Cabeça elaborar pirotecnias na fogueira e contar histórias de resgates épicos e batalhas contra incêndios no Pati.

Esse senhor me encarava curioso da fogueira.

Logo antes de irmos dormir, um gato se uniu à roda, e deixamos o fogo em sua companhia.

Depois de 3 dias e mais de 30 quilômetros trilhados, meu despertador tocou às 4:20 em ponto, e levantei novo para fotografar o nascer do sol. Ganhei uma estrela cadente de prêmio.

Antes de enfrentarmos a trilha de volta, fizemos mais amigos.

O Riquelme é mestre em jiujistu e pilota uma Harley envenenada. Um cara casca grossa que comanda o clube de motoqueiros da Igrejinha.

Coloquei a câmera na mão da garotada para eles clicarem umas fotos minhas e da Bruca, já que não sou bom de selfie.

Alonguei para a trilha de retorno ao Capão com ninguém mais ninguém menos que Jesus, o onipresente.

Foto do Riquelme.

Foto do Raylan.

Bruca se tornou a madrinha do clube de motoqueiros.

O respeito conquistado com os motoqueiros teve seu custo. A Bruca documentou meu perrengue em resistir ao jiujistu afiado do Riquelme.

O que mais me impressionou na trilha de volta foi o saudosismo imediato, a cada passo dado. Engatei um ritmo feroz de caminhada para evitar olhar para trás.

Morro do Castelo. Não olha pra trás.

As pequenas artes secretas e texturas do nosso mergulho no Riachão, um poção de água geladíssima e revigorante.

Obrigado Ricardo, Del, Raquel, Vivi, Cabeça, Renato, Karyna e André. Não poderia imaginar um grupo mais exótico e afiado. E obrigado Bruquinha, minha comparsa de todos os caminhos.

Na próxima eu conto sobre breve morada na casa do Beja, no Capão. 

Se você quer viajar para a Chapada com tudo que tem direito e mais um pouco, sugiro fechar com a Chapada Trip, um dos melhores serviços turísticos que eu já contratei, negócio fino mesmo, personalizado. Fez a diferença. 

Manda um inbox pro Beja, fala que me conhece (se você chegou até aqui, já me conhece mais do que muita gente). E quando chegar na Igrejinha, senta ao lado direito da porta, e tenta conectar com a energia que a gente deixou por lá.

Tenho certeza de que ela ainda vai ficar ali por um bom tempo.

H.I.