Ao Salvador com carinho / by Hugo Inglez

Minha primeira memória de arte uma exposição dele. Não lembro museu ou ano, lembro do jeito como lembro das coisas que marcam fundo, fotografias em alta resolução descoladas de todo contexto espaço-temporal, como fragmentos em grande formato de um sonho.

Quase como se não tivesse acontecido.

Lembro dos relógios derretidos, faces melancólicas amparadas por estacas. A conjunção de elementos com significado muito além do meu entendimento, em paisagens desérticas onde parecia caber tudo. Lembro da mão do meu pai guiando pelos quadros muito maiores do que eu jamais cresceria para ser.

Lembro de ver tudo bem de baixo, e que portanto eu muito novo.

Lembro que desde então o mundo ficou certinho demais em suas regras e lógicas e limitações físicas. 

Eu havia nascido para arte justamente nas dobraduras de realidade do Dalí.

Por isso quando a Bel avisou que na manhã seguinte iria com a Maria conhecer Figueres, a cidade natal dele, minha resposta foi "é claro".

As duas iriam cedinho, o que significaria meu terceiro dia veloz em Barcelona, já que os dois primeiros não abriram espaço para respiro, e a madrugada estava reservada para minha única noitada em toda a detour zooropéia.

A noitada em Barcelona o tipo de história que você vai precisar me perguntar ao vivo para saber como foi. que importa é que pela manhã eu estava lá, completamente adulterado no trem à caminho do berço (e sepulcro) do meu maior determinante.

 Achei que roncaria alto por todo o caminho e faria as duas passarem vergonha, mas e aí que você consegue dormir quando os assuntos são arte em nível doutorado, história catalã e mexicana, megaeventos e seus efeitos sociais, tretas de ufrj e festivais internacionais de música, direto do backstage.

Achei que roncaria alto por todo o caminho e faria as duas passarem vergonha, mas e aí que você consegue dormir quando os assuntos são arte em nível doutorado, história catalã e mexicana, megaeventos e seus efeitos sociais, tretas de ufrj e festivais internacionais de música, direto do backstage.

A cidade de Figueres gira em torno do Teatre Museu Dalí. Inúmeras lojinhas de souvenir que eu não podia entrar, pois sem um puto no bolso.

Uma fila à brasileira para ingressar no museu. Pais alimentando suas crias com baguetes e sorvete para amansar a impaciência. O sol fervilhando minha ressaca. Seres com mais chapéus e câmeras do que o necessário. E sandálias. Revezamento de fila com a Bel e Maria. As crianças zumbindo como mosquitos inquietos. Um monstro do violão dedilhando a trilha perfeita para a visita. E passo a passo nos aproximávamos da entrada que já anunciava o esculacho sensitivo.

Confesso que estava despreparado para o nível de arrebatamento.

  A Igreja de São Pedro me fez lembrar do quanto gosto do estilo gótico, quando não combinado à palavra "suave".

A Igreja de São Pedro me fez lembrar do quanto gosto do estilo gótico, quando não combinado à palavra "suave".

 fachada do museu / prenúncio

fachada do museu / prenúncio

 prenúncio 2

prenúncio 2

Genialidade uma característica que soa inata, tipo dom, uma espécie de destinação pessoal. Talvez seja, mas curioso perceber que genialidade também um processo. O acervo do museu uma cronologia completinha desde os primeiros trabalhos do Salvador até o auge da surtação criativa. Nas entrelinhas sempre encontro minhas viagens favoritas. 

Para minha surpresa, o mestre começou longe do gênio e do surrealismo, da forma mais ordinária possível - experimentando. Experimentando muito, em todas as escolas possíveis e imaginárias, metralhando em leque numa versatilidade impressionante. Os trabalhos sempre de qualidade, você reconhece o potencial presente, mas também o nota meio subexposto, deslocado do canal que permitiria seu aproveitamento total.

O canal ideal que seria a estrada surrealista. A partir do momento em que ele encontra, fudeu. O artista surge do experimentador, como uma borboleta lisérgica saindo de motosserra do casulo. Intimidade e confiança nos processos crescem do artista o gênio, que finalmente completa o círculo, voltando ao estágio de experimentador, mas dessa vez no seu elemento, na absoluta liberdade de visão, criando a grande obra que é o museu (apesar da coletânea de artes, existe uma unidade que transforma o lugar num templo).

Ou você acha que um cara reconhecido pelo seu ego descansaria a eternidade em outro lugar que não dentro de sua maior obra prima?

 o "seja bem vindo".

o "seja bem vindo".

 O Cadillac pertenceu ao Al Capone, foi arrematado em leilão por um amigo do Dalí e doado de presente ao mestre. O casal aí dentro estava conversando sobre isso quando entreouvi.

O Cadillac pertenceu ao Al Capone, foi arrematado em leilão por um amigo do Dalí e doado de presente ao mestre. O casal aí dentro estava conversando sobre isso quando entreouvi.

 Na foto de boas vindas ali em cima você consegue uma dimensão do tamanho desse mural, por trás da flying goddess.

Na foto de boas vindas ali em cima você consegue uma dimensão do tamanho desse mural, por trás da flying goddess.

 não é distorção de câmera, é assimetria proposital mesmo.

não é distorção de câmera, é assimetria proposital mesmo.

 Pixel art pré-pixels.

Pixel art pré-pixels.

 Experimentando no renascentismo.

Experimentando no renascentismo.

 Crocodilismo geométrico

Crocodilismo geométrico

 ...

...

Tenho conversado bastante com meu parente PJ sobre o "ser artista". Já faz um tempo que desisti de me importar sobre o que é arte. Entreguei os pontos para a contemporânea, ela venceu, arte é qualquer coisa assim bancada por quem criou.

Mas o artista não precisa seguir pelo mesmo caminho. Pela primeira vez as especializações do mundo off-coxinha estão ganhando reconhecimento e credibilidade no Brasil, quer dizer, hoje em dia você pode ser ilustrador, grafiteiro, muralista, fotógrafo, músico, poeta, artista plástico, escultor, pintor, criativo, ator e por aí vai, e realmente significar uma profissão nisso.

É uma ironia, mas desde o advento do Instagram, as pessoas mais por dentro da rotina de produção, e por isso entendendo trabalho como trabalho, não apenas como desculpa cult para vagabundagem.

Nesse cenário, acho que dá para preservar a santidade do "artista", ao invés de banalizá-la. Não acredito que ser artista é uma profissão, um ganhar a vida. Justamente o contrário, é perder a vida numa espiral de escravidão produtiva. Find what you love and let it kill you, let it drive you mad, brabo.

A brincadeira de que um artista só começa a valer algo depois que morre talvez faça algum sentido, pois talvez só depois de morto um artista adquire certeza sobre sua obra. Enquanto em vida, as incertezas são as companhias mais certas, a menos que do artista cresça o gênio. E pelo menos "gênio" ainda uma palavra que mantém sua reverência a poucos.

Talvez por isso tantos artistas precisam de um amor-inspiração. Amor um sentimento bem certeiro para quem o sente. Seus efeitos palpáveis em diversas camadas. Então criar para esse amor talvez seja criar na maior certeza possível.

O Dalí tinha a Gala, e foi curioso perceber que as obras mais experimentais, as iniciais de cada novo ciclo, as mais audaciosas, essas artes costumavam ter ela como tema. A própria fundação que administra o museu leva a russa poderosa no nome.

A Gala talvez o único porto seguro de um maluco genial.

 reverência ao trabalho de um gênio apaixonado.

reverência ao trabalho de um gênio apaixonado.

 até com bruxaria ótica o fera se meteu.

até com bruxaria ótica o fera se meteu.

Para mim, artista aquele que sem entender o motivo, parte empurrado para além da sua especialização. Apenas o trabalho muito bem feito não basta, ele precisa daquele sentido difuso presente em campo desconhecido, cortar na vulnerabilidade para fazer a transfusão de alma. Precisa se matar um pouco para a obra ganhar vida.

Seres estranhos e trágicos, e talvez por isso sobreviventes num certo desconforto social, ainda mais quando o mundo unificado numa grande galeria virtual de palma da mão. É foda talhar no espírito e ainda ter que falar sobre o pedaço. Oferecer a ferida para quem quiser enfiar o dedo virtual trincado no scroll down. 

Eu achava que conhecia vários artistas, mas depois da visita a Figueres reparei que conheço vários especialistas produtivos de altíssima qualidade, mas somente um punhado de Artistas, na profundidade e letra maiúscula que a palavra ecoa em mim (acho que dá pra perceber que palavras importam por aqui). Não conheço mais Artistas que meus 10 dedos, e não me incluo num deles (talvez no do meio, quando todos os outros estão abaixados).

 Como se não bastasse, anexo ao museu um outro "edifício", reservado à coleção de joias desenhadas pelo monstro.

Como se não bastasse, anexo ao museu um outro "edifício", reservado à coleção de joias desenhadas pelo monstro.

 só para provar que é de verdade.

só para provar que é de verdade.

A visita ao Dalí me ensinou humildade, tornou meu filtro ainda mais chato e exigente. Percebi que ainda me encontro no casulo, puxando a cordinha para desafogar a motosserra.

Desde jovem a lagarta sabe sanfonar as tripas pelo papel. Uma facada nas costas ensinou a sangrar em vídeo, e fotografia afiou a pescaria de singularidades pela rua e os retratos de subconsciente. 

E a vida pós-coxinha começou num estúdio de tatuagem, onde você acompanha os aprendizes de tatuagem com muita calma nessa hora antes de se habilitarem a reais tatuadores.

Uma lagarta cozinhando em fogo lento.

O que faltava era a solidão do descompromisso social e musa inspiradora para os crimes de consciência. Faltava parar com a fuga nas substâncias. Faltava a decepção dos grandes heróis e morrer na separação dos bichinhos amormaior.

Bom, falta mais nada. Achei que 2015 tinha batido uma onda forte, mas a verdade é que me foi reservada uma surra de tsunami, justamente a que eu precisava.

Obrigado senhor Dalí e toda lapidação que veio depois. Sabia que assim como o primeiro encontro, o segundo também seria o início de um processo.

Começar 2016 cheio de tudo.

H.I.