transborda / respira by Hugo Inglez

22:30
escrever perdeu o romantismo se não for rap se não for sacadinha de niilismo se tiver narrativa iniciativa e romantismo pontuação letra maiúscula ninguém lê ninguém mais dá a mão quanto mais crise mais cada um isolado agarrado ao seu pedacinho de nada sua ideologia furada admirar outra parada pode ser perder espaço e se ta todo mundo sufocado melhor ficar calado o maluco dos imóveis feliz de ter tirado a carteira pro uber cheio de propriedades trabalhando com carro alugado geral desesperado mudança de paradigma é pior que rua carioca de tanto buraco gente rica caindo no vácuo de não ninguém mais dar a mínima pra ostentação coisa cafona desperdício é brega conforto preguiçoso piegas um zilhão de K's não vai mudar o fluxo da consciência geral que se move aos soluços mas adiante sempre avante e constante fecha o parênteses mesmo sem ter aberto fecha aspas antes de ser descoberto e fica esperto que quanto mais se mostra mais se entrega e quanto mais se entrega mais vulnerável mais heroi mais coragem Golpistaária na testa talvez isso que esteja faltando o mercado de máscara nunca foi tão próspero
22:36 respira
____________________________________________________________________________

00:13
"para se ter sucesso é preciso projetar uma imagem de sucesso o tempo inteiro" disse o real state king no Beleza Americana o filme do século passado que adiantou a postura nossa de cada semana santa de rede social fizeram pouco do saco plástico dançando ao vento fariam mais se existisse o termo hipster mas na época não existia snapchat e agora somos nós a compartilhar nossa infinita beleza cotidiana coração que esuqece como se ama se hipocretiza e embroma batendo meio pouco meio com vergonha de bater alto como rádio da nextel mas apito de whatsapp apitando sem vergonha que quanto mais amigos mais perto o cel mais perto do céu de onde assistimos ao nosso passar dos dias em terra mas se assistimos de cima o que está embaixo não deveria ser inferno? mas é só guerra comercial de telenovela em que é preciso projetar uma imagem de sucesso de alguém que não está sentindo o calor não está sofrendo com o auto corretor do ipad velho que usa para ter acesso ao instagram e manter um projeto de alguém que não tem smartphone alguém que só gostaria da crítica de alguém sincero mas se envenena nos desejos de sucesso que já projeta como o rei de mentirinha do filme que deixou de existir por prever verdade demais voce prestes a explodir de verdade demais mas na câmera de alguém vai ser só efeito especial pré fabricado
00:33 respira que já é segunda
____________________________________________________________________________

17:54
seu eu melhor seu eu trágico, resignado produtivo, mimizeiro abandonado pelos amigos, de grana demolido, puto com o karma que suas pontas dos dedos gastas de cafuné, de má vontade com o acaso mané, sempre falando baixinho demais para quem escuta o spotify no máximo do fone. você um fracasso, uma bomba atômica condenada a explodir sem estardalhaço, sem o sequer incômodo do estalinho das festas julinas cujo salsichão e churrasquinho inflacionados demais para sua triste carteira. sua triste carreira de ajudar os outros a te esquecerem. triste bunda inquieta na cadeira, seu zen as bordas encaixadas de um quebracabeça que se mantém caos interior. mas tem algo vindo, os farois, você precisa achar os laços, a raiva criativa furiosa mas ainda linear, atirando para todo lado mas sem formar leque, você precisa conectar os pontos invisíveis que fotografa e de tanto ninguém ver, miopia espelhada. tem algo vindo. o maior sentido escondido no pico do momento mais radical. você precisa de um tapa, uma conversa aleatória, um jantar e sua musa no pano de fundo abraçando o coração partido da amiga no telefone. o que vinha chegou, e explode no teu peito como um cartucho de setemeiadois à queima roupa, cirurgia de catarata o mundo cristalino por trás das lágrimas nos olhos. você sabe o que tá fazendo. sempre soube. não desviou um centímetro do caminho, não tem uma vírgula para jogar fora, o círculo esticou imensa e unificada sua sanfona desconexa de redundâncias até ali. desperdício zero. você encontrou seu Adversário em você mesmo, significação que vai te elevar por morte. você não tem a menor chance de sair vivo disso. você não tem a menor chance de permanecer morto.
18:09 respira fundo e afunda

herói nacional (crônica) by Hugo Inglez

erceiro dia que seu braço direito acordava morto igual a um pão francês. sonhos intranquilos faziam ele dormir em cima do braço e acordar atrasado. estava se acostumando a passar o café com o braço canhoto.

acostumando a usar o braço esquerdo para conferir os milhares de novos seguidores da noite pro dia.

from: Rio de Janeiro
currently: Paris with a french bread useless right arm

usou o braço esquerdo para abrir a mensagem com a confirmação. seu contato havia descoberto o entoque do ex governador do Rio, em uma cidadezinha afastada da capital. agora bastava achá-lo, matar os possíveis seguranças e iniciar a transmissão da captura.

para a transmissão precisaria do braço direito. sua coronhada canhota não tinha o mesmo apelo, não fazia o mesmo som seco ao atingir o crânio. seu braço esquerdo não tinha o mesmo carisma para gerar likes e follows e shares e os gloriosos memes.

o direito tinha, e essa estava sendo sua maior transmissão. três seguranças e um filho mortos, um ex-governador corrupto amarrado com silver tape à cadeira, com um "live" escrito em vermelho na testa, sangrando e babando e implorando por deus e pela polícia, que só chegaria daqui a uma hora, quando fosse chamada para cuidar da saúde e extradição do capturado.

a polícia francesa chegaria. deus não. deus provavelmente estava assistindo à transmissão, ó bravo novo mundo lindão. afinal deus é brasileiro e deve curtir uma vingança divina.

após entregar o ex governador - agora um amontoado confuso de carne semi viva -, voltou para sua suíte, receber os elogios por mais uma busca e captura bem sucedida.

os mesmos amigos de sempre preocupados que as transmissões fariam prova de que a resistência estava mais para tortura.

a mesma resposta de sempre: besteira, quem se importa quando o povo está ao seu lado? chegaria ao Brasil como das outras vezes, aeroporto lotado por seu cada vez maior fã-clube. quem se atreveria a prender ou sequer questionar um heroi nacional?

após lavar o sangue de bandido do corpo, reparou que sua mão tremia de leve. ossos do ofício. o mesmo contato que informara sobre o paradeiro do ex-governador, agora enviava mensagem avisando sobre um inimigo de estado.

um estudantezinho comuna que chefiou as ocupações escolares até reparar que o caldo tinha azedado. um ratinho covarde e também fugido para a França, ô sorte.

uma segunda transmissão no mesmo dia. que brinde! que tempo bom para se viver. as coisas se conectando tão bem que poderia massacrar o comuna com o braço esquerdo e transformar isso numa jogada de marketing.

talvez acordasse no dia seguinte com os dois braços dormentes. mas quem se importa? nesse ritmo, em um mês passaria os seguidores da Bruna Marquezine. o Moro que ficasse esperto no posto de Justiceiro Nacional. a coroa cada vez mais em disputa.

h.i.

pedaços soltos 1 by Hugo Inglez

Adiantado

joga no shuffle sua melhor playlist até hoje - Galinha Pintadinha Ultimate Collection. então vai trabalhar a selfie no editor de fotos, que o fluxo de likes caindo. hora de postar.

um pouquinho mais de contraste. peraí, Tumbalacatumba não está batendo com o clima. volta ao Spotify passar à próxima. Borboleta Pequenina, bem melhor. vale até um instasnap cantando. tentando cantar né. emoji borboleta. emoji gargalhando para não parecer metido.

volta ao editor de imagem, contrasta, satura um pouquinho as bochechas, volta ao Insta para postar. distribui uns likes para incentivar retorno. coraçõezinhos logo pipocando. ninguém resiste a bochechas rosadas. missão cumprida (pelas próximas horas).

deixa o ipad no tapete e repara que papai e mamãe filmando para os seus respectivos snaps. vocês querem quebrar a internet? então filmem isso.

e como se fosse fácil, como se fosse moleza, como se qualquer um pudesse, ele levanta e se apoia apenas nos pés. apenas dois apoios, filmem isso. me caguei todo para conseguir. literalmente.

ainda não satisfeitos?

levanta e anda. quatro passos completos antes de desequilibrar e voltar aos quatro apoios. os quatro primeiros passos, com apenas três anos. um prodígio. poderia ir mais longe, mas isso significaria ficar mais longe do ipad, e um bebê precisa de prioridades. um bebê precisa do seu ipad enquanto mamãe troca as fraldas. ela está para sentir o cheiro.

assim que terminar a transmissão ao vivo. mamãe também tem suas prioridades. precisa registrar o feito único. coraçõezinhos voando com elogios. na legenda, ela se gaba orgulhosa sobre "olha só meu pequeno atleta #3anos #adiantado".

a criação nunca foi tão mágica.

h.i.

26.01.17

____________________________________________________________________________

Maquinha entra no elevador com Dona Creuza, uma velhinha de olhar levado que é a ascensorista mais figura que já conheci na vida.

a outra passageira uma senhorinha cabelo branco cotidiana do meu prédio, que foi logo quebrando o gelo dizendo que estava cansada.

'cansada de que minha filha?, comer tanto peru?'. Dona Creuza não perdoa ninguém. do céu ao inferno no seu reino cubicular e prateado, ela quem manda.

'ééé.........'

'ééé, peru.... chéste.....'

'ta difícil de eu comer um piru viu menina?', a senhorinha mata a bola na manchete, já mudando a grafia da ceia.

'ih minha filha, sou viúva há 7 anos. não sei nem mais a cara', Dona Creuza eterniza do alto de sua terceira idade.

'compra um de plástico', a senhorinha sugere uma cara de plástico para Dona Creuza relembrar. Dona Creuza, que controla o timing do elevador como uma natureza controla seus microambientes, fecha a la Dona Creuza.

'ih sai pra lá minha filha! isso é pecado, isso é pecado', e agitando os braços e sempre meio rindo toda séria entrega a passageira ao seu andar de destino. Dona Creuza sabe que o momento depois do fechar das cortinas também é dela.

'se ela ta sugerindo, é porque ela usa', uma cerejinha de veneno pensada alto antes de deixar a Maca no décimo terceiro.

Maquinha chega em casa rindo com o sundae na mão para me contar.

h.i.

02.01.2017

_______________________________________________________________________

mantenha as escolhas difíceis que sem querer você acabou acolhendo
esses os princípios
que a hipocrisia não acaba esquecendo
não esqueça de onde, como e quando você veio.
esse o porquê da sua verdade
a simplicidade maior elegância
ostentação é cafonice da não realidade
admissão de que a vida não suficiente
o que você conquista gratuito te define sem receio
na simplicidade a verdadeira abundância
mantenha os amigos bem cuidados e a cidade sob os pés
mantenha a fé quente e pura
como o café
como sua transa
na entrega tudo, esperando o mínimo
a admiração do mundo está mudando
e foi sempre a mesma
não existe heroi de vida fácil
nem escola que não se mereça
mantenha os dias sob os pés e as madrugadas na cabeça
mantenha puro o íntimo
o último a se revelar, 
cavalaria sobre a ganância
o mundo está mudando
o mundo sempre o mesmo
o mundo é dos fortes
mas a única força que não se toma
entranhada nas entranhas
marque nos segundos sua idade
e assista ao mundo perdendo a conta

faça história
faça chuva
ou faça glória

h.i.
3:25

24.11.2016

não gosto de gente pobre by Hugo Inglez

não gosto de gente pobre. (uuuu lá vem ele politicamente incorrreto).

mas sério, quanto mais rica a gente, melhor. aquela gente que quando não sabe, aprende, e quando entende, explica. gente r.i.c.a de conhecimento e cultura, que parte logo pra ostentação.

aqueles que nunca vão deixar o assunto morrer, pois sempre curiosos de você, na ganância de cada pouquinho mais de história. gulosos do caldo singular de cada glória cotidiana, sensíveis às sutilezas de tempero, saboreando na língua e até bochechando no palatear pornoblasê de someliêr, só que tanino de sangue nos olhos, com notas da terra de origem, um gosto de você.

adoro gente rica de ouvido, silêncio e linguagem corporal. gente rica de ofício e os conectores de acaso.

gente mão aberta de sorrisos e os gastadores compulsivos de educação, com bolos de bons dias nos bolsos e paciência para as filas da vida sem furação. milionários com amigos contados à mão, mas um resto inteiro de mundo em queridos-já-te-conheço-de-alguma-outra-dimensão.

gosto dos que o mundo gosta de graça, circulando por diferentes babilônias de seres diferentes, carteirinha de gratuidade universal de circulação, modelo talento&empatia.

os que mantém no sofazinho de casa trezentos quartos bem ocupados de mansão, os que trocaram para hoje o algum dia e saíram de mochilão.

aquela gente tacanha em perder uma nova opção de amizade, uma nova possibilidade de realização. gente rica que mantém baseada na intimidade seu tesão. mais alto, mais fundo, mais longe, mais rente, bem mais junto. os que preferem cumprimentar beijo e um abraço, ao invés de colar a cara de lado e dois beijinhos em vão.

aaaa porra, essa gente boa rica de erros, cuja piada mais afiada são as tragédias que já venceu, a maioria no acidente, bem quase, bem feito. os queridinhos do karma pra quem todo dia loteria, os bêbados que nunca são atropelados.

minha gente rica mantém a geladeira cheia de criatividade e a despensa no desperdício de ideias dispersas.

minha gente rica carrega biblioteca de livros nas costas e só gosta de um tamanho de televisão - o formato cinema. minha gente rica os bichinhos vão até eles receberem carinho. porque os bichinhos sentem de longe quando a gente é rica, e quando é só milhão.

porque gente pobre, gente pobre por favor não, hashtag cacoantibes. se você tem apenas muito dinheiro e coisas e mais coisas que não sabe por que comprou nem onde colocar, cara, me perdoa, mas eu também não sei onde se coloca tudo isso, me angustia e só vem à cabeça uma sugestão.

gente pobre por favor não. meu irmão se chama henrique, minha vó portuguesa chamava ele de rico, meu pai o chama de ricão. acabei me afeiçoando por riqueza, acho que uma falha de caráter.

prometo para os próximos anos não melhorar.

hugo inglez
2012 (texto perdido por um dos hds)

Sugestões para melhorar o seu país by Hugo Inglez

A curto prazo (imediatamente):
- Ouve mais
- Observa mais
- Lê Muito mais
- Fala menos
- Para de gritar
- Para de achar que só você e quem concorda contigo sabem a solução do problema
- Para de assistir Globo
- Para de seguir o twitter da Lei Seca
- Para de acelerar no amarelo e driblar trânsito pelo acostamento
- Para de furar fila
- Para de jogar lixo no chão
- Para de dormir no assento preferencial
- Para de esquecer dos seus impostos
- Para de vestir camisa da CBF
- Para de escolher carreira pública para trabalhar o mínimo possível
- Rasga sua carteirinha falsa de estudante
- Desabilita o gatonet e o de luz
- Devolve o dinheiro quando o troco vier a mais
- Escolhe pelo menos uma dúzia de canais de informação, do mais canalha de direita ao mais bitolado de esquerda
- Para de compartilhar sem conferir a veracidade da fonte
- Para de compartilhar vídeo íntimo alheio no whatsapp
- Para de trair seu/sua namorado(a)
- Para de financiar qualquer tipo de tráfico
- Para com qualquer tipo de suborno
- Para de endossar e reproduzir discursos de ódio
- Para de impor sua religião (ou a falta dela) aos outros
- Para de denegrir sua própria cultura (incluindo funk e sertanejo)
- Para de aceitar regalias cuja origem você desconfia e/ou desconhece
- Para com o Popcorn Time e toda forma de pirataria
- Para de usar o Netflix do amigo
- Para de contratar serviços para pagar "quando der"
- Aprende de uma vez por todas que honestidade demanda sérios sacrifícios de dinheiro, tempo e conforto, e ser honesto tem muito a ver com o que hoje você considera ser otário.

A médio prazo (2018)
- Os partidos citados/investigados na Lava-Jato até agora são: PP, PMDB, PT, PSDB, PTB e DEM
- Partidos não citados na Lava-Jato: PSOL, PDT, PSTU, PV e outros
- Partidos fundados recentemente: Novo e Rede Sustentabilidade
- Vote de acordo com a sua própria consciência (e apenas segundo esse critério)
- Anote as propostas dos seus candidatos
- Anote o email dos candidatos votados
- Seja chato e incansável nos emails de cobrança das propostas

A longo prazo (seus filhos)
- Ensina que o jeitinho brasileiro acabou
- Ensina que a cola na prova acabou
- Ensina que assinar trabalho pelo amigo e vice-versa acabou
- Ensina que matar aula acabou
- Ensina que baixar música e filme acabou
- Ensina que depois dos 18 é depois dos 18
- Ensina todos os sacrifícios que você implementou para ele nascer num país melhor, e que você não espera nada menos do que o mesmo.

Se você achou essa lista grande, ela é só a ponta do iceberg do problema chamado nós-povo-brasileiro. Enquanto você não for capaz de adotar esse Mínimo à sua conduta, faz igual a mim, se poupa da hipocrisia e segue à risca as 5 primeiras sugestões, até ser capaz de aplicar o resto.

Exigir a mudança do outro primeiro é a maior corrupção entranhada na nossa nação.

h.i.

17 março 2016

garrafamento olímpico no seu radin by Hugo Inglez

foi durante um engarrafamento olímpico. cambiava as estações sem olhar para o dial, em busca da Rádio Cidade que saíra do ar, conforme ele já sabia, mas ainda assim buscava, enquanto o engarrafamento se arrastava sem tirar o pé da embreagem, enquanto a família olímpica cruzava livre pela faixa livre em seus carros de adesivos cafonas, enquanto a ideia de encontrar o andar 7 e meio no repetitivo edifício FM o interessava, assim como setar sua perna em câimbra e incomodar o motorista da frente com farol alto em pleno farol alto da manhã.

no 105,1FM encontrou a rádio Copacabana e logo descobriu que o nome oficial é Copacabana 680AM, então para lá foi, em busca de autenticidade, em busca de estática para dar uma crocância, uma textura à pregação, ou quem sabe a Rádio Cidade escondida.

o horário do bispo Macedo e seus bispos terminava com um bispo pedindo para os enfermos repousarem a mão sobre o aparelho de rádio, por onde curaria uma lista interminável de enfermidades. ainda com o pé na embreagem, colocou a mão sobre o botão de volume e lá deixou, nunca tinha ouvido de medicina por ondas de rádio e sentiu-se preterido quando após 5 primeiras marchas de cabeça ombro joelho e pé, joelho e pé e tumor, o bispo não curava tédio.

profundo, crônico e carnívoro tédio da porra da vida era uma enfermidade subestimada pelo Senhor.

os bispos do templo de salomão foram seguidos pelos pastores da universal, assim, sem tirar da embreagem. o programa do pastor Paulo Freire tinha o compromisso em trazer felicidade como slogan, mas logo pastor Paulo Freire foi anunciando que era a trombeta e agosto seria um mês meio punk.

pastor trouxe até um encosto para confirmar, com um terrível sotaque de umbanda e timbre de quando você quer imitar um monstro malvado para uma criança, mas a criança ri de você e pede para você devolver o ipad, que ela quer matar gente online com headshot e feitiço.

o pastor queria trazer felicidade, mas sua função era a trombetagem, ele era a mensagem assim como Moisés. pastor era o aviso de que o anjo viria passar o cerol nos primogênitos em agosto, e havia duas soluções, degolar um cordeiro e à moda antiga passar seu sangue no umbral da porta enquanto a costela chorava na brasa, ou manter-se vegan e buscar imunização na igreja às 15, 18 ou 20 horas.

quando pastor transformou agosto num acrônimo do apocalipse e ao invés de A de amor cantou A de agonia e G de gemido, foi nessa hora que o pé descansou da embreagem e o sorriso abriu.

aquele programa era mesmo sobre felicidade, enfim percebeu. a felicidade moderna de não conseguir felicidade então ficar feliz com a desgraça geral e por isso ao mesmo tempo alheia e inclusiva. o inferno dos outros que é nós.

a felicidade plena é o mistério da incoerência, assim como a Rádio Cidade continuar apenas na internet, o único lugar em que você não precisa de alguém escolhendo músicas para você e metendo uns comerciais no meio. a felicidade plena é um corredor livre de trânsito por onde você pode passar, desde que à caminho do evento mais tosco já visto no seu país, dentro de um carro com uma adesivação que o faz parecer a vingança do designer preso na outra pista.

a felicidade plena também na outra pista. bastava criar incoerência e o mistério se apresenta. e criar incoerência num engarrafamento olímpico é a coisa mais fácil que existe.

basta sorrir. o fundo do poço vira piscina assim que você começa a guerrinha de lama. até Copacabana ouvindo a rádio Copacabana.

h.i.

02 agosto 2016

Masterplano e vários porquês porque te amo by Hugo Inglez

linda hoje eu acordei bem inspirado para te escrever, mas não queria pegar filosófico nem engajado ou grandioso, acordei mais no clima brega singelo declaração de amor.

ontem o Rogério Fabiano colou sua homenagem para o dia da mulher no elevador, ao lado do aviso em que ele informa que o valor do condomínio não vai aumentar E que papai noel não existe.

isso me inspirou (a parte do recado cafona com flores pretas chapadas da impressão no toner, não a parte sobre ceifar a magia das centenas de crianças do prédio só para dar um recado com edge humorístico).

hoje eu acordo nesse inspiro, e meu inbox acorda contigo me passando a página "Certos Comunicados de Condomínio", um pedacinho de joia virtual Orkut Originals. um verdadeiro transmimento de pensação.

no outro inbox, Madre Ursa me envia "Nossa Senhora das Fêmeas", um hino perdido do famigerado Wando em que ele roga proteção para a doméstica, a mãe, as meninas e a moça que faz programa, contra os homens malvados, celulite, drogas, ciúmes, falta de fé e furo na camisinha.

novo eu achava que vocês minha inspiração, a romântica ideia da musa. mas faz um tempo refinei essa percepção. minha inspiração mesmo é o Acaso, em seu ultra randômico entregar de estímulos cotidianos. as pessoas que eu cruzo na rua, recados do síndico bitolado, ídolos cafona da mpb. o único padrão é que de alguma forma consegui me manter esponja, apesar do adulto galopante.

ser inspirado pelo banal e aleatório ferrava minha vida. eu era um artista sem certezas, incoerente no que me movia. acreditava que eu precisava viver para algo, quando só precisava viver para o máximo de vida possível.

você foi minha musa confirmadora. entrando pela tangente mais aleatória, pesquisadora de linguagem emocional tentando decifrar minha escrita circular em código de tinta de sete pés sem pé nem cabeça (referência alienígena-cinematográfica pan).

foi uma angústia simples que me mostrou o caminho. você não sabia nada do que eu fazia, então soube e ficou com o espírito apertado ao perceber que ninguém mais sabia.

como um acumulador de programa do discovery home&health, eu produzia e guardava, criava para as gavetas, por não enxergar qualquer nexo além do carinho por esse entulho criativo encontrado pela rua.

divulga saporra, hugo!, você diz no caminho para uma dentada na tapioca com ovo mexido que eu salto à manhã para fazer, só para assistir à sua preguiça esticar pelo quadrante completo da cama.

não quero saber como, põe pra jogo, hoje! você responde depois de elogiar a tapioca, mesmo que ela salgada demais.

então eu comecei a fazer bem isso mesmo, e descobri a Continuidade do Acaso. e hoje você e madre ursa e a Z com seu olhar de "não importa o que você faça eu te amo paipai", e vó bolinha com sua risada gostosa de "você é maluco mas meu neto", vocês pinçam as narrativas em meio ao caos de fontes e formas.

vocês mostram que entenderam antes mesmo de sair da minha cabeça e me confirmam no inbox. e essa a história sobre como vocês me salvaram. enquanto nenhum outro homem entender (inclusive eu), vou continuar achando que ser mulher é prerrogativa. só mulheres complexidade o suficiente para o quadro maior.

ah minha linda, comecei cafonão bonito e já caí para profundidades. vou parar por aqui e voltar para o pedacinho imortalizado do nosso cotidiano. lembro que você tinha acabado de cortar a franja, e o dia estava nublado. fico conjecturando o que passava pela sua cabeça (além de que a tapioca estava deliciosa).

no além dessa janela o sentido perdido que eu dou às coisas. você enxerga, eu apenas suponho sobre a memória fotográfica. e isso é lindo e o bastante.

até então eu era um fotógrafo às cegas. nascido o sexo errado para minha própria arte.

até então, não mais.

h.i.

2017 o ano da tartaruga by Hugo Inglez

acho que uma das corridas mais antigas da história. a lição parece simples, a lebre vai dar um baile seja a lebre vença a corrida pensa muito não. mas você não consegue ter uma visão afastada acelerando nos 100 metros da sua vida.

o Alejo trouxe esse mini globo de viagem. um dos primeiros presentes que recebi da Maca foinão essa mini lebre e mini tartaruga (também veio um mini tamanduá que reside em cima da minha porta). deixando tudo mini, consegui ter uma visão afastada da parada toda. 2016 foi esse por aqui.

lebre e tartaruga orbitam o planeta para uma corrida em círculo. nunca vi alguém dizer quantas voltas dura, então imagino que seja até o fim dos tempos (quando você morre e as pessoas fazem um velório e se surpreendem que você podia morrer e sentem saudades).

a lebre tão rápido o tempo inteiro, que numa pista circular termina tonta de girar. tão rápido o tempo inteiro que sua presença se torna um vulto em volta do planeta, descolado como um anel de Saturno, ao mesmo tempo em todo lugar e de esquina nenhuma.

tão rápido e acostumada a ganhar volta por volta que a própria vitória desmotiva e o único sentido em permanecer rápido é o medo do que pode acontecer se a velocidade diminuir. afinal quem pode dizer onde está aquela maldita tartaruga?

a tartaruga olhou para o lado e pensou que porra de lebre é essa parada do meu lado?, toda programada no redbull me olhando rocky marciano de torto atrás de uma linha branca de cal, onde há um segundo só havia grama verdinha para se tomar sol. 

a tartaruga perguntou a mesma questão que agora me estala toda vez que eu penso nessa história - quem seria tão idiota de botar uma tartaruga para correr contra a porra de uma lebre? não existe aquele fato aleatório que transforma tudo num ensinamento moral, tipo o sapo e o escorpião. também não dá para rodar apostas decentes numa disputa tão desequilibrada, quem vai botar o seu na tartaruga?

só se a corrida não for sobre quem chega primeiro, a tartaruguinha pensou. afinal, ninguém marcou linha final ou número de voltas, e eu não to afim de começar a correr sem destino esperando alguém me avisar dos detalhes no meio do caminho. ainda mais contra uma lebre trabalhada no hipercalórico probiótico. 

a tartaruga nasceu com a casa nas costas, casco reforçado para mergulhar em todos os oceanos, barbatanas que servem também para um lowriding por terra. ela pode todo e qualquer lugar, e guardar nas costas esses espaços-tempo, um acúmulo consciente de lembranças - viver todas, sem pressa. guardar as melhores e piores no lugar mais próximo. em casa. nas costas. reforçando o teto contra as próximas tempestades. sempre vai haver uma próxima tempestade.

a tartaruga termina toda enrugada, corcunda com o peso do planeta e de todas as memórias acumuladas na bagagem. enquanto a lebre espalhou suas memórias por nuvens e, transante, dos seus filhotes nem tomou nota, a tartaruga garantiu a eternidade de sua obra e descendência no planeta. ela se lembra com paixão de cada uma de suas criações, afinal todos já viram o quanto amor uma tartaruga pode entregar para um crocs, uma criação duvidosa de outro alguém.

terminei o ano com umas idas a cachoeira com meu irmão Johnny, e no caminho passamos por mansões estelares no alto do Horto. sem sinal de vida por trás de nenhum muro. imagino uma lebre viajando, ocupada demais para ocupar seu próprio espaço. mansões de projeto de escritório de arquitetura, da primeira viga à última almofada, eterna falta de tempo e recheio.

terminei o ano com a festa do ano, banquete ostentação da Record com show dos Novos Baianos (uma resenha pra ser contada ao vivo, quem for próximo me pergunta). no palco, entre a banda e os quatro fantásticos, colocaram uma mesinha de boteco. madeira com toalha preta de cetim. um senhor de óculos escuros e chapéu preto, pequeno e encurvado, empunhou o microfone para recitar o poema de apresentação da banda. então ele sentou nessa mesinha e dali de literalmente dentro do palco assistiu a todo o show.

o Luiz Galvão é o poeta que te informou que besta é tu de não viver nesse mundo, se não há outro mundo, por que não viver? ele não mora numa das mansões do Horto e até onde eu soube estava passando perrengue para custear o tratamento de diabetes. tudo o que o Galvão tem é uma mesinha reservada no palco para assistir à sua obra sendo recitada pelo grupo mais relíquia de toda a música brasileira.

aí eu te pergunto, entre o dono de um palácio abandonado no Horto, e o Galvão dono de um palco iluminado, quem é a lebre, quem a tartaruga? no final, quem ganhou a corrida?

2016 a vida bateu forte. legal, só conheço vencedor e sobrevivente. crise é oportunidade o banco sorriu do seu cheque especial, ok crise é oportunidade de olhar para dentro e sem propaganda externa descobrir o que te faz feliz, porque o que faz feliz mesmo sempre vai ser simples e inofensivo para o resto do planeta. é onde a equação da nossa existência se acerta.

a real felicidade não custa porra nenhuma.

uma conversa especial com um certo alguém. um carinho da sua mão favorita. um trabalho honesto com pessoas que você admira. tempo de não fazer nada para ser atingido por uma grande inspiração. criar algo que te ultrapasse e crie palavras bonitas na boca de jovens que você sequer teve a chance de conhecer. 

reduzindo sua felicidade a esses poderosos diamantes, o caminho cheio de diamantes para todo mundo esculpir seus favoritos no tempo de uma vida. sem brigas, se ajudando, evoluindo conhecimento. sem o excesso cafona de versões menos afiadas da espécie, fanáticos por construir espaços vazios e se pautar pelo desperdício.

que em 2017 a gente continue a trocar nossas riquezas, doa a quem doer, pobre fique quem pobre de espírito for. que nosso mundo menos Saturno, onde não tem vida só aneis bonitos de pedras rápidas para a fotografia das sondas do nosso planeta azul e verde que foi moldado como um playground de tartarugas para a coleção de diamantes de tempo, não da terra.

o dono da Mansão viajando, preso à sua própria capacidade de fazer tudo ao mesmo tempo. o Poeta sentado à mesa, ouvindo sua obra nas vozes de uma geração, para a juventude de outra. ouvindo Mestres cantarem o fim da corrida, que ele sempre soube e por isso ali, pacífico e saudoso com o videogame zerado.

Acabou chorare / Ficou tudo lindo / De manhã cedinho.

vamos ficar bem. só conheço vencedor e sobrevivente. to dividindo vida com meus herois. agora vambora ser o melhor que precisamos ser para dar exemplo e obra às próximas gerações de tartaruguinhas.

foda-se a lebre.

h.i.

1 mês de pai imperfeição by Hugo Inglez

lembro da mão macia da minha vó agarrando meus pés e dizendo que 'filho! seu pé ta gelado, vai botar uma meia'. eu botava meia e casaco e me protegia de qualquer corrente de vento e tomava remédio ao primeiro espirro.

minha saúde se tornou um vidro quebrável de acordo com a metereologia. eu treinava jiujitsu com o Buiú, um cara que tinha crescido na rua e que eu nunca vi ameaçar um atchim.

pensei nisso quando a veterinária avisou que a Z não poderia ir para a rua até ela completar Todas as doses de Todas as vacinas. mas como assim? ela veio da rua, eu tinha que meter ela numa bolha e fazer ela usar meias?

aí depois que ela se acostumasse ao novo mundo de colo eterno, eu devolveria para a rua e ai de mim para mostrar que a vida é o equilíbrio entre esses dois extremos de perrengue e conforto.

ela já chegou com medo de viver. eu não ensinaria medo da vida. só não sabia o quanto educar era doído. ignorar os pedidos de colo, cada vez menos desesperados, cada vez menos constantes, até que ela à frente na coleira, até que ela sem coleira em lugares fechados e ontem sem a guia pela rua das laranjeiras.

havia esquecido a coleira na casa de um amigo e queria comer um Orange Burguer altas horas, e quinta feira a Z já tinha deixado os vizinhos acordados até às 4 da manhã. então por que não?

outro dia fiquei rindo sentado com meu irmão no ponto de ônibus, ele desacostumado de Lisboa, aflito com as pessoas atravessando a rua fora do sinal. Voltou pro Rio reparando o quanto convivemos com vários riscos cotidianos. 

por isso que ao chegar na pracinha do hambúrguer, sem guia e sem ser atropelada, deixei ela comer um pedacinho caído de carne que ela achou no focinho, depois de mapear a área.

Z de boa numa sessão Black Lounge

Z de boa numa sessão Black Lounge

a hora em que eu te conto que levo uma cachorrinha não totalmente vacinada pela rua sem coleira e deixo ela comer carne de hamburguer do chão, é provavelmente a hora em que você diz que eu to beirando o mau pai.

talvez. mas ninguém que encontra a Z na rua diz que há um mês ela era puro terror e pânico. entre conhecidos, desconhecidos, na rua, no ônibus, elevador, numa sala alheia, com som alto, música ao vivo, outros cachorros, luzes coloridas e na pracinha do hamburguer, a Z tá de boa.

se você me acha um mau pai, deveria ver me coração trincado quando levo ela para um local desconhecido e ignoro completamente o primeiro susto dela, o desespero até perceber que se continuar por perto, já basta para nada de mal acontecer.

as 3 horas e meia entrando e saindo do quarto até convencer ela de que a bolsa é tipo um colo com alças são bolinho, comparadas a ver ela de canto de olho interagindo com a Maca ou minha Madre e ter que ignorar, para ver se ela quebra o monopólio de confiança em mim e se conecta a outras pessoas.

a pior parte de amar é a educação, porque educação não tem a ver com amor, mas disciplina. e quando a lição se transmite pelo ignore, aí que dói mesmo e você passa a cagar se é um bom ou mau pai. você é o pai necessário que está ignorando a coisinha que você mais ama e tem responsabilidade.

você dá miolo de pão para enganar a fome porque acordou tarde e precisa enviar uns emails, mas quando percebeu que a única coisa no mundo que ela não comia era ração, batata doce e a ração se transforma no crocantinho do purê de batata doce. do mesmo jeito que madre misturava abóbora no arroz e feijão e dizia que 'nãaaaao, esse laranjinha não é nada, não muda o sabor...'

em um mês a Z já fez amigos, atendeu à diferentes reuniões e festas, andou de ônibus e metrô e sem coleira na rua, brincou de polícia e ladrão com um filhote de labrador e golden, cheirou o cu de um dálmata gigante e tomou um corre. caçando pombos quase derrubou uma moça surda. abriu um buraco no meio do meu colchão (que junto com as manchas dos cios da Juju, agora parece o colchão de um pervertido). subiu em todos os meus móveis conseguindo não quebrar nada.

antes ela era só terror, agora ela criança, e espero que até a última dose da última vacina ela permaneça saudável e ainda mais criança, e quem sabe confiando em outras pessoas, quem sabe sem manter os vizinhos acordados toda vez que eu saio à noite. quem sabe com vários amigos cães e gatos e já atravessando a rua sem coleira.

as pessoas começaram a perguntar qual a raça da Z. minha vontade é dizer que minha panqueca não tem raça, ela é a raça em pessoa. se ela é raçuda o suficiente para enfrentar o mundo sem precisar mais do meu colo, eu posso ser um temerário idiota, mas não vou oferecer colo para protegê-la de um mundo que ela decidiu enfrentar.

minha tarefa é ficar de longe. atento. angustiado. um passo atrás de tudo que pode acontecer, mas feliz de ver minha panqueca cada vez mais confiante à frente.

a pior parte de amar é não poder cuidar. to chegando à conclusão de que criar é cuidar cada vez menos, amando cada vez mais. queria ter compreendido isso antes, e talvez ter sido menos merda com meus pais na adolescência.

eles criaram um ferinha que prefere não ter medo das coisas. talvez o tipo de pessoa que uma cãozinha traumatizada precise.

h.i.

Justiça moderna (crônica) by Hugo Inglez

terceiro dia que seu braço direito acordava morto igual a um pão francês. sonhos intranquilos faziam ele dormir em cima do braço e acordar atrasado. estava se acostumando a passar o café com o braço canhoto.

acostumando a usar o braço esquerdo para conferir os milhares de novos seguidores da noite pro dia.

from: Rio de Janeiro
currently: Paris with a french bread useless right arm

usou o braço esquerdo para abrir a mensagem com a confirmação. seu contato havia descoberto o entoque do ex governador do Rio, em uma cidadezinha afastada da capital. agora bastava achá-lo, matar os possíveis seguranças e iniciar a transmissão da captura.

para a transmissão precisaria do braço direito. sua coronhada canhota não tinha o mesmo apelo, não fazia o mesmo som seco ao atingir o crânio. seu braço esquerdo não tinha o mesmo carisma para gerar likes e follows e shares e os gloriosos memes.

o direito tinha, e essa estava sendo sua maior transmissão. três seguranças e um filho mortos, um ex-governador corrupto amarrado com silver tape à cadeira, com um "live" escrito em vermelho na testa, sangrando e babando e implorando por deus e pela polícia, que só chegaria daqui a uma hora, quando fosse chamada para cuidar da saúde e extradição do capturado.

a polícia francesa chegaria. deus não. deus provavelmente estava assistindo à transmissão, ó bravo novo mundo lindão. afinal deus é brasileiro e deve curtir uma vingança divina.

após entregar o ex governador - agora um amontoado confuso de carne semi viva -, voltou para sua suíte, receber os elogios por mais uma busca e captura bem sucedida.

os mesmos amigos de sempre preocupados que as transmissões fariam prova de que a resistência estava mais para tortura.

a mesma resposta de sempre: besteira, quem se importa quando o povo está ao seu lado? chegaria ao Brasil como das outras vezes, aeroporto lotado por seu cada vez maior fã-clube. quem se atreveria a prender ou sequer questionar um heroi nacional?

após lavar o sangue de bandido do corpo, reparou que sua mão tremia de leve. ossos do ofício. o mesmo contato que informara sobre o paradeiro do ex-governador, agora enviava mensagem avisando sobre um inimigo de estado.

um estudantezinho comuna que chefiou as ocupações escolares até reparar que o caldo tinha azedado. um ratinho covarde e também fugido para a França, ô sorte.

uma segunda transmissão no mesmo dia. que brinde! que tempo bom para se viver. as coisas se conectando tão bem que poderia massacrar o comuna com o braço esquerdo e transformar isso numa jogada de marketing.

talvez acordasse no dia seguinte com os dois braços dormentes. mas quem se importa? nesse ritmo, em um mês passaria os seguidores da Bruna Marquezine. o Moro que ficasse esperto no posto de Justiceiro Nacional. a coroa cada vez mais em disputa.

h.i.

Z de minha by Hugo Inglez

o viralata se mantinha metros seguros adiante, latindo au e au e mais au enquanto descíamos o Joá numa dupla meio desarmônica. quando a manhã de sábado chegara e fui embora da festa, cada célula aditivada do meu corpo sussurrava que a história ainda não havia acabado. ainda havia uma parte reservada seu eu descesse o Joá a pé. sentia em cada poro arrepiado e na energia espiritual e sintética fluindo pelos meus joelhos doloridos de tanto dançar.

porra, era esse o encontro reservado para mim? barulhento desse jeito?

pedi para o viralata parar de latir, por favor, estava com os sentidos extra sensíveis. então nos sentamos na muretinha do Joá, e enquanto apreciávamos as ondas batendo prateadas sob o viaduto, nossa distância foi diminuindo, pouquinho a pouquinho, até que ele me deixou fazer o primeiro carinho.

não sei se foi nesse primeiro carinho que a pulga mordeu minha mão, reparei apenas que o amigo estava uma lástima de sarnento, e tinha o olhar doce por trás da cascagrossisse dos bigodes. 

quando chegamos à São Conrado, minha mão parecia um pão francês da mordida da pulga (e eu rindo que havia escrito um texto sobre membros de pão francês antes de sair de casa naquele mesmo dia).

o viralata desceu o Joá inteiro comigo. devia ser esse o encontro reservado pelo Acaso. só podia. pulguento desse jeito. restava aceitar e ligar para meu pai, fazer ele dirigir da Barra para tentarmos colocar o pulguento no carro.

voltei ao Barramares parte frustrado, parte aliviado. quase uma hora e não conseguimos o resgate. o amigo voltou a subir para sua casa de teto de céu e lá no alto desapareceu. 

errei a leitura? isso bem raro quando estou em estado de sensibilidade, mas talvez hora de admitir que dessa vez era só uma frustração o que me esperava ao final da história. um alarme falso.

ou não.

encucado enquanto amassava umas bananas para o café da manhã, foi quando minha madrasta avisou que uma voluntária queria trazer uma cachorrinha lá de Guaratiba para eu conhecer, e quem sabe adotar.

então eu entendi tudo.

o amigo pulguento no Joá não era o encontro que eu sentia me esperando. ele era a descrição do encontro a acontecer. um aviso em outdoor de letras neón, para não ter chance de eu errar.

'manda vir Carmem'.

manda vir que desde que a manhã de sábado acordou, eu já dono daquela cachorrinha.

meia hora para tirar ela de dentro da caixa de transporte. as patinhas finas e longas fincadas nas bordas da caixa, e lá de dentro o olhar mais aterrorizado que eu já tive a angústia de mirar.

quando finalmente consegui botar ela no colo, abraçou com as patas meu braço e colou o pescoço no meu peito, com a cabeça sobre o ombro. queria que fosse amor à primeira vista, mas desconfio que era instinto de defesa de quem já foi muito largada e jogada.

'não vou te soltar, bichinho', falei no ouvido dela. não vou Mesmo. 

também não vou entrar nas brutalidades que ela enfrentou. esse um texto feliz, então basta dizer que essa coisinha magrela e meiga conheceu o inferno em níveis de crueldade que envenenam a alma só de imaginar, e sobreviveu com a doçura intacta. basicamente a única coisa que restou intacta. logo a mais importante.

o resto ali era medo. medo de tudo, TUDO, Terror verdadeiro ao ponto de tremer e chorar e se mijar com cada sutil interação e mudança no ambiente. dez minutos de carinho na cama e ela não queria mais sair de lá por nada. ai dos meus ouvidos se eu levantasse. eu e aquela cama talvez o primeiro porto seguro que ela experimentava na vida. ainda em dúvida se aquilo se manteria real, mas enquanto se mantivesse, ela não sairia daquela cama, e não deixaria calada que eu me afastasse.

então eu não me afastei. e decidi que não me afastaria nunca mais. todo aquele trauma, todo aquele inferno, nunca mais. pode subir o diabo himself que vai encontrar a briga mais enjoada que já teve.

à partir da tarde daquele sábado, a única coisa que aquele bichinho iria experimentar era Amor. amor puro, queimado com a maior intensidade que eu conseguisse. à partir de sábado o mundo inteiro seria aquela cama de carinho e segurança.

eu iria desarmar todo o terror e medo. iria não, eu vou. eu estou. pagando a conta que outros "seres humanos" carregaram naquele bichinho. pagando os créditos de maldade com imensos depósitos de amor, para mostrar o quão avassaladora pode ser uma transformação assim.

agora o Medo e Terror que precisam ter medo de mim, porque eu vou Apavorar de carinho e cuidado, numa escala que não vai sobrar trauma pra contar história.

hoje completo 72 horas nessa missão. no primeiro dia, depois de dormirmos a tarde inteira, pela primeira vez ela abanou o rabo e me lambeu, ainda tímida. levei ela num churrasco, para entender que nenhum ser humano vai levantar a mão pra ela de novo, a menos que seja para fazer carinho. onde ela estiver, estarão só amigos em volta.

ela comeu carninha e foi mimada por todo mundo, e quando voltei ao meu pai e ela viu que a cama ainda lá, e que nós dormiríamos juntos, talvez a única vez no texto em que palavras não vão ser suficientes.

no segundo dia levei ela para conhecer minha mãe. de surpresa, é claro (manter a tradição). no notório "Spa da Vovó", ela adotou o sofá como ponto de segurança. mas com timidez explorou a casa, e passeou na rua pela primeira vez, e também pela primeira vez comeu arroz com carne assada e bebeu água do potinho. antes ela só tentava beber o próprio xixi e tremia quando eu oferecia água, um indicativo sombrio de como a vida era seca antes.

em Jacarepaguá pela primeira vez ela dormiu sem abrir os olhos toda hora pra confirmar que eu ainda lá. pela primeira vez ela acordou pela manhã... brincalhona. esticando as pernas finas e mordiscando minha mão. ainda desconfiada, mas já diferente. o medo já não era tudo ali. a esperança havia brotado nos olhos bondosos.

a flor havia brotado no asfalto. a estrada agora condenada a ser tomada pelo verde.

tomada pela vida.

ontem meu bichinho finalmente conheceu sua nova casa em Laranjeiras. adotou não só a cama como a poltrona. comeu tanto que ficou incomodada com o curativo apertando a barriga (não só castraram enquanto ela no cio, como fizeram um trabalho de açougue, deixando uma érnia e a barriga toda em carne viva ao raspar o pêlo para a cirurgia).

hoje ela se mijou inteira ao acordar. mijou minha cama e a porra toda em volta. foi uma lambança, mas não foi de medo. não mais. foi de alegria porque eu saí do banho e ela reparou que apesar de ter dormido em 3 camas diferentes em 3 dias, a manhã e eu nos mantínhamos constantes.

e assim vamos continuar, a Manhã e eu, dia após dia até ela se acostumar com a ideia de que a existência não é só sofrimento, a existência é exatamente o contrário quando você um bichinho mágico de pura doçura e inocência.

em 72 horas um bichinho pode parar de se mijar de medo, e começar a se mijar de alegria. basta amor, carinho e cuidado. em 72 horas você consegue elevar uma existência. do inferno ao céu.

vocês vão ver minha filha com uma semana de sua nova vida.

até porque a partir de agora, se vocês me virem, vocês vão ver minha filha. porque ela já viveu demais sem porto seguro, à deriva num mar de tubarões, com medo, enfurnada atrás de uma máquina de lavar.

a partir de agora, se vocês me virem, vocês vão ver a Z.

porque eu Inglez com Z. E percebi que muito antes de sábado me contar, eu já era desse bichinho, e podem dizer que o Acaso nos armou o encontro para que eu salvasse ela. mas desconfio que seja o contrário. o sentimento pulsando pelo meu ser, permeando minhas palavras, eu achei que tinha perdido isso quando minhas filhas foram pra longe. mas agora ele de volta, forte, puro e arrebatador.

podem dizer o que quiserem, eu Sei que o Acaso nos cruzou o caminho para que a Z me salvasse.

exatamente isso o que ela fazendo. o mínimo que posso retribuir é abrigá-la no melhor de mim.

protegida para renascer o melhor dela.

adote. se você chegou até aqui, é o que eu tenho pra te falar. adote e salve duas vidas.

a sua inclusive.

h.i.

 

sem título by Hugo Inglez

namorar escritor é foda. de quem esse cu que ele falando?, que o meu não é. o meu ele nunca pediu, então de qual ex namorada essas pregas que ele escrevendo, será que ele tem amante, será que eu pergunto, será que doeu?

namorar escritor seria um pouco menos foda, se fosse escritor mesmo. mas para ser escritor não precisa ter publicado? não é tipo dizer que é advogado sem ter oab? se não existe livro nenhum, só um blog e o facebook, então ele não é escritor, só um cara que escreve, e crônica, meio e formato próximos demais da verdade para eu responder aos meus amigos que é só ficção gente, ele é escritor.

esse cu é inventado. esse cu nunca existiu além das palavras.

ele comendo um rabo de mentirinha.

rá rá.

namorar artista é foda. seria menos foda se fosse artista de mentirinha, desses que ganham dinheiro sem suar. sem se expor. artista comercial. um guetta do pendrive, um magiezi da mulher-que-não-existe-mas-todas-acham-que-são-ela. porra, pergunta se a mulher do magiezi já deu a bunda? a mulher dele não deve nem cagar. deve se alimentar de luz e transpirar aura com glitter.

por que eu não posso ser a musa de um poeta comercial? por que eu tive que escolher logo um 'cara que escreve', desses cujo drive é abrir vulnerabilidade aos sete ventos? desses que não satisfeitos em dissertar sobre um cu, tem que escrever que era apertado demais então gozou na metade da primeira bombada.

se o cu inventado, ele podia pelo menos ter metido bronca, né?

agora ele vem sem título, sem aviso, sem aspas, sem juízo, sem assinar vem ele e me escreve sobre as armadilhas de um cu apertado que não o meu. quer dizer, o meu também apertado, mas nunca ninguém caiu na armadilha. nunca ninguém pediu para cair.

eu preferia quando ele apenas um advogado sem oab, com sua cerimônia e excelentíssimos. preferia quando ele guardava os demônios até de mim e se bastava como um fotógrafo "promissor", apelido carinhoso de amador com canon semi profissional clicando paisagens sobrexpostas de horizonte torto.

arte mais do que suficiente, ele tinha para meu grado.

o que ele espera conseguir com essa "nova fase"? quem tem fase nova é a lua, porra vai fazer yoga na praia e saudar a filhadaputa. não fica escrevendo só para um bando de amigo fanfa com seus 'ká ká kás leleq tu é maluco', e as mina revolt que cu é prática de machista opressor, e minha família se perguntando se o cu é meu, eu sem poder falar que não, não é meu, e o jantar desconfortável com todo mundo olhando para baixo. com cara de cu.

menos a dele. a cara dele aquele sorrisinho arrogante e debochado de escritor, que não faz concessões, que 'você não mexa na minha arte', que não explica sua obra. não põe os acentos nos u's, porque nunca publicou porra nenhuma mas escritor o suficiente para saber que não se acentua oxítona terminada em u.

já sei. vou responder à altura. vou escrever sobre quando hipoteticamente achei que ia ficar cega com uma jatada de porra no olho. assim mesmo. sem título, sem aspas, sem maiúscula, sem aviso, começando direto com um caralho será que vendem tapa olho na Zara?!

namorar escritor é foda, mas foda mesmo é quando você repara que talvez mereça o filhadaputa.

meu olho canhoto já começa a lacrimejar só de pensar no jato hipotético.

"Arte boa caminha sozinha e sem gritar" by Hugo Inglez

ou "Quando tudo vira Originals"

Dedicado ao Marcelo Zissu e muitos outros.

"A arte não é uma atividade competitiva, e as discussões sobre promoção e relegação são irrelevantes para o prazer estético. Na opinião daquele escritor, certos artistas são melhores do que outros porque produzem, de um modo mais consistente, obras complexas e emocionalmente profundas. Não obstante, um estilo não é necessariamente melhor do que qualquer outro".

Alaistair Mackintosh citando Philippe Julian

Ainda não tinha cruzado nos estudos com uma definição objetiva, simples e satisfatória para avaliação de artistas. A passagem também explica porque no passado não rolavam grandes tretas entre correntes artísticas, e mais ainda, porque não existiam tretas dentro de uma certa corrente artística.

Apesar de dividirem um mesmo estilo, cada artista estava empenhado em produzir complexidade e profundidade emocional, algo que quando alcançado, não pode ser copiado. O ego com certeza já existia, mas estava substituído pelo orgulho com os próprios méritos em se criar singularidade.

Hoje o número de artistas preocupados em criar obras complexas e profundas é tão reduzido que a lógica objetiva desvirtuou, e a avaliação passou a ter como critério o marketing pessoal - os melhores são definidos pelo número de seguidores, likes, exposições hypadas e sucesso comercial.

O marketing é um mundo competitivo por natureza e acaba impregnando a visão da arte. Correntes artísticas passam a querer ser melhores do que outras, e artistas dentro de uma mesma corrente passam a disputar relevância e pioneirismo, ao mesmo tempo em que escondem suas referências.

Isso porque o trabalho passou a se resumir ao estilo e o diferencial à promoção comercial desse estilo. Quanto mais um artista é divulgado em detrimento de outro com o mesmo estilo - muitas vezes a referência original -, mais esse artista se torna "dono" do traço (sua única posse), num jogo de ilusão em que o mundo da arte caminha para a individualização estética, quando na realidade caminha para a promoção individualizada de infinitas cópias estéticas.

Enquanto isso, se percebe que os artistas mais verdadeiros experimentam uma certa inabilidade para o marketing pessoal. Isso porque continuam preocupados apenas em criar singularidades por um método complexo de expressão emocional. Para esses artistas, o estilo é apenas a embalagem derivada para dar acabamento ao conteúdo. O marketing é só o laço da embalagem. Então não há maiores problemas em dividir fontes ou conhecimento, e não há maiores preocupações em dizer o quanto as obras são únicas. Porque elas simplesmente são, Mesmo que o seu racional já dispare em fazer ligações com algos parecidos, o seu emocional é atingido e comovido de forma única, uma solada nova de voadora. Por isso que

"Arte boa caminha sozinha e sem gritar".

Quem me passou essa sabedoria foi um dos artistas que eu qualifico como verdadeiro, uma das minhas principais referências de pensamento e postura. Quando digo verdadeiro, quero significar artista de intuito clássico - a busca de complexidade e profundidade emocional. Não estou chamando os demais de falsos, mas de modernos, artistas de estilo e marketing.

Hoje vi uma coletânea de tatuadores brasileiros de blackwork em que mais da metade possuía o estilo desse artista. Afirmo isso porque tive o cuidado de pesquisar cada um, e todos os originals são posteriores ao artista original, que por ironia não estava na coletânea.

Agora pergunta se ele se importa com isso? Não teve uma vez em que estávamos trocando ideia que alguém não veio mostrar mais um "original copy&paste". Ele só ri. Afinal a forma é só a casca, a embalagem, e a casca pode ser open sorce quando a singularidade da sua arte está aterrada na profundidade do seu ser. Uma busca constante, intangível e portanto inatingível.

Passei o texto inteiro discutindo internamente se dividiria o nome dele aqui. Como a minha ideia é passar uma opinião geral sobre a arte, decidi ficar só na dedicatória. Afinal ontem ganhei uma admiradora de MUITO longe, por uma simples hashtag que ele inclui sem alarde nos seus trabalhos. E acredito que é na admiração mútua o verdadeiro marketing.

Essa é minha última dica para a "pesquisa" dos verdadeiros originais, os que correm paralelamente ao mundo competitivo e publicitário da arte. Eles costumam chegar até você completamente sem querer, mas você precisa querer, como aquele amor que você encontra no lugar em que para, cansado da busca. Eles também chegam para você na opinião das pessoas que você mais respeita, uma opinião que vai estar fundamentada no trabalho e nas sensações que esse trabalho criou, ao invés da pessoa e do nome.

Existem muitos outros artistas que provavelmente você ainda não ouviu falar, que estão escondidos nas referências dos artistas que hoje você admira. Espero que esse texto tenha dado bases mais objetivas de avaliação artística, e principalmente, que tenha te instigado a se tornar um pesquisador dos verdadeiros originais. Aviso que é um caminho lindo, contundente e sem volta. Bom mergulho.

 

Hugo Inglez

Memê o Presidente do Brasil by Hugo Inglez

Sua linguagem corporal uma mistura de desconforto, deleite, nervosismo e convicção de que havia feito história. Para o bem e para o mal, havia acabado de se revelar a segunda personalidade mais importante do país, o articulador por trás do principal fenômeno político brasileiro desde a Lava-Jato, o candidato vira-lata Memê, líder absoluto das pesquisas de intenção de voto, batendo todos os recordes do falecido presidente Lula da Silva.

Tudo com uma receita da qual não podia sequer pleitear autoria. Foi uma visão recebida, quase uma predestinação. Só o que fez foi enxergar conexão e oportunidade na sucessão de acontecimentos históricos e esquizofrênicos que empurravam o país da lama ao caos.

O caos anterior à grande unificação nacional em torno de Memê, o candidato do povo.

"Começou como uma brincadeira sim, Sílvio, mas acredito que agora a campanha do Memê representa a esperança do povo brasileiro em um futuro melhor", respondeu meio surpreso com seu súbito tom estadista. Chegou para a entrevista pensando que aquilo seria um desastre.

Quer dizer, o mais próximo possível de um desastre, levando em conta que havia reinado novamente ao preterir o Bonner para conceder a primeira entrevista ao grande Sílvio Santos, em pessoa e timbre de voz.

Só essa escolha já havia angariado mais de uma centena de memes e 4 pontos no Datafolha para a campanha do carismático cãozinho Memê.

Continuasse ele pela sabatina mantendo o nível da primeira resposta, e não precisariam sequer de segundo turno contra o juiz Moro.

Não era tempo de divagar. O Sílvio queria saber da tal receita que deu origem à gloriosa campanha vira-lata.

Como todos acompanharam, os mandados de prisão já endereçavam dois terços do Congresso, e metade dos suplentes. A Polícia Federal agora batia ponto nos aeroportos com um contingente inédito, à espera dos fugitivos diários do expurgo político. Criativos como eram, os corruptos brasileiros agora aderiam à moda da escapada marítima, refugiado-style, pois com iates confiscados, restava alugar uma vaguinha em algum barco pesqueiro. Deixar os ternos com aroma de pescada e tainha.

O Brasil estava redefinindo o conceito de preso político, com todo o constrangimento e orgulho que isso gerava à nação.

O patriotismo se inflamava ainda mais pois, se política, social e economicamente o país ia de mal a pior das pernas, virtualmente havíamos acabado de ganhar a Terceira Guerra Memeal, dessa vez contra os poderosos americanos, que podiam entender de espionagem e bombas atômicas e dominação mundial, mas não tiveram a menor chance contra o rolo compressor brasileiro de memes.

O Brasil havia apresentado ao mundo um novo formato de imperialismo, utilizando seus dois recursos naturais inesgotáveis - humor e tosqueira, em formato hashtag nuclear.

Nessa hora Sílvio dispara sua inconfundível gargalhada. Ele sabe que no Império Mêmico Brasileiro é um deus, e suas pegadinhas uma religião. 

Por trás das câmeras, um produtor se emociona com os índices de audiência. Se Memê realmente existisse, poderia decretar a volta da monarquia naquele mesmo instante, que iriam em Petrópolis confiscar as coroas dos Orleans e Bragança.

Mas não. Memê iria ganhar era no voto, no joinha constituinte e democrático de cada brasileiro.

Vendo o Brasil derivando sem comando e ao mesmo tempo liderando o mundo virtual, a faísca que bastava foi chegar ao último capítulo da segunda temporada de Black Mirror, em que um meme virtual chamado Waldo se torna potência política de uma sociedade distópica.

Foi nesse momento que, como diz o jargão filosófico, "Bateu uma onda forte".

Mas o Sílvio ainda preso no Black Me... Black o que? Rá ráaaêê.

Mas a grande jogada, a grande jogada mesmo Sílvio, ele tenta retomar o foco para destrinchar o trunfo. A grande jogada foi fazer algo até então impensável na filosofia mêmica brasileira - a grande jogada foi pela primeira vez na história rechear o meme. Ancorar a zoera em conteúdo realmente sério e relevante. Essa foi a fase mais difícil, o diferencial, o cavalo de troia.

Um trabalho árduo de pesquisa e estudo e conexão com quem sabe das coisas, muita pergunta e ainda mais estudo, até construir um plano de governo decente, sem grandes paranauês, porém honesto e abraçando os principais anseios do povo. Um plano baseado nas reformas mais óbvias e gritantes para desarmar as engrenagens do sistema político-econômico que por séculos mantém o país no estágio evolutivo da eterna palhaçada.

Recheio pronto e abrigado num site, veio a parte fácil. Fotos de vira-lata no Google, Futura extrabold em amarelo, um nome populista de duas sílabas que remete ao grande orgulho da nação, e estava pronta a campanha mais revolucionária da democracia moderna brasileira.

Uma campanha sem partido, sem candidato, com honestidade e necessidades básicas envoltas em zoera virtual da melhor viralidade. Talvez a primeira campanha da história a representar fielmente a identidade de um povo.

Convencido e desarmado, Sílvio quase reluta em fazer a pergunta de um milhão de likes. Mas ele precisa, ele precisa perguntar, pois os milhões assistindo também querem saber: Como você espera materializar essa campanha? Afinal, não dá para um cachorro ser candidato no mundo real, muito menos a foto de um cachorro, muito menos a foto de um cachorro sem partido.

O que o Sílvio quer perguntar mesmo é, se agora que jornalistas independentes finalmente descobriram e revelaram a identidade por trás do fenômeno Memê, se ele vai se apresentar, se ele...

"Se eu vou assumir a campanha do Memê e me tornar candidato? Nem a porrada".

O anticlímax foi tamanho que feneceu o invencível sorriso do Sílvio. A equipe não aguentou e o exaspero foi captado pelo microfone cromado preso a seu peito. Mas como, mas... mas e agora? E o povo? E o Memê? Para onde vai tudo isso? Todo o esforço...

A deixa que ele precisava. Já esperava por esse momento. Precisava dizimar a esperança geral para propor sua ideia mais provocante e polêmica. Ele precisava de um silêncio para preceder o esporro.

"Eu não vou ser candidato por um motivo simples, Sílvio. Não posso. Nossa Constituição prevê no artigo 14 a idade mínima de 35 anos como condição de elegibilidade para Presidência da República. E como você sabe, o plano de governo do Memê é enfático no respeito à Constituição. Então eu estou curto 10 anos nessa condição, ou seja, mesmo que eu quisesse, não daria".

O silêncio no estúdio do SBT era sepulcral. Ninguém ousava dizer o que todos pensando em uníssono - "Dá o comando que a gente muda esse artigo da Constituição AGORA". 

Afinal, não é como se tivesse sobrado muita gente para se opor no Congresso.

Mas ele já tinha a solução planejada, e antes que alguém externasse a proposta de avacalhação constitucional, emendou, da pausa dramática:

"Essa limitação também impede o convite a uma liderança estudantil das escolas ocupadas, Sílvio, como eu pensei resolver esse problema, no início. A molecada é ainda mais nova do que eu. Então o que dá para fazer, e o que a campanha do Memê fará, com anúncio agora em rede nacional, se você me permite, é organizar um plebiscito entre todas as mais de 300 escolas ocupadas pelo país. Desse grande plebiscito democrático de jovens estudantes, vamos chegar ao nome de um professor que tenha mais de 35 anos.

A esse professor, representante de confiança da juventude brasileira, a mesma que produz memes e mantém o bom humor enquanto resiste bravamente pelo direito a uma educação de qualidade, a esse professor Sílvio, eu quero estender não só o convite, como todo o meu apelo e apoio para assumir o projeto de futuro existente na campanha do Memê.

Só assim, com um professor da rede pública escolhido por estudantes em luta, só assim eu acredito que essa grande jornada vai ter valido a pena, e quem sabe nós possamos criar um novo perfil de representante democrático para liderar nosso futuro.

Um professor público como presidente, Sílvio.

É tudo que o Memê espera para o Brasil em 2018."

H.I.

 

Mundo ao contrário fistáile by Hugo Inglez

Não tem nada que rode mais meu pensamento do que andar de um lado para o outro sem destino. Quem já me viu construindo uma ideia conhece bem o hábito.

Ficar sem o endereço para achar em Botafogo tem o mesmo efeito.

Sugiro ler como foi escrito - num respiro só.

Por algum motivo em comum, para variar by Hugo Inglez

Noossa ia ser bonito, juntar todo mundo numa só manifestação, por algum motivo em comum pra variar.

Cassar o Cunha. só isso. A gente veio o país inteiro para rua hoje avisar que é pra botar o Cunha fora, já que ele não se dá à elegância. Hoje a gente só quer isso mesmo, tá geral de acordo.

Um milhão de todo o plural de povo com um único pedido.

Saiu Cunha? Legal, essa semana a gente quer o Renan fora. Ainda todo mundo de acordo por aqui. Hoje é milhão só para expulsar o Renan.

Corta as cabeças do Congresso para passar o recado.

Mas empolga não. Vamos manter no interesse comum, na unanimidade. Acabou a unidade em relação aos indivíduos? ok, deixa a pf continuar batendo nas portas.

A gente podia continuar junto, pra variar. Dessa vez sei lá, cortar uns privilégios específicos e transformar de volta em cargo público a "profissão" de político, que passou a significar empresa privada pessoal.

Dá pra azedar o sabor de terceira.

Corta o patrocínio privado de campanha, de vez. Funcionário público trabalha para o público, eu você o chefe é nós, pagamento em impostos. Empresas trabalham com o governo de acordo com a competitividade de suas propostas em processos regulados. Isso é princípio básico de esquerda E direita.

O que mais tem é empresário querendo competir livre desse sistema de propinas e "doações".

Então um diazinho na semana o país parado para garantir o entendimento do recado. Agora doação é individual, caixa dois é caixa dois e propina é propina. Revê aí seus contratos publicitários.

Na semana seguinte todo mundo volta para pedir o fim do foro privilegiado.

Afinal funcionário público é meu e seu funcionário, recebendo muito bem por isso. Se eu disser que funcionário merece privilégio em relação ao chefe, vão me chamar de comunista na hora.

Então o foro privilegiado está em total desacordo com os ideais de esquerda e ao mesmo tempo é um privilégio bem comunista ativo no sistema. Fica até um monstrinho carismático.

Um dia da semana para acabar com o monstrinho. É todo mundo julgado igual.

se bem que não.

Corrupção podia ser crime hediondo. Não? atender um pouquinho aos demônios.

(talvez não seja crime hediondo em um país civilizado, mas país civilizado não precisa de assento preferencial. Por aqui se desvia de merenda, pensão e hospital, então por aqui corrupção precisa de agravante, porque mata muito e sem olhar na cara, na covardia).

Três dias na rua de todo mundo junto, com um só pedido simples, em comum acordo, para variar.

Três semanas de consenso sobre problemas Muito errados e estratégicos.

Porque imagina as campanhas de 2018 com essas novidades:

- agora a campanha pode sair bem cara, para levar sem representatividade.

- se a pf pegar o caixa 2, o julgamento é pelos moros e não pelos ministros.

- se condenar, hediondo é tratado da forma como se lê.

Ainda avisa que a gente vai continuar retirando privilégios, os auxílios-a-porra-toda. Ao invés de discutir com seu esquerdista favorito o fim do Bolsa Família, soma com ele na manifestação da semana para acabar com os Bolsas Políticos. Nisso a gente concorda todos.

Nisso a gente deixa os antigos donos do mundo preocupados em apagar a luz ao sair do gabinete.

Os efeitos desses pequenos grandes consensos seriam imprevisíveis. Chance de faltar candidato. de entrar muita gente diferente, até meio nada a ver, com uma veia pública e meio maluca para os novos termos do cargo.

Sabe médico, que nasce médico e é meio maluco por isso? Abrindo gente, remontando gente, salvando gente... A gente podia ver se tem político que nasce pra ser político de verdade. Melhorar e salvar vidas com decisões definitivas a um ritmo devastador de trabalho e responsabilidade. 

Sem muitos obrigados.

Imagina aparecendo alguéns com esse pique já em 2018. Pode vir as bizarrices, pode vir os mais ousados dos antigos. Desde que gente nova e séria e no compromisso tenha uma via limpa para apresentar propostas e botar a cara, a gente tá afinando a democracia por intervenção popular direta e organizada, ao invés de ficar discutindo em cima do fantasma do filme de 64, sobre o que do mesmo vamos manter improvisado no poder.

H.I.

Sugestões para melhorar o seu país by Hugo Inglez

A curto prazo (imediatamente):
- Ouve mais
- Observa mais
- Lê Muito mais
- Fala menos
- Para de gritar
- Para de achar que só você e quem concorda contigo sabem a solução do problema
- Para de assistir Globo
- Para de seguir o twitter da Lei Seca
- Para de acelerar no amarelo e driblar trânsito pelo acostamento
- Para de furar fila
- Para de jogar lixo no chão
- Para de dormir no assento preferencial
- Para de esquecer dos seus impostos
- Para de vestir camisa da CBF
- Para de escolher carreira pública para trabalhar o mínimo possível
- Rasga sua carteirinha falsa de estudante
- Desabilita o gatonet e o de luz
- Escolhe pelo menos uma dúzia de canais de informação, do mais canalha de direita ao mais bitolado de esquerda
- Para de compartilhar sem conferir a veracidade da fonte
- Para de compartilhar vídeo íntimo alheio no whatsapp
- Para de trair seu/sua namorado(a)
- Para de financiar qualquer tipo de tráfico
- Para com qualquer tipo de suborno
- Para de endossar e reproduzir discursos de ódio
- Para de impor sua religião (ou a falta dela) aos outros
- Para de denegrir sua própria cultura (incluindo funk e sertanejo)
- Para de aceitar regalias cuja origem você desconfia e/ou desconhece
- Para com o Popcorn Time e toda forma de pirataria
- Para de usar o Netflix do amigo
- Para de contratar serviços para pagar "quando der"
- Aprende de uma vez por todas que honestidade demanda sérios sacrifícios de dinheiro, tempo e conforto, e ser honesto tem muito a ver com o que hoje você considera ser otário.

A médio prazo (2018)
- Os partidos citados/investigados na Lava-Jato até agora são: PP, PMDB, PT, PSDB, PTB e DEM
- Partidos não citados na Lava-Jato: PSOL, PDT, PSTU, PV e outros
- Partidos fundados recentemente: Novo e Rede Sustentabilidade
- Vote de acordo com a sua própria consciência (e apenas segundo esse critério)
- Anote as propostas dos seus candidatos
- Anote o email dos candidatos votados
- Seja chato e incansável nos emails de cobrança das propostas

A longo prazo (seus filhos)
- Ensina que o jeitinho brasileiro acabou
- Ensina que a cola na prova acabou
- Ensina que assinar trabalho pelo amigo e vice-versa acabou
- Ensina que matar aula acabou
- Ensina que baixar música e filme acabou
- Ensina que depois dos 18 é depois dos 18
- Ensina todos os sacrifícios que você implementou para ele nascer num país melhor, e que você não espera nada menos do que o mesmo.

Se você achou essa lista grande, ela é só a ponta do iceberg do problema chamado nós-povo-brasileiro. Enquanto você não for capaz de adotar esse Mínimo à sua conduta, faz igual a mim, se poupa da hipocrisia e segue à risca as 5 primeiras sugestões, até ser capaz de aplicar o resto.

Exigir a mudança do outro primeiro é a maior corrupção entranhada na nossa nação.

H.I.

O primeiro longe e de novo juntos (vintenove na conta) by Hugo Inglez

Uns nove meses antes, quando agendamos essa data para dividir com o Kelly Slater (e nesse ano especialmente com o Deadpool e o disco novo do Kanye West), eu e Rique já dividíamos o pequeno apê na barriga da Mamãe Ursa Dona Cátia. Cada um no seu quadrado placentário - para dissabor dos univitelistas. Acabamos nascendo bastante ligados entre a gente e também à ideia de individualismo.

Um bebê no guarda roupa azul, outro no amarelo. E às vezes ao contrário. Enfim, o importante é que Dona Cátia teve o discernimento fashion de não vestir os filhotes iguais com roupas iguais. Afinal, uma senhora crueldade cafona se divertir com a semelhança alheia.

E que comece o jogo dos sete erros mais divertido que você já entrou em 2016. Sete fotos para adivinhar quem é quem (resposta no final do post). Foto 1

E que comece o jogo dos sete erros mais divertido que você já entrou em 2016. Sete fotos para adivinhar quem é quem (resposta no final do post). Foto 1

Foto 2 (desculpa a haglan dos menó vesgo)

Foto 2 (desculpa a haglan dos menó vesgo)

Foto 3 (Mamãe Ursa gatíssima)

Foto 3 (Mamãe Ursa gatíssima)

Foto 4 (don't believe the hype)

Foto 4 (don't believe the hype)

Foto 5 (don't believe the hype combinando óculos com a estampa)

Foto 5 (don't believe the hype combinando óculos com a estampa)

Foto 6 (nenhuma legenda engraçadinha veio à mente, só amor)

Foto 6 (nenhuma legenda engraçadinha veio à mente, só amor)

Foto 7 (S.O.A.)

Foto 7 (S.O.A.)

Os armários continuaram separados por muito tempo. Melhores amigos que disputavam por hobby e mantinham um pé firme aquariano na suprema singularidade do ser. Cada um mijava à sua maneira os limites de personalidade, mesmo que para isso eu precisasse ser o pré-jovem do hiphop (com direito à cordão gangsta bling com pingente esquizofrênico de cruz gótica), enquanto o Rique no punk rock blinkiano das camisas piratas de estampa tóxica.

"E namorada, vocês já trocaram?"

Não fera, e temo dizer que se te diverte a ideia de dividir a namorada do seu irmão, você possui um senso familiar e fraterno BEM distorcido.

Nessa e outras piadas - a imensa maioria de ruim a pior - não escapamos de dividir a mesma sina. A melhor foi quando perguntaram se eu já tinha acordado e, ao encarar meu irmão dormindo, pensei "Ih fudeu, morri!".

Não chegou a acontecer, mas parabéns seja lá quem foi por talvez a única piada gêmea boa até hoje. O que já aconteceu foi de acordar vomitando e ocorrer do meu irmão estar dormindo na cama de baixo. A gente dividiu um quarto minúsculo até os 24 anos e não havia muito espaço para manobra.

Os mais chegados podem fazer outro jogo e tentar adivinhar a idade pelo nível de tinta no corpo. A dica é olhar pelas beiradas.

Os mais chegados podem fazer outro jogo e tentar adivinhar a idade pelo nível de tinta no corpo. A dica é olhar pelas beiradas.

Não tenho o menor problema em dividir isso, afinal o Rique já vomitou em mim Muito mais do que eu nele. Antes de ser premiado com uma pancreatite, ele passou a adolescência visitando o Barra D'Or para aquela glicose esperta de final de noite, e eu era sempre o encaminhador designado.

Acabamos desenvolvendo uma cumplicidade ativa apenas na necessidade. Quando pequenos e ele usava botas ortopedicas, eu tentava defender do bullying. Isso antes de nos tornarmos praticantes do bullying. Isso muito antes da palavra bullying ser agregada ao vocabulário moral. Antes do Rique abandonar as calhas para se tornar aquele tatuador fodão com uma supergata ao lado que parece de sacanagem com a sua cara quando entra na fila preferencial do banco para sacar suas onças feitas de Kuro Sumi.

Sim, ele tá de sacanagem com a sua cara, tive certeza disso quando precisei de alguém para desenhar minhas ideias de tattoos e ele puxou o coelho da cartola como se fosse pêra ao leite.

• Vai lá e ostenta essas calhas com meião numa época em que não existia a palavra bullying. Agora qual é o problema atrasando sua vida mesmo?

• Vai lá e ostenta essas calhas com meião numa época em que não existia a palavra bullying. Agora qual é o problema atrasando sua vida mesmo?

"As tatuagens de vocês são iguais?"

"Mas os dois gostam muito de tatuagem né?"

Sim, ambos também acreditam que puxar assunto é uma arte tão nobre quanto o silêncio. Mas só tem um tatuador na dupla. E talvez isso tenha quase ferrado com tudo.

Sempre teve só um de cada.

Mas não importa o que fizéssemos, as pessoas sempre enxergaram um só, o nêmesis Huguenrique. Admito que a gente pediu. Os dois renegados do Direito, tatuados, trabalhando com arte. Os dois meio que um só. No escuro da produção criativa underground então...

A ironia é que apesar de sempre com os mesmos objetivos e por isso juntos, tínhamos prazer em trabalhar como unidade em apenas um tipo de projeto. Os aniversários. O um-mais-um-do-dois de fevereiro, quando o objetivo se resumia a tocar o terror da forma mais categórica possível.

A gente sempre gostou de ficar marcando nas festinhas à espera do fotógrafo para entrar em formação power ranger com aquela carinha de mau e a mão cobrindo a boca e queixo. 

A gente sempre gostou de ficar marcando nas festinhas à espera do fotógrafo para entrar em formação power ranger com aquela carinha de mau e a mão cobrindo a boca e queixo. 

Não falei?

Não falei?

Até hoje um dos meus retratos favoritos. 27 brilhando na beira do rio.

Até hoje um dos meus retratos favoritos. 27 brilhando na beira do rio.

Foi assim que sem querer querendo, acabamos armando odisseias históricas como uma rave insólita e fluorescente no meio do mato e um baile de carnaval que alguns anos mais tarde se tornaria o Heavy Baile que hoje você comparece para sarração desenfreada.

Mas no último aniversário já estávamos juntos-separados, e durante o ano a competitividade alcançou contornos dramáticos, promovendo o primeiro racha sério da dupla dinâmica. Bem mais sério do que foi aberto para você. Para piorar, o Rique botou uma distância geográfica na conta ao migrar para o velho continente.

Foram muitos os corações quebrados nesse caminho triste, afinal a gente só sabe fazer as coisas bem feito. "Isso tá muito errado, MUITO errado mesmo!", era só o que eu ouvia. E meus ouvidos davam razão, e meu coração todo estourado e melancólico.

Mas às vezes você precisa demolir o castelo para renovar as fundações. E foi o que a gente fez. Na distância achamos outro tipo de cumplicidade, não mais baseada na necessidade, mas na vontade de estar junto, criar junto, construir junto, somar os superpoderes e ao invés de mirar apenas o fim, aproveitar a porra do caminho.

E é isso que estamos fazendo quietinhos desde o início do ano, ao nosso melhor estilo ponta de iceberg, criando a volta às raízes, a dupla que não podia fumar em casa então ia tramar a dominação mundial ao final da descida no posto 4 da praia da Barra, o batizado Píer Criativo, onde as primeiras e maiores ideias surgiram para depois desvirtuar.

Pois não vamos desvirtuar mais. Estamos ficando velhos pra isso. Esse o primeiro aniversário em 29 que não passo com meu irmão. Para compensar, combinamos que também pela primeira vez vamos trabalhar em dupla os 365 dias até o próximo apagar de velinhas. E então os 365 seguintes. Para orgulhar a Dona Cátia, e a Vó Bolinha, e o Doutor Armando e todos os amigos-família que intercederam com ferocidade para que a união vencesse a teimosia.

Você que não é novinho, sabe o Super Gêmeos Ativar? Então, ao invés do soquinho de poder, a gente dá uma cabeçada criativa e então ativa em forma de fotografia, forma de vídeo, de escrita, de tatuagem, de ilustração. Forma de tudo junto misturadão. Forma de graffiti não tem, mas ok nesse quesito já existem outros gêmeos quebrando tudo para a cena brasileira.

Por aqui só super herói oldschool. Foto 8 de bônus.

Por aqui só super herói oldschool. Foto 8 de bônus.

Você que continua não novinho, sabe os Gremlins? Então, os primeiros filhotes regados depois da meia noite já estão soltos no prédio. A ilustra lá de cima é do Rique, pois a foto clássica dos gêmeos Inglez na beca do suéter estava manjada.

Ele também ilustrando meu novo projeto "Não tenho smartphone então observo pessoas na rua", junto com o monstrão do Cadu Confort.

Esse só o aquecimento para afinar a rotina no fuso horário. O mesmo fuso que tá avisando que tá na hora de trocar um skype com meu irmão. Não vejo ele há meses.

Então que venha 2016 e deix'us garoto brincá.

Parabéns meu irmão, um é big, é big, é big é big e muito big para gente.

H.I.

 

** Resposta do jogo dos sete erros

Foto 1 - Hugo na canhota, Rique de amarelo

Foto 2 - Rique na canhota, Hugo na baba

Foto 3 - Hugo em pé, Rique na bolação do sol

Foto 4 - Rique na canhota, I just don't give a fuck

Foto 5 - Rique na canhota, Hugo descobrindo como funciona esse negócio de óculos caindo no rosto

Foto 6 - Hugo de cinza na canhota, Rique no estilo da polo

Foto 7 - Hugo dirigindo, Rique na contenção

Foto 8 - Rique Giraya, Hugo Jaspion

Se você é ninja e sabe das manhas e acertou todos acima, aí vai o teste no level super hard. Porque ninguém consegue fugir do hood combinado à vida toda.



Vinagre (crônica) by Hugo Inglez

• Escrevi essa crônica em 2010. Seis anos depois to morando em Laranjeiras, num pequeno ap cujo lado esquerdo da vista é puro verde. O lado direito esse da foto. As visitas BEM poucas, e outras coincidências com o texto.  Vai saber.

• Escrevi essa crônica em 2010. Seis anos depois to morando em Laranjeiras, num pequeno ap cujo lado esquerdo da vista é puro verde. O lado direito esse da foto. As visitas BEM poucas, e outras coincidências com o texto. 
Vai saber.

O José mora no apartamento 603 do seu prédio em Laranjeiras. Antes de alugá-lo, durante a visita com o corretor, este ficava repetindo sobre como a vista era privilegiada e olha todo esse verde, essa natureza, o ar até mais puro e nossa!, dá para fazer um cartão postal dessa vista. 

O José concordou, dava para emoldurar a vista num daqueles quadros mal pintados de portaria.

“Sim! Essa vista é uma pintura!”, exultou o corretor sem saber direito se o comentário havia sido desenhado como um elogio. Os braços do atarracado homem estendiam-se em pregação enquanto ele tentava aumentar o tamanho da pequena gavetinha residencial, suas mãos pequenas no paletó grande demais, e José pensou -, como não gostar de um filho da puta tão esforçado e sem talento como esse? 

A vista era o melhor de um apartamento bem cachorro. Velho, minúsculo, um calor palpável às 5 da tarde. O corretor suando sua camisa social cafona-salmão até deixá-la transparente no peito.

José entendeu porque o homem tão ensaboado para fazer a reunião durante o horário de almoço. Devia fazer Bangu em Laranjeiras dentro daquela gavetinha.

“A vista não é muito a minha, gosto mais de andar baixo, ver gente. O apartamento uma grande merda, e tá calor pra caralho, é safadinho eu sei qual é a tua. Mas vou ficar com ele”.

Durante a frase os olhinhos do minúsculo corretor intercalaram entre apreensão, desalento, ultraje cínico, terminando esbugalhados no desentendimento.

"Uma ótima decisão, José", ele logo se recuperou. Não iria deixar sua completa falta de leitura do cliente atrapalhar o negócio. 

A verdade é que a decisão estava longe de ótima. Mas José tinha que entregar seu antigo apartamento em menos de duas semanas, e estava com preguiça de ir até Botafogo ouvir o outro corretor tagarelar sobre como a vista da Baía uma pintura.

José estava cansado e com sono e com as costas ardendo, as feridas pegajosas na camisa. Ela havia arruinado suas costas na unha, o que fez ele dormir mal e de bruços. José só queria uma ducha fria e permanecer sem camisa.

Lambendo as feridas à espera dela aparecer para continuar a violência.

O corretor, ainda sem sentir muita firmeza, perguntou se o José não gostaria de ver outros imóveis na área.

Não, as costas do José estão matando ele.

O corretor, numa empatia cretina, divide que também tem problema nas costas.

José explica que não é problema, é unha mesmo. Unha e uma falta que ele não consegue explicar direito. Mal conhecia ela, não entendia como uma desconhecida podia interferir assim com sua solidão convicta.

Foi quando o corretor reparou em José fugindo de órbita para dentro de seus pensamentos. Não haveria explicação para aquele homem. Em breve não haveria mais negócio. Ele teria que se contentar em fechar contrato sem saber como nem porquê.  

Um ano e pouco depois e as pessoas que visitaram o apartamen 603 ainda não completam duas mãos cheias. José não é dos mais fáceis de entender, e continua convicto na solidão.

Ela nunca mais apareceu, e até hoje ele pensa nisso. As tiras de carne viva secaram nas suas costas, mas continua ardendo como vinagre não saber o que se fez dela.

H.I.

Por trás das nuvens • (crônica) by Hugo Inglez

- Minha velhinha, ele se foi e nós ainda não, e eu entendo que essa ordem das coisas está toda errada, mas acho que descobri o porquê dessa inversão cruel mantendo a gente por aqui. Você vai precisar desligar a tv e vir comigo. Você nem assiste mais a essa tv”.

A televisão ligada para passar as horas, idaí? O relógio muito chato e muito injusto. Ir pra onde esse velho chato quer me levar? Não preciso ir a lugar nenhum. Esse quarto está bom. Mais que bom. Nosso tempo já passou há muito tempo, continuamos aqui para fazer companhia à tristeza um ao outro.

Digo isso a ele. Digo a ele pra me deixar estar.

Mas quem disse que ele vai obedecer? Há 48 anos esse homem teimoso não me deixa estar. Quase meio século e ele não desiste. Desde quando essas mãos sem rugas, os dedos dele já entrelaçados, conduzindo para a amenidade. Eu sempre muito grave, muito pessimista, muito pesada. Devo ter atraído esse destino para a gente.

Digo isso a ele. Digo que a culpa pelo nosso filho é minha, não porque acredito nisso, mas por que sei que vai machucá-lo, e eu quero machucá-lo, para ele se afastar e me deixar em paz com meu escuro e minha tv.

Mas ele não é homem de cair num só golpe. Reagrupa o centro e volta a insistir para que eu abandone meu abrigo de penumbra. Ele tem algo a me mostrar do outro lado da cortina, lá embaixo. Eu preciso ir com ele, uma última missão da nossa grande dupla, que seja. Depois ele não vai pedir mais nada.

Faço ele prometer, faço o velho chato prometer que essa é a última de suas grandes ideias. Ele sempre volta de suas andanças com grandes ideias para a grande dupla. Foi assim que adotamos o gato, e viajamos para o Chile numa terça-feira, e compramos a esteira para fazer comida japonesa. Foi assim que fomos presos no estacionamento do shopping, aquele episódio constrangedor.

Grande dupla... só se for de outros tempos.

Faço ele prometer, antes de mexer um centímetro da minha cadeira-sarcófago.

Ele promete, e pergunta com voz tremida se não somos mais uma dupla. Sei que esse o seu ponto de quebra. Se não formos mais uma dupla, ele perde o um que é, e a vida que já levou nossa maior criação, vence de vez.

Então levanto em silêncio e carrego todo o mal humor para puni-lo pelo caminho. 

O caminho só vai até o térreo do nosso prédio. O que ele tinha a mostrar era o outro lado da janela de cortinas fechadas. O outro lado da minha escuridão.

Ele pergunta se estou vendo.

Sim, a janela do nosso quarto, idaí?

- Eu tenho andado bastante minha velhinha, você sabe, ver se caminho os pensamentos. Quando volto, sempre olho para você lá em cima, para nós, para tudo. E ontem eu percebi, nós moramos atrás do céu, na sombra das nuvens. Nosso menino visita todo dia a essa hora, meu amor, eu senti ele ontem e to sentindo agora. Nós moramos mais alto do que imaginávamos, está vendo? Me diz que você também está vendo. Nosso menino deu um jeito de continuar com a gente. Eu quero abrir as cortinas e deixar ele entrar, mas só se você estiver comigo nessa. Eu ando tão perdido minha velhinha, sentindo tanto a sua falta".

Velho chato, precisa fazer tudo em dupla. Aviso a ele que até onde formos, essas cortinas não fecham nunca mais. Aviso ao velho chato que vamos subir imediatamente e jogar a televisão pela janela. Aviso que nessa noite vou fazer japonês e que precisamos de um gato. E de viagra pois temos um estacionamento de shopping para visitar.

Aviso ao velho chato para não soltar nunca mais da minha mão, que eu medo de altura.

Nosso menino aqui conosco, de volta, aqui em cima em meio às nuvens. 

H.I.